Driblando a democracia

Driblando a democracia

José Renato Nalini*

31 de julho de 2020 | 05h30

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Assisti a um curta-metragem com esse título e confirmei aquilo que já sabia e, também, o que intuía. Fala-se muito em Democracia, mas nossa prática é muito distante do padrão idealizado.

O governo do povo, pelo povo e para o povo é truísmo na verdade inexistente em todo o mundo. O ser humano é muito vulnerável à ambição e à vocação de comandar o semelhante. Basta uma partícula de autoridade e os mais insuspeitos perfis se transfiguram. Não há como vencer o vício de origem.

Todavia, há situações flagrantes que poderiam merecer tratamento condigno. O mais urgente é a miséria. É possível compatibilizar a retórica dicção “todo o poder emana do povo” com a invisibilidade a que eram condenados milhões de semelhantes? Ou com a exclusão a que são lançados outros milhões de seres humanos?

Existe Democracia quando milhões de nacionais subsistem sem teto, sem condições dignas de subsistência, sem saneamento básico, sem saúde, educação, transporte e perspectivas de um amanhã saudável?

Parece que não.

Algumas verdades foram esquecidas e sepultadas. Por exemplo: o Estado, este aparato cada vez maior e a cada instante mais perdulário, foi concebido para ser instrumento de facilitação da vida humana. Converteu-se em finalidade. Existe para se retroalimentar e se fortalecer. A praga da reeleição evidencia esse trágico acidente de percurso.

Como ferramenta, o Estado tenderia a desaparecer. No momento em que as pessoas atingissem um grau de maturidade hábil a propiciar um convívio despido de violência, não haveria mais necessidade dele.

O que se enxerga, em lugar disso?

Um Estado onipotente, onipresente, onisciente. Ele sabe de tudo. Ele pode de tudo. Ele atua sem considerar o destinatário. Vale é a vontade soberana de quem está no ápice do poder.

Para legitimar-se, ele instaurou a burocracia. Transforma o cidadão em súdito. Ele é espoliado por uma escorchante carga tributária, talvez a maior do mundo – competindo com o ranking de país mais desigual, em que não encontra concorrente – e é oprimido por exigências kafkianas surreais.

Existem cálculos confiáveis a respeito do tempo que o brasileiro despende com a burocracia. As obrigações tributárias acessórias: a vítima se oferece ao Estado em holocausto. Ela mesma precisa prestar contas de suas finanças e se falhar, será impiedosamente sancionada.

Por que a passividade e não a rebelião?

A primeira causa é uma equivocada concepção do que seja educar. No momento em que se entrega ao Estado algo tão sério como educação, a família declina de sua responsabilidade primeira. O Estado, como regra, quer resultados. Para potencializar chances eleiçoeiras. Daí o adestramento dos educandos, que devem decorar informações disponíveis nas redes sociais, muito mais atualizadas e confiáveis. Decoram e são avaliados. Tudo para formar rankings que satisfaçam a ambição do chefe.

Adestrar não é educar. Fazer decorar não é educar. Trancar crianças num quadrado com cadeiras enfileiradas e fazê-las ouvir preleções é fazer com que se desinteressem do aprendizado.

Celebra-se a universalização do acesso à escola. Isso significa universalização do acesso ao conhecimento?

Por que motivo é que as crianças ainda permanecem submissas em suas anacrônicas salas de aula e os jovens praticam o esporte da evasão? Não é sintomático o ódio que parte da juventude alimenta em relação à escola? Do episódio da EE Raul Brasil, em Susano, nada a se extrair como lição?

Por isso as gerações desmotivadas, ou movidas a ira e ódio, fanáticas por fofocas, ávidas por disseminarem mensagens de sarcasmo, ironia, com o humor cáustico a disfarçar violento fundamentalismo.

Inebriadas pela vontade de eliminar o adversário, as massas se esquecem da devastação ambiental, do isolacionismo a que o Brasil se condenou, quando desrespeita tratados internacionais, ofende chefes de Estado, zomba de culturas tradicionais e multiplica o festival de sandices da grande quermesse.

Educação de qualidade faz abrir os olhos. Por isso é evitada. Não interessa aos detentores da autoridade investir na formação de uma cidadania consciente.

Por isso é que não é difícil convencer o crente a ser ainda mais radical em sua crença. A fanatizar ainda mais o fanático. A tornar, como se possível fora, ainda mais convencido de sua insuperável sapiência o mais tosco dos ignorantes.

É bom assistir a “Driblando a Democracia”. O risco é concluir que ela já foi driblada e que o placar é a inevitável vitória de seus detratores.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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