Dr. Hélio, ex-prefeito de Campinas, senta no banco dos réus de Moro ao lado de Delúbio

Dr. Hélio, ex-prefeito de Campinas, senta no banco dos réus de Moro ao lado de Delúbio

Juiz da Lava Jato abriu ação penal nesta sexta, 21, contra prefeito cassado do PDT, ex-tesoureiro do PT e outros quatro acusados por lavagem de dinheiro; negócio envolve empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões, em 2004, feito no Banco Schahin por pecuarista amigo de Lula para o partido

Julia Affonso, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

21 Outubro 2016 | 17h15

Ex-prefeito de Campinas Dr Hélio, cassado no escândalo Sanasa, e Lula / Reprodução

Ex-prefeito de Campinas Dr Hélio, cassado no escândalo Sanasa, e Lula / Reprodução

O juiz federal Sérgio Moro aceitou nesta sexta-feira, 21, denúncia da força-tarefa da Operação Lava Jato contra o prefeito cassado de Campinas (SP) Helio de Oliveira Santos, também conhecido como Dr. Helio (PDT), por crime de lavagem de dinheiro. Ele passar a ser réu, em Curitiba, junto com o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-presidente do Banco Schahin Sandro Tordin, os empresários Natalino Bertin e Armando Peralta e o publicitário Giovane Favieri.

Os seis foram denunciados no dia 18 acusados de lavagem de dinheiro envolvendo cerca de R$ 4,2 milhões, provenientes de um empréstimo fraudulento no valor total de R$ 12 milhões, concedido formalmente em outubro de 2004  pelo Banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai, mas que foi, de fato, para o pagamento de dívidas do Partido dos Trabalhadores, segundo a Lava Jato.

Segundo Moro, “há, em cognição sumária, prova documental, decorrente do rastreamento bancário, de que cerca de metade do valor do empréstimo milionário percorreu o caminho afirmado pelo MPF, do Banco Schahin para a Bertin Ltda. e desta para as empresas King Graf, NDEC Núcleo de Desenvolvimento de Comunicação, Omny Par Empreendimentos e Consultoria Ltda.e Castellar Modesto Guimarães Filho”.

Os valores teriam sido repassado, segundo a acusação no interesse “do Partido dos Trabalhadores, representado no ato por Delúbio Soares de Castro”.

O processo é um desdobramento das investigações sobre a operação financeira, que já rendeu duas ações penais na Lava Jato. Desta vez, a força-tarefa identificou que parte dos R$ 12 milhões teria sido utilizada para quitar gastos de campanha do então candidato à prefeitura de Campinas Dr. Helio, em 2004.

Apesar de ser do PDT, naquele ano ele foi apoiado pelo PT após o nome da sigla ser derrotado na disputa e, segundo a Lava Jato, parte dos recursos obtidos pelo partido via Bumlai fora usados para pagar empresas de publicidade que prestaram serviços para Dr. Helio no segundo turno das eleições.

O empréstimo no Banco Schahin nunca foi pago por Bumlai, sendo que como contrapartida a Schahin obteve um contrato de US$ 1,6 bilhão para operação de um navio-sonda da Petrobrás. Esta operação já rendeu a Bumlai uma condenação de nove anos e 10 meses de prisão por gestão fraudulenta de instituição financeira e corrupção.

denucnai helio aceite

Caminho do dinheiro. A partir das investigações, a força-tarefa identificou que após a liberação do empréstimo, Bumlai começou a repassar os valores aos beneficiários finais por meio de operações que tinham por objeto ocultar a origem ilícita do dinheiro. Para isso, teria contado com a cooperação de Natalino Bertin, que emprestou as contas interpostas do Frigorifico Bertin para dificultar o rastreamento do destino final do dinheiro, já que esta empresa movimentava elevadas quantias em negócios lícitos.

Do Frigorífico Bertin, aponta a Lava Jato, metade dos valores,seguiram para a Remar Agenciamento e Assessoria Ltda, de Oswaldo Rodrigues Vieira Filho, empresário do Rio de Janeiro que teria se incumbiu de direcionar o valor ao empresário de Santo André Ronan Maria Pinto, episódio já denunciado pela força-tarefa, em abril de 2016 e atualmente sob julgamento do juiz Moro.

Outra parte dos valores, segundo o MPF teria sido direcionada pelo Frigorífico Bertin a credores do Partido dos Trabalhadores. Nesse contexto, a empresa Núcleo de Desenvolvimento de Comunicação (NDEC), pertencente a Peralta e Favieri, recebeu R$ 3.405.000,00.  O pagamento foi como contraprestação pelos serviços prestados a Helio de Oliveira Santos (PDT), mais conhecido como Dr. Hélio, no segundo turno da campanha a prefeito de Campinas em 2004.

Naquele ano, Dr Helio foi o candidato apoiado pelo Partido dos Trabalhadores após a derrota do candidato oficial da sigla, Eustáquio Luciano Zica,  no primeiro turno. Houve ainda a destinação de R$ 500 mil para pagamento da empresa Omny Par Empreendimentos Consultoria e Participações, que era credora dos publicitários Giovane Favieri e Armando Peralta.

Proveniente do mesmo empréstimo do Banco Schahin, o valor de R$ 95 mil teria sido usado para pagamento da King Graf, também por serviços prestados ao Partido dos Trabalhadores na campanha de 2004. Outra parcela, de R$ 150 mil, foi utilizada para pagamento de honorários do advogado de Laerte Arruda Correa Júnior, empresário relacionado a Delúbio Soares, então detido na operação Vampiro.

Uma parcela dos valores obtidos por Bumlai, de aproximadamente R$ 1,8 milhão, segue sem destino conhecido.

 

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