Dom Pedro I jornalista

Dom Pedro I jornalista

José Renato Nalini*

22 de junho de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Imperador Pedro I é uma personalidade histórica sobre a qual muito existe a ser estudado, pesquisado e comentado. Neste emblemático 2022, é oportuno revisitá-lo, para mostrar aos jovens que o Brasil tem motivos para se orgulhar de seus próceres.

Uma das facetas pouco exploradas na vida de nosso Primeiro Imperador é a prática do jornalismo. Ele costumava escrever e publicar artigos nos jornais de seu tempo. Ele se servia desses textos para dar a sua versão sobre a história, para contestar orientações recebidas de seus auxiliares, para opinar como homem sobre fatos que estavam sendo noticiados como as fakenews da época. Algo insólito, mas que se mostrou relevante e que teve seguidores até hoje, duzentos anos depois, dos quais é talvez o melhor exemplo o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC comparece, periodicamente, aos jornais. Como é bom saber escrever e se expressar com português castiço, com fundamentação lógica e racional.

Pois Pedro I publicava no Diário Fluminense textos sobre a questão dinástica em Portugal. Também a ele se atribui a redação de cartas contra o redator da “Malagueta”, Luís Augusto May. Assis Cintra chegou um capítulo sobre o jornalismo do Imperador, nas “Revelações Históricas pra o Centenário”, publicadas em 1823. Para esse autor, Pedro I assinava com os pseudônimos “P. Patriota” e “Ultra-Brasileiro”, artigos contra seu antigo amigo e aliado, José Bonifácio de Andrada e Silva, que ironicamente chamava “o Sábio”.

Quando ouviu que alguns brasileiros preferiam que ele fosse à Europa, a ocupar o trono português, ele escreveu um folheto – “A Voz da Verdade” – publicado no Diário Fluminense e assinado por “P.Ultra-Patriota”. Sustentava os males que adviriam de sua saída do Brasil.

Pedro I, atento aos interesses do Brasil e de seu Império, não deixava sem resposta as invectivas dos adversários. É que o seu temperamento era afeiçoado a exercícios fortes e seus artigos logo se denunciavam pela destampada virulência.

À época da Independência, o Príncipe-Regente seguia seu conselheiro José Bonifácio de Andada e Silva, Ministro do Império e dos Negócios Estrangeiros desde 16 de janeiro de 1822. Dois dos artigos assinados por D. Pedro evidenciam isso. Ambos publicados no jornal carioca “O Espelho” e com o pseudônimo “O inimigo dos marotos”, como então eram chamados os portugueses inimigos da desvinculação entre Brasil e Portugal. Num deles, Pedro I fala sobre “a intrepidez paulistana, superior ao infame partido dos pés-de-chumbo”, os adeptos de Portugal. “O povo do Brasil tem tato fino, matonice e cacholice política nata; o que nenhum dos infames do partido desorganizador tem; e se não tivesse alguma mais dessas três coisas, eu saberia fazer-lhe conhecer os maus, de quem sou e serei o perseguidor legal, e por isso me assino – o inimigo dos Marotos”.

O segundo artigo diz respeito à criação, em 2.6.1822, do Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz, sociedade secreta e política, rudemente criticada por certo “Espreitador Constitucional”, no “Correio do Rio de Janeiro”. Pedro I respondeu, ainda como “o inimigo dos Marotos”, em defesa da instituição da qual era “Arconte-Rei”.

Durante todo o ano de 1822, ainda que sob variados pseudônimos, Pedro I tornou-se ativo colaborador dos jornais cariocas. Assumiu a condição de repórter das segundas eleições gerais realizadas no Brasil. Estas eram indiretas, com vistas à escolha dos eleitores dos futuros deputados fluminenses à primeira Assembleia Geral Constituinte e Legislativa.

Assinou primeiro como “O Piolho Viajante”, pseudônimo substituído para “Duende”. Ele se propõe a abrir as entranhas das eleições, e começa bem no seu estilo contundente: “Senhor Redator: Teimoso e encarniçado sempre pela Santa causa do Brasil, e cada vez mais intrépido contra quem ataca os inalienáveis e imprescritíveis direitos do povo Brasileiro, brioso e livre, não só me cumpre, mas mister me é, como seu bom patrício, contar, a quem me prestar atenção, os fatos acontecidos nas diferentes freguesias onde se fizeram as Eleições de Eleitores no dia 21 deste, pelos quais fatos se deixa ao través mui bem ver qual é o espírito público desta capital e Província, e por ele calcular o do Brasil em geral, assim como se faz conhecer o quanto os seus habitantes bons estão de alcateia contra estes lisonjeiros do ovo a que ele mesmo despreza, como abaixo se verá na narração dos fatos”.

Em seguida, aborda o ocorrido na freguesia do Sacramento e na freguesia da Candelária. Termina com: “A ti, ó Brasil, a ti eu saúdo e dou os parabéns por começares a conhecer os vermes que dentro tinhas, e que te estão roendo as entranhas”.

Qual o governante que teria condições, em 2022, de indicar aos eleitores, quais são “os vermes” que lhe roem as entranhas?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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