Doria diz que ‘não teme’ investigação da PF sobre compra de respiradores na pandemia

Doria diz que ‘não teme’ investigação da PF sobre compra de respiradores na pandemia

Governador de São Paulo reagiu ao inquérito da Operação Dragão, que fez buscas contra intermediários do contrato e aponta superfaturamento e direcionamento na transação: "Temos todo interesse que o caso seja investigado"; secretário de Saúde diz que governo agiu como 'era possível para salvar vidas'

Rayssa Motta e Fausto Macedo

23 de fevereiro de 2022 | 14h43

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), reagiu nesta quarta-feira, 23, ao inquérito da Polícia Federal que investiga a compra de 1280 respiradores fabricados na China pela Secretaria de Saúde do Estado no início da escalada na pandemia.

A PF abriu ontem a Operação Dragão e fez buscas contra empresários e representantes comerciais que intermediaram a transação. Como mostrou o Estadão, a investigação encontrou indícios de direcionamento do contrato, superfaturamento de R$ 63 milhões no preço dos aparelhos e lavagem de dinheiro.

Em coletiva de imprensa nesta tarde, o tucano disse que o governo ‘não teme nenhum tipo de investigação’. “Esse é um governo transparente, é um governo honesto. Nós temos todo interesse que o caso seja investigado a fundo”, afirmou.

O secretario de Saúde Jean Gorinchteyn, que ainda não comandava a pasta quando o contrato foi assinado, disse que a negociação seguiu todos os trâmites legais e que, naquele momento, a ‘necessidade era urgente’. O material foi contratado em abril de 2020 para tratar pacientes com covid-19. Na época, já estava em vigor a lei que, diante da emergência da crise sanitária, autorizou agentes públicos a comprarem bens e insumos para o enfrentamento da pandemia sem necessidade de licitação.

O governador João Doria diz que governo não teme investigação sobre compra de respiradores. Foto: Dida Sampaio / Estadão

O inquérito gira em torno dos motivos que levaram o governo paulista a escolher a empresa Hichens Harrison para intermediar a importação dos aparelhos e do preço pago pelos equipamentos. De acordo com o secretário, a seleção se deu por ‘preços, logística e quantitativo’ disponível.

“Era aquilo que era possível para salvar vidas. Graças a isso nosso sistema de saúde não colapsou. Em nenhum momento, nós tivemos pessoas perdendo suas vidas por falta de respiradores, como vimos em outros Estados. Era uma questão necessária e humanitária”, defendeu.

O contrato previa, inicialmente, a compra de três mil aparelhos. A gestão Doria antecipou o depósito de US$ 44 milhões – aproximadamente R$ 242,2 milhões. Após o atraso na entrega dos primeiros lotes contratados, o governo repactuou a compra para receber apenas as 1.280 unidades pelas quais já havia pago.

“Nós tivermos realmente problemas de suprimentos e não foi diferente em relação aos respiradores. Havia uma escassez no mercado nacional e internacional, além de uma requisição administrativa de todos os aparelhos que eram produzidos no Brasil pelo próprio Ministério da Saúde, que não fez a sua distribuição no quantitativo necessário”, comentou o secretário.

Contrato foi assinado em abril de 2020. Foto: Reprodução

A procuradora do Estado de São Paulo, Camila Pintarelli, também lembrou que a compra foi feita em um momento de ‘esgotamento mundial de suprimentos’.

“Essa contratação foi submetida a órgãos de controle interno e externo. Ela também foi auditada por uma empresa para certificar a compatibilidade de preço com a lógica de mercado existente à época, porque não adianta e agente falar de um preço nos dias de hoje, em 2022, quando o cenário de mercado era totalmente diferente em 2020”, defendeu.

Ela também afirmou que, diante do atraso na entrega dos aparelhos, o governo ‘iniciou um processo sancionatório’ contra a empresa, que foi negativa nos registros de compra do Estado e acionada judicialmente.

A Operação Dragão foi a primeira etapa ostensiva da investigação. Os policias federais fizeram buscas em sete endereços em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O material apreendido vai servir agora para subsidiar as próximas etapas da investigação. Além da análise de documentos e mídias em celulares e computadores confiscados, a PF vai intimar todos os envolvidos na contratação.

Tudo o que sabemos sobre:

João DoriaPolícia Federal

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.