Doleira ‘Greta Garbo’ diz que pagou R$ 40 mil de propina a policial

Nelma Kodama, alvo da Lava Jato, fez delação premiada; em e-mails, ela se identificava como Greta Garbo, Cameron Diaz, Angelina Jolie...

Redação

17 Setembro 2014 | 11h27

por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

A doleira Nelma Mitsui Penasso Kodama afirmou à Justiça Federal do Paraná que pagou R$ 40 mil para um agente da Polícia Federal para ter acesso antecipado às perguntas de um interrogatório, em que ela era investigada pela Operação Miquéias, no ano passado, sobre fraudes em fundos de pensão envolvendo outro doleiro preso.

A ‘Dama do Mercado’, como Nelma é conhecida, é ré em uma das ações penais da Operação Lava Jato. Ela fez delação premiada. Em depoimento do dia 1.º de setembro, Nelma afirmou que quer contar toda a verdade porque é uma mulher com os dias contados para morrer. Ela se diz doente e afirma que passou por 20 cirurgias nos últimos anos. Em seus e-mails e mensagens gostava de usar pseudônimos como Greta Garbo, Cameron Diaz e Angelina Jolie.
Suas revelações foram feitas para tentar na Justiça Federal o benefício da delação premiada.

VEJA O TRECHO EM QUE NELMA CONFESSA TER PRATICADO EVASÃO DE DIVISAS (A PARTIR DE 19:16 MIN):

Nelma foi presa na madrugada de 15 de março, quando tentava embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros escondidos sob a roupa, a maior parte dentro da calcinha.

O agente da PF que intermediou o vazamento, segundo ela, foi indicado pelo doleiro Alberto Youssef, alvo central das ações penais da Operação Lava Jato, que apura desvios de recursos da Petrobrás.

“O nome dele eu não sei, mas eu sei reconhecer por foto, o nome dele é Careca… Quer dizer, o apelido dele é Careca, eu sei que eu acho que ele está lotado no Rio de Janeiro. É através do Alberto Youssef”, afirmou Nelma, em ação penal em que ela é ré por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

VEJA O TRECHO EM QUE ELA CITA O AGENTE DA PF (A PARTIR DE 17:55 MIN):

O grupo comandado por Nelma foi uma das três estruturas paralelas de lavagem de dinheiro que mantinha relações financeiras com o esquema de Youssef e Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás nos desvios de recursos da estatal petrolífera. Além do elo comercial, Nelma foi namorada por 10 anos de Youssef.

Suas declarações, feitas para obter benefícios da Justiça, confirmam o que a PF havia descoberto quando monitorava os e-mails da doleira. Ela teria pago para saber o que PF iria pergunta-la em um interrogatório por carta precatória. Em uma troca de mensagens eletrônicas entre Nelma e a advogada Aline Kemer Tamada da Rocha Mattos, identificada como Aline Kemer, ex-mulher do ex-juiz federal João Carlos da Rocha Mattos, preso na Operação Anaconda, elas falam sobre a suposta corrupção.

“Apesar dela morar em Santa Cruz de La Sierra, eu respondi por rogatória uma coisinha, o qual delegado escrivão receberam U$ 40 mil por me dar antecipadamente as perguntas através de um amigo agente federal do A.Y. (Alberto Youssef) que hoje atua no Rio de Janeiro e faz as viagens entre  São Paulo e Rio com valores, usando-se de sua carteira para poder andar livremente”, escreveu Nelma para a ex-mulher do juiz.

Aline foi contratada por Nelma para defendê-la nas investigações da Operação Miquéias, da PF, em 2013. Essa apuração desbaratou o esquema de fraudes em fundos de pensão e lavagem de dinheiro do doleiro Fayed Antoine Treabulsi e do ex-ministro do governo Collor, Pedro Paulo Leoni, do grupo GPI Investimentos. Os dois são alvos também da Lava Jato, por manterem movimentações financeiras e participações societárias com Youssef.

