Dois professores, sociólogos, e um capitão

Dois professores, sociólogos, e um capitão

Rodrigo Augusto Prando*

27 de março de 2019 | 18h50

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Buscarei, neste artigo, tecer considerações acerca de duas citações, uma de Florestan Fernandes e a outra de Fernando Henrique Cardoso, e de alguns movimentos do presidente Jair Bolsonaro. As citações, embora espaçadas em décadas e em contextos distintos, podem servir para deslindar algumas das recentes ações do governo em voga.

Florestan Fernandes foi fundador da Sociologia Crítica, no Brasil, Catedrático de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), cuja obra é referência fundamental nas Ciências Sociais. Foi, também, colaborador de jornais e, na política, foi eleito deputado federal pelo PT. Em 28/5/1990, afirmou em artigo para a Folha de S. Paulo, que:

“Precipitação, arrogância e inexperiência não são argumentos que expliquem o estilo de exibicionismo triunfalista do governo. Parece evidente que não existe uma vontade articuladora esclarecida e madura, por trás das cortinas. As diversas peças não se ajustam ao todo. O que está fora do lugar? É o próprio chefe, cujo narcisismo deita raízes fora do político e do administrativo”.

Neste trecho, Florestan referia-se ao, então, presidente Fernando Collor de Melo. Collor venceu as eleições, em 1989, contra Lula, e chegou ao Planalto como o “caçador de marajás”, como um sopro, quase divino, de renovação política. Collor foi, contudo, enredado num processo de impeachment, acusado de corrupção, e renunciou ao cargo em 1992. Foi o primeiro presidente eleito após o Regime Militar e o primeiro a ser impedido. O resultado, como sabemos, foi o governo de Itamar Franco, uma transição que, à guisa de comparação, teve, anos depois, o mesmo papel de Michel Temer após o impeachment de Dilma Rousseff. De certa forma, como diríamos lá no interior, Itamar e Temer “seguraram as pontas” e conseguiram, em momento de crise política (e com Dilma, econômica), manter a normalidade institucional.

Foi, portanto, durante o governo Itamar que Fernando Henrique Cardoso chegou à condição de ministro das Relações Exteriores e, depois, ministro da Fazenda. FHC era, na ocasião, senador da República, fundador do PSDB, mas, também, um intelectual público reconhecido no país e no exterior. Cardoso foi, na USP, o primeiro assistente de Florestan, tendo, junto com o Mestre, desenvolvido pesquisas que marcaram época na Sociologia brasileira (a Cadeira I de Sociologia era formada por Florestan, Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, este como segundo assistente).

Assim como Florestan, Fernando Henrique chegou ao topo da carreira universitária, tornando-se catedrático em Ciência Política. Diferente de Florestan, contudo, Cardoso teve enorme projeção internacional, tendo lecionado e pesquisado em renomadas universidades estrangeiras. Florestan ligou-se ao PT e FHC à social democracia em sua versão brasileira. Cardoso teve sua trajetória na política nacional: suplente de senador do MDB, senador da República, fundador do PSDB, ministro de Itamar e presidente da república, eleito e reeleito.

A marca de FHC foi a coordenação e implantação do Plano Real, que controlou a hiperinflação e deu estabilidade à economia brasileira.

Passados quase 30 anos do artigo de Florestan, FHC, asseverou, em seu Twitter, em 24/3/2019, o seguinte:

“Paradoxo brasileiro: os partidos são fracos, o Congresso é forte. presidente que não entende isso não governa e pode cair; maltratar quem preside a Câmara é caminho para o desastre. Precisamos de bom senso, reformas, emprego e decência. Presidente do país deve moderar não atiçar”.

Mesmo que, à primeira vista, sejam descabidas as comparações de Collor com Bolsonaro, há que se considerar que, cada um a seu modo, houve e há um desprezo de políticos pela Política. Collor sentia-se “imperial” e Bolsonaro sente-se “puro” num conjunto degradado de atores políticos. Durante a campanha, de 2018, Bolsonaro apresentou-se como um candidato “anti”: antilula, antipetismo, antissistema e antipolítica. Certamente, foi contra a esquerda no geral e conta Lula e os petistas em particular, mas Bolsonaro sempre esteve no bojo da política e do sistema. O capitão, como ainda é chamado mesmo tendo sido eleito presidente da República, teve sua trajetória no parlamento, como deputado, assentada em discursos e ações de caráter corporativista, intervencionista e estatizante.

Hoje, como presidente, continua com o discurso de campanha, desprezando os atores políticos e, nos últimos tempos, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Este, com ardil, já deu vários recados diretos a Bolsonaro, seu filho, ao ministro Moro e, em 26/3, colocou em votação pauta que trouxe derrota ao governo, deixando clara a falta de articulação e de compreensão da atual dinâmica da vida política institucional.

Assim como Collor, Bolsonaro está deslumbrado, não sei se com o poder, mas, pelo menos, com sua imagem e desempenho nas redes sociais. Ao insistir na estratégia de campanha mesmo depois de ter tomado posse, o presidente tem a confortável sensação de seguir no caminho correto, pois lá é aceito e aclamado. Porém, nas redes, onde há os já convertidos, bolsonaristas de primeira hora, tudo vai bem.

No entanto, as peças do governo, para falar com Florestan, “não se ajustam ao todo”. E, além disso, os aspectos políticos e administrativos até o momento encontram-se aquém daquilo que a situação do país reclama. O bom e velho Montesquieu, ao dissertar sobre a divisão do poder (Executivo, Legislativo e Judiciário) aduzia que estes poderes deveriam coexistir em harmonia e que apenas um poder poderia servir de freio e contrapeso em relação aos outros poderes. Disso, jamais, em tempo algum, numa república, numa democracia, num estado de direito, podemos nos esquecer.

Bolsonaro, no limite, ao desprezar o que chama de “velha política” dá a entender que toda a negociação, todo o acordo, é, por essência, corrupto, ruim, nefasto. Esquece o presidente que os mesmos votos que lhe dão legitimidade dão, também, legitimidade aos deputados e senadores. A postura do presidente e de muitos brasileiros podem, assim, ser identificada como um subproduto da Operação Lava Jato. Em que pese o aspecto de avanço civilizacional de combate à corrupção, não se pode condenar toda a Política como ambiente de corrupção, separando os que são “puros” dos que são “impuros”.

A política brasileira pode não ser boa, bem como a nossos representantes. Contudo, clamar pelo fim da política implica na suspensