Doleiro diz que entre 2010 e 2011 começou a fazer o ‘caixa 2’ da OAS

Doleiro diz que entre 2010 e 2011 começou a fazer o ‘caixa 2’ da OAS

Alberto Youssef afirmou em depoimento que recebia valores na Suíça e providenciava entregas em moeda no Brasil a mando de executivos da empreiteira; Vaccari e PT teriam sido beneficiados no esquema, suspeita a força-tarefa da Lava Jato

Redação

29 Abril 2015 | 06h00

Por Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt

O doleiro Alberto Youssef – peça central da Operação Lava Jato – confessou em depoimento prestado em fevereiro que começou a cuidar do “caixa 2” da empreiteira OAS entre os anos de 2010 e 2011.

A empreiteira é suspeita de ter pago propinas ao PT via ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto e de supostamente ter beneficiado sua família nos negócios envolvendo apartamentos da Cooperativa Habitacional dos Trabalhadores do Sindicato dos Bancários de São Paulo (Bancoop) .

“O caixa dois consistia em pagamentos feitos no Brasil a quem a OAS indicava, como compensação do que a OAS depositava no exterior”, afirmou Youssef, em depoimento do dia 3 de fevereiro, tomado pela delegada Erika Marena, da Polícia Federal, e pelos procuradores da República Januário Paludo e Carlos Fernando Lima.

Youssef havia declarado em sua delação premiada no ano passado que movimentou milhões da OAS, nos anos de 2013 e 2014. Numa tabela apreendida pela Lava Jato há registro de US$ 28 milhões.

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Os pagamentos no exterior seriam feitos para o doleiro “na conta em nome da offshore Santa Tereza Services, mantida na Suíça, ou em alguma conta no exterior controlada por Leonardo Meirelles”, detalhou.

A Santa Tereza Services está em nome de João Procópio de Almeida Prado e tem conta no banco PKB, afirmou Youssef. O investigado era homem de confiança do doleiro e responsável pelo caixa dos negócios investigados pela Lava Jato.

No novo depoimento anexado ao pedido de prisão do ex-tesoureiro do PT e de sua cunhada Marice Corrêa de Lima, do dia 15, o doleiro disse que não questionava à OAS maiores detalhes sobre quem eram as pessoas que deveriam receber os valores ou quais as razões para os pagamentos. “Apenas recebia os nomes e endereços e os repassava”.

Youssef foi perguntado se sabia algo sobre a relação da OAS com o Sindicato dos Bancários de São Paulo – entidade ligada a João Vaccari Neto e fundador da Bancoop, cooperativa habitacional que quebrou depois de desvios cometidos por sua diretoria, que tinha entre eles o ex-tesoureiro do PT.

Um imóvel comprado em 2011 por Marice e vendido um ano depois com lucro de mais de 100% para a OAS – que incorporou às obras -, é alvo das investigações da Lava Jato envolvendo Vaccari.

Para justificar a compra do apartamento, a cunhada alegou ter recebido R$ 240 mil do PT por indenização informal por ter seu nome envolvido no escândalo do mensalão. A versão foi considerada “fantasiosa” pelos procuradores da força-tarefa.

Declaração de IR de Marice Correa de Lima, de 2011, em que declarou ter recebido indenização de R$ 240 mil do FGTS e compra de apartamento da Bancoop / Reprodução

Declaração de IR de Marice Correa de Lima, de 2011, em que declarou ter recebido indenização de R$ 240 mil do FGTS e compra de apartamento da Bancoop / Reprodução

Declaração de IR de cunhada de Vaccari em que declarou ter recebido R$ 432 mil da OAS por devolução de apartamento que pagou R$ 200 mil / Reprodução

Declaração de IR de cunhada de Vaccari em que declarou ter recebido R$ 432 mil da OAS por devolução de apartamento que pagou R$ 200 mil / Reprodução

Youssef disse acreditar que o executivo da OAS José Aldemário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, que está preso desde o dia 14 de novembro, “possa ter mais detalhes” para dar aos investigadores.

Nesta terça-feira, Léo Pinheiro e outros oito réus que estavam detidos em Curitiba – sede dos processos da Lava Jato – tiveram suas prisões convertidas para o regime domiciliar.

O Supremo Tribunal Federal mandou além de Léo Pinheiro, outros três executivos da OAS para a prisão domiciliar e outro ex-executivo da empreiteira, o atual presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa.

A UTC foi a única das 16 empresas do cartel acusado de corrupção na Petrobrás que formalizou sociedade com Youssef. A empreiteira e o doleiro compraram um terreno de R$ 5 milhões na Bahia, onde ergueram um edifício comercial ao lado do aeroporto de Lauro de Freitas. Pessoa seria o “coordenador” do clube de empreiteiras que se cartelizou para fatiar obras da estatal. Ele nega essa liderança e irregularidades.

Apartamentos. No interrogatório do dia 3 de fevereiro, o doleiro foi perguntado pelos investigadores da Lava Jato se sabia se a “OAS construía apartamentos para pessoas do Partidos dos Trabalhadores”.

Youssef afirmou que não e acrescentou que “sabe apenas que a OAS destinava valores mensais ao PT, recebidos pela pessoa que posteriormente reconheceu como sendo Marice, cunhada de João Vaccari”.

O doleiro disse ter “ido duas vezes pessoalmente em um apartamento em São Paulo no bairro Cerqueira César indicado por funcionários da OAS, entregar valores a uma pessoa chamada Marice, que posteriormente veio a saber se tratar da cunhada de João Vaccari”.

Para a Lava Jato, Youssef afirmou que era ele quem providenciava os valores, a partir de depósitos que a OAS vazia no exterior em contas que indicava”. Reafirmou que o esquema continuou até recentemente, “2013 e 2014”.

MARICE ORGANOGRAMA OAS

Entregas. Principal doleiro da Lava Jato e alvo central das apurações envolvendo o núcleo que cuidava da lavagem do dinheiro desviado da Petrobrás, no esquema de cartel e corrupção, Youssef afirmou que repassava os dados para seus “mulas”, que eram responsável pelas entregas de valores em espécie.

Listou o agente da Polícia Federal, Jayme Alves de Oliveira, o Careca, Adarico Negromonte, irmão do ex-ministro Mário Negromonte (do PP), e Rafael Ângulo Lopes. Disse ainda que “de vez em quando algum deles comentava onde tinha ido”.

Os R$ 28 milhões que ele Youssef diz ter movimentado recentemente estão registrados em um planilha apreendida em novembro. Nela estão indicados valores, datas e os locais para onde o doleiro enviava ou até mesmo buscava dinheiro em espécie.

O controle do “caixa 2” da OAS renderia a ele 3% de cada operação. Na planilha, identificou as siglas que fazem referência as sedes da construtora e endereços residenciais em diferentes Estados para onde ele ou pessoas indicadas levaram dinheiro.

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Trecho de planilha de contabilidade paralela de valores movimentados por Youssef / Reprodução

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Trecho de planilha da contabilidade paralela de Youssef / Reprodução

COM A PALAVRA, A DEFESA

OAS
Procurada, a OAS afirmou por meio de nota de sua assessoria de imprensa que “refuta veementemente as acusações” de Youssef.

JOÃO VACCARI NETO E MARICE CORRÊA DE LIMA
O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto nega, por meio de sua defesa, qualquer recebimento irregular de doações ou valores. Toda sua movimentação financeira está declarada.

Sua cunhada Marice Corrêa de Lima nega conhecer Youssef e diz nunca ter recebido valores de propina. Por meio de sua defesa, ela afirma que todo seu patrimônio está declarado à Receita Federal.

 

 

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