Para o Ministério Público Federal, o e-mail apontava que os doleiros denunciados na Lava Jato agiam com a participação de agentes públicos. Questionada em juízo, ela afirmou que conhecia a advogada antes mesmo de Rocha Mattos ser preso por ter relações familiares.

VEJA O INÍCIO DO DEPOIMENTO DE NELMA:

Na denúncia aceita pela Justiça contra Nelma, o MPF afirma que a organização criminosa comandada por ela é um braço da Lava Jato e se “relacionava de maneira espúria, com diversos agentes públicos corruptos, demonstrando a interligação com agentes de Estado”.

A PF chegou a fazer buscas na casa de um dos filhos de Rocha Mattos, que era contratado por Nelma para cuidar dos computadores e da informática das empresas de fachada da doleira.

Além de ter como advogada a ex-mulher de Rocha Mattos, Aline Tamada, Nelma teve relação direta com a família do magistrado. “Eu tive relacionamento com três doleiros, começando pelo Júlio César Emílio, que era cunhado do juiz João Carlos da Rocha Mattos”, explicou ela à Justiça. Júlio Cesar é irmão de outra ex-mulher do juiz, Norma Regina, que foi processada por envolvimento com câmbio negro.

Norma explicou que figurava como funcionária da Centur Câmbio e Turismo, que era de sua ex-cunhada, Norma Regina (a ex-mulher de Rocha Mattos).

Para a Justiça Federal, Nelma afirmou ainda que chegou a conhecer doleiros na casa de Rocha Mattos. “Algumas pessoas eu conhecia da casa do juiz João Carlos da Rocha Mattos, outros a confiança entre eles (doleiros) era tão grande que a gente nunca se conhecia. Por exemplo, o Toninho da Barcelona, talvez eu tenha visto na minha vida duas vezes.”

VEJA O TRECHO EM QUE ELA CITA A INTENÇÃO DE ESCREVER UM LIVRO ( A PARTIR DE 13:15 MIN):

Ela citou Toninho porque os dois tiveram relações comerciais no passado. Em 2006, a casa de câmbio que Nelma mantinha em Santo André, a Havaí Câmbio e Turismo, chegou a ser alvo de buscas após seu nome aparecer nas investigações envolvendo o doleiro Toninho Barcelona.

Padilha. A doleira Nelma não foi questionada sobre a menção feita pelo doleiro Alberto Youssef, em que ele sugere ter “influência política”, sobre o ex-ministro da Saúde e atual candidato a governador de São Paulo pelo PT, Alexandre Padilha.

Em telefonema interceptado pela PF, a doleira pergunta se “Beto” – como ela chamava o ex-namorado Alberto Youssef – tem boas relações com o comando da polícia em São Paulo e pede a indicação de um amigo. “Se o Padilha ganhar ajudo ele e muito”.

Padilha não é alvo das investigações, mas é citado nos autos dos processos indiretamente e por isso passou a ser parte interessada no caso.

A doleira Nelma, que se autodenominava a Dama do Mercado nas mensagens interceptadas pela Polícia Federal, confessou evasão de divisas num esquema pessoal que movimentava US$ 300 mil por dia, e relações financeiras com outros dois doleiros presos na Lava Jato (Alberto Youssef e Raul Srour).

Aos 47 anos, declarando-se em fase terminal de vida, revelou que começou a escrever um livro atrás das grades. “Ainda tenho a intenção de escrever um livro. Sobre a minha história, sobre tudo que aconteceu. Estou escrevendo aqui na carceragem da Polícia Federal”, afirmou ela à Justiça.

O caderno manuscrito foi tomado dela pela PF, mas a Justiça deve devolve-lo.

Doleira dos comerciantes da 25 de Março e do Brás, que segundo ela chegavam a importar contêineres da China de US$ 100 mil e pagar apenas US$ 30 mil legalmente, Nelma foi usada por Youssef em movimentações financeiras. “Eu intermediava as operações de cambio, que é a de dólar-cabo, que é a evasão de divisas e eu estou confessando.”

ABAIXO O RESTANTE DO DEPOIMENTO DA DOLEIRA À JUSTIÇA FEDERAL: