Doria e suas secretarias ministeriais

Doria e suas secretarias ministeriais

Rodrigo Augusto Prando*

12 de dezembro de 2018 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

João Doria, governador eleito do Estado de São Paulo, construiu uma secretaria ministerial, estrelada, por assim dizer. Trouxe à sua futura gestão ministros do Governo Temer. Tal fato é indicativo de que, para Doria, não apenas uma equipe de secretário de notáveis é fundamental, bem como o peso simbólico de suas escolhas na seara política.

Assim, foram confirmados como futuros secretários de governo o seguintes nomes: Vinicius Lummertz, ministro do Turismo e futuro secretário do Turismo; Alexandre Baldy ministro das Cidades para a Secretaria de Transportes Metropolitanos; Gilberto Kassab ministro da Ciência e Tecnologia para a Secretaria da Casa Civil; Sérgio Sá Leitão ministro da Cultura para a Secretaria de Cultura; Rossieli Soares ministro da Educação para a Secretaria de Educação; e, por fim, há pouco, Henrique Meirelles – ex-ministro de Lula e de Temer e candidato à presidência na última eleição – para a pasta da Fazenda.

A equipe formada por Doria é, sem dúvida, muito acima da média se comparada às de outros Estados. Nisso, ponto para o futuro governador que, sempre, faz questão de lembrar sua capacidade como gestor, oriundo da iniciativa privada. Escolher secretários renomados e, em grande parte, mantê-los atuando em suas especialidades é deveras positivo no que tange à gestão pública.

A muitos poderia soar como negativo a saída de ministro de Estado para secretário de governo, mas, todos tendo aceitado, é sinal inequívoco de que reconhecem em Doria liderança e potencialidades para novos projetos, especialmente o presidencial, que Doria nunca abandonou.

Vejamos, por exemplo, Meirelles cuja carreira no mercado é reconhecida e valorizada, além de suas experiências como ministro de Lula e Temer e, não faz muito, disputando a presidência da república; o futuro secretário da Fazenda vislumbra, ao se aliar a Doria, uma boa projeção num espaço que ele domina e que, em breve, pode lhe render ativos políticos importantes.

Outra dimensão a ser ressaltada é que trazer ministros do atual governo para sua gestão é, de certa forma, um afago de Doria a Temer, pois avaliza e dá credibilidade, mantendo, portanto, uma boa porta de interlocução com o MDB.

Em algumas de suas ações, Doria está mimetizando Jair Bolsonaro, especialmente no anúncio da redução de secretárias. O futuro governador tucano sempre foi, no seu partido, o PSDB, o mais aguerrido combatente do lulopetismo e, por isso, tem similaridades com as vestes bolsonaristas.

Já candidato à Prefeitura de São Paulo, Doria conseguiu, de certa forma, nacionalizar a disputa e firmar-se como crítico do péssimo governo Dilma e do desgaste de Fernando Haddad, então, prefeito buscando a reeleição.

Na última eleição, Doria foi, paulatinamente, afastando-se de Alckmin e, dado a isso, o slogan “BolsoDoria” foi propagado com força. Com a derrota de Alckmin na corrida presidencial e seu enfraquecimento no PSDB, a liderança que desponta, com força, é Doria, cujas pretensões, como dito, são o Palácio do Planalto.

No tabuleiro do xadrez político, a movimentação das peças é fundamental, como bem sabemos. Doria herda, de Alckmin, um Estado com dinheiro em caixa, infraestrutura invejável, os melhores índices na segurança pública e com potencialidades em inúmeras áreas.

A escolha de seu secretariado aponta na direção de que envidará os esforços para fazer uma gestão eficiente e eficaz, como uma plataforma natural para se vislumbrar Brasília. Tendo a crer que, em cada ação governamental, Doria buscará dar dimensão política nacional e, também, sempre que possível, viajar o país, consolidando o seu nome noutras regiões. São Paulo pode, por exemplo, realizar parcerias com outros entes da Federação projetando, sempre, o nome do governador em eventos regionais.

Simbolicamente – e política é substancialmente ligada aos símbolos – Doria, ao trazer Meirelles, tem um ganho em seu capital político, como teve Bolsonaro indicando Sérgio Moro, resguardando-se as devidas proporções.

O futuro governador terá, em breve, que participar das discussões dentro de seu partido e da estruturação, quem sabe, de um novo PSDB ou, até, um novo partido, mais à direito e conservador. Tendo, por fim, a caneta para mover esse colosso que é o Estado de São Paulo, o governador poderá, certamente, fazer de muitos aliados futuros prefeitos e vereadores nas próximas eleições municipais, sendo, sempre, peças movidas estrategicamente num jogo de, pelo menos, quatro anos de duração.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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