Doleiro diz que virou representante do PP em contatos com empreiteiras

Youssef acusa executivos da Camargo Corrêa de receberem "comissão" por vendas a alvo da Lava Jato; dinheiro era sacado em espécie em seu escritório

Redação

09 de outubro de 2014 | 17h26

 Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

O doleiro Alberto Youssef revelou que após a morte do deputado federal José Janene (PP-PR), em 2010, passou a ser o representante do PP nas negociações com as empreiteiras contratadas pela Petrobrás, alvo dos desvios investigados na Operação Lava Jato, que abasteceram, além do partido, o PT e o PMDB e serviu de caixa-2 na campanha eleitoral de 2010.

O doleiro afirmou ainda que diretores de grandes construtoras também recebiam parte da propina. As revelações de Youssef feitas na Justiça Federal, em Curitiba, na quarta, complicam o grupo Camargo Corrêa, que detém grandes contratos com a Petrobrás. “Na verdade, a Camargo Corrêa me devia R$ 2 milhões que o próprio vice-presidente e o presidente me pediram que adiantasse a agentes políticos e ao Paulo Roberto Costa e que posteriormente vinha e resolvia os pagamentos. E depois foi empurrando com a barriga e eu estava nervoso”, explicou Youssef ao ser questionado sobre uma troca de email entre ele e outro denunciado no processo.

Questionado pelo juiz sobre quem ele falava, respondeu “Dalton e Eduardo Leite”, respondeu Youssef, referindo-se a Dalton dos Santos Avancini e Eduardo Hermelino Leite, executivos da construtora.Na troca de mensagem, Youssef mencionou “tanto dinheiro que demos para esse cara”, e o juiz da lava Jato quis saber de quem ele falava. “Do Eduardo Leite. Por conta das vendas de tubos que fazíamos para a Camargo Corrêa ele também recebia parte do comissionamento da Sanko, tanto ele como o diretor Paulo Augusto (Silva), das vendas da Sanko”, acusou o doleiro.

Questionado pelo juiz, ele afirmou que era ele quem pagava a propina. “Eu fazia o pagamento. Em dinheiro vivo”, explicou. Buscando detalhes Moro perguntou como ele depositava o dinheiro. “Não, ele retirava no meu escritório”.

Segundo o doleiro, esse comissionamento era dividido entre Costa, ele e dois executivos da construtora. O doleiro explicou que especificamente da Camargo Corrêa foram pagos R$ 9 milhões como comissionamento a Youssef pela intermediação das vendas da Sanko. “Isso não tem a ver com repasses que iam para os partidos”, explicou ele ao afirmar que além dos repasses de caixa-2 aos partidos, os envolvidos nos contratos retiravam “comissões” dos negócios.

Pela primeira vez depondo formalmente à Justiça como parte do acordo de delação premiada, Youssef explicou como funcionava os desvios da Petrobrás via contrato da Camargo Corrêa, nas obras da Refinaria Abreu e Lima, que usava o consórcio CNCC para executar os serviços.

“Toda empresa maior já sabia que qualquer obra que fosse fazer na área de Abastecimento da Petrobrás ela tinha que pagar o pedágio de 1%”, afirmou. A diretoria foi ocupada de 2004 a 2012 por Costa, por indicação do PP.

“Vou explicar para a vossa excelência. O contrato é um só, uma obra da Camargo Corrêa, R$ 3.400.000.000,00, tá certo? R$ 34 milhões ela tinha que pagar por aquela obra para o PP. Eu era responsável por essa parte. A outra parte eu não era responsável. Ele tinha que pagar mais 1% ou 2% como Paulo Roberto está dizendo, para outro operador, que no caso era João Vaccari, assim diziam”, explicou o doleiro que faz a confissão para tentar uma redução de pena.

Segundo ele, na diretoria de Engenharia e Serviço também havia o esquema, mas que esse era operacionalizado por João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. “Se a Engenharia cobra mais que 1% para mim é uma novidade, para mim eles também cobravam 1% e não 2%. Se o doutor Paulo Roberto está dizendo que cobram 2%, ele deve saber mais que eu”.

Todos contratos direcionados para uma lista de 13 grandes empreiteiras que agiam em cartel, segundo Youssef, combinando os processos licitatórios entre elas, por ordem dos políticos e diretores da estatal. “Ela não fazia a obra se ela não pagasse. Era coloca isso para a empresa”. Ele citou os nomes das empresas e quem eram os contatos com quem ele se reunia para acertar os pagamentos de propina.

ABAIXO, O POSICIONAMENTO DA PETROBRÁS

“Em relação às matérias publicadas hoje nos veículos de comunicação, repercutindo os depoimentos do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do Sr. Alberto Youssef na 13ª Vara Federal do Paraná, na ação relacionada à “Operação Lava Jato” da Polícia Federal, a Petrobras informa que vem acompanhando as investigações e colaborando efetivamente com os trabalhos das autoridades públicas.

A Petrobrás reforça, ainda, que está sendo oficialmente reconhecida por tais autoridades como vítima nesse processo de apuração.

Por fim, a Petrobrás reitera enfaticamente que manterá seu empenho em continuar colaborando com as autoridades para a elucidação dos fatos.”

O QUE DIZ O GRUPO SANKO

“Os depoimentos que agora vêm a público corroboram o que afirmamos desde o início, palavra por palavra. Fortemente prejudicados, equivocadamente acusados, vítimas de ilações, acusações e afirmações levianas, nossa defesa na Justiça é séria, documentada e correta.

A Sanko-Sider é uma empresa conceituada, regularmente constituída há 18 anos. Vende tubos de aço, flanges e conexões de alta qualidade a todos os segmentos do mercado, notadamente os especializados em óleo e gás. Todas as suas vendas se dão por meio de contratos legítimos; os pagamentos ocorrem pelo sistema bancário, contra notas fiscais devidamente contabilizadas e tributadas. Nossas normas de conduta sempre determinaram comportamento de respeito estrito às leis.”

 

VEJA A NOTA DA ODEBRECHT

Em nota, a Odebrecht rechaçou categoricamente o que chama de “alegações caluniosas” do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa.

A empreiteira destaca que, em décadas de atuação, sempre conquistou contratos de acordo com a lei de licitações.

Abaixo a íntegra da nota

“A Odebrecht nega veementemente as alegações caluniosas feitas pelo ex-diretor da Petrobras e em especial ter feito qualquer pagamento ou depósito em suposta conta de qualquer executivo ou ex-executivo da estatal. A Odebrecht mantém, há décadas, contratos de prestação de serviços com a Petrobras, todos conquistados de acordo com a lei de licitações públicas.

Como noticia hoje (9/10) a imprensa, documentos apreendidos pela Polícia Federal não identificaram (como não poderiam identificar, já que as acusações são mentirosas) depósitos da Odebrecht nas contas no exterior supostamente pertencentes ao ex-diretor da Petrobrás. Nos documentos e extratos bancários apreendidos pela Polícia Federal, que já totalizam US$ 18,8 milhões, não há registros que apontem a Odebrecht entre as empresas que fizeram depósitos nas contas do ex-diretor no exterior.

A Odebrecht repudia especialmente insinuações feitas a partir de menções a nomes de seus integrantes como sendo “contatos” do ex-diretor da Petrobrás para supostas operações ilegais. Os executivos citados pelo réu confesso tiveram sim contatos com ele, com diretores, ex-diretores e também com membros do corpo técnico da Petrobras, mas apenas para tratar de assuntos estritamente profissionais, relacionados à execução de projetos para os quais a empresa foi contratada pela estatal.

A empresa reitera que tem todo o interesse em que a verdade seja apurada com rigor – e está, como sempre esteve, à disposição das autoridades para qualquer esclarecimento.”

VEJA A NOTA DO CONSÓRCIO CNCC

Formado pelas empresas Cnec e Camargo Corrêa, o Consórcio CNCC, que atua em duas das 12 unidades da refinaria de Abreu e Lima, repudiou as acusações feitas pelo ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa

“Em relação aos referidos depoimentos, o CNCC repudia as acusações sem prova contra o consórcio e seus executivos. O contrato em questão foi conquistado por licitação pública de menor preço. O Consórcio CNCC reafirma ainda que não realizou nenhum pagamento ao Sr. Alberto Youssef nem a qualquer de suas empresas e não pode responder por pagamento de terceiros.”

VEJA A NOTA DA CAMARGO CORRÊA

Em nota, a Camargo Correa, por meio de sua Assessoria de Imprensa, revelou indignação e informou que a contratação da empresa de consultoria de Paulo Roberto Costa ocorreu depois que ele deixou a diretoria de Abastecimento da Petrobrás. “A Construtora repudia as acusações contidas no referido depoimento. A contratação da Costa Global ocorreu após a saída do ex-executivo da empresa.”

VEJA O QUE DIZ A MENDES JR.

“A empresa não se pronuncia sobre inquéritos e processos em andamento.”