Doleiro diz que levou propina na porta do prédio do PT em São Paulo

Alberto Youssef, em novo relato à Justiça Federal, reafirmou nesta terça entrega de R$ 800 mil para João Vaccari Neto, tesoureiro do partido; assista ao vídeo

Redação

31 de março de 2015 | 13h49

Atualizada às 17h21

Por Ricardo Brandt, Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo

O doleiro Alberto Youssef, peça chave da Operação Lava Jato, reafirmou à Justiça Federal que entregou cerca de R$ 800 mil em dinheiro vivo para o tesoureiro do PT João Vaccari Neto – metade desse valor, segundo ele, na porta do diretório nacional do partido, localizado na Rua Silveira Martins, coração de São Paulo.

Em novo depoimento, agora nos autos do processo sobre operações ilícitas de câmbio realizadas pelo laboratório Labogen – empresa que ele tentou infiltrar no Ministério da Saúde na gestão do então ministro Alexandre Padilha (PT) -, o doleiro declarou que “a mando da Toshiba (Infraestrutura)” fez dois pagamentos para o tesoureiro do PT.

O dinheiro, segundo Youssef, teve origem em uma contratação para obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), entre 2009 e 2010. “O primeiro valor foi retirado no meu escritório da (rua) Renato Paes de Barros (São Paulo) pela cunhada dele (Vaccari)”, declarou Youssef, referindo-se à Marice Corrêa Lima, perante o juiz federal Sérgio Moro, que conduz todas as ações penais da Lava Jato. “Eu entreguei esse valor pessoalmente. O segundo valor foi entregue na porta do diretório do PT nacional pelo meu funcionário Rafael Ângulo para o funcionário da Toshiba para que ele pudesse entregar o valor para o Vaccari.”

VEJA O DEPOIMENTO DE ALBERTO YOUSSEF NA ÍNTEGRA

O sr. sabe o nome do funcionário da Toshiba?, perguntou um advogado na audiência. “Piva”, respondeu o doleiro.
É a primeira vez que o doleiro relata esse episódio à Justiça. Anteriormente, em um depoimento prestado à força-tarefa da Lava Jato, Youssef havia declarado que uma parte da propina foi levada ao próprio tesoureiro em uma “sacola lacrada” em restaurante perto da Avenida Paulista.

No dia 3 de fevereiro, porém, perante a delegada da Polícia Federal Erika Mialik Marena e os procuradores da República Carlos Fernando Santos Lima e Januário Palludo, o doleiro prestou depoimento complementar no âmbito da delação premiada que firmou. Na ocasião, foi indagado a dar mais detalhes sobre “as operações financeiras em que destinou valores para João Vaccari Neto”.

“Houve dois pagamentos (para ele, Youssef) pela empresa Toshiba, por conta de um contrato que esta havia conseguido com a Petrobrás”, disse o doleiro. “Parte desses pagamentos deveria ser destinada ao Partido dos Trabalhadores. Um primeiro recebimento por um emissário do PT foi feito direto no meu escritório na Rua Renato Paes de Barros em São Paulo pela pessoa identificada como Marice, sendo que somente após a minha prisão na Operação Lava Jato vim a saber se tratar de cunhada de João Vaccari.”

Segundo ele, Marice Corrêa Lima “entrou pela garagem do prédio”.

“Quando da necessidade de efetuar um segundo pagamento por conta dos depósitos da Toshiba, a pessoa de Piva, representante da Toshiba com quem eu tratava, havia pedido para providenciar a entrega da parte do PT em um restaurante no qual (Piva) se encontraria com Vaccari. Então, Rafael Ângulo, meu empregado, foi designado para levar o dinheiro no restaurante.”

Youssef anotou que “posteriormente tomou conhecimento que no meio do caminho Rafael foi orientado a entregar o dinheiro diretamente na sede do PT em São Paulo, tendo entregue os valores na porte da sede do partido para Piva, que lá se encontrava”.

Na audiência desta terça feira, 31, na Justiça Federal do Paraná, Youssef reiterou sua versão sobre os dois pagamentos e os locais onde ocorreram, tendo Vaccari como destinatários. Um advogado indagou de Youssef qual era o papel dele no esquema de pagamento de propinas e favores a agentes públicos e políticos. “Eu era uma mera engrenagem, totalmente descartável. A partir do momento que não cumprisse com as obrigações, não recebesse e pagasse em tempo hábil os valores de maneira correta, no outro dia eu estava fora. Poderiam contratar qualquer outra pessoa para fazer esse trabalho.”

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, por meio de seu advogado, o criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, repudia taxativamente as acusações. D’Urso tem reiterado que o tesoureiro só arrecadou quantias declaradas à Justiça eleitoral. O criminalista rechaça o valor dos depoimentos prestados em regime de delação premiada. Segundo D’Urso, os delatores “não dizem a verdade”.

O PT tem reafirmado que todos recursos arrecadados têm origem lícita. A Toshiba nega pagamento de propinas a políticos.

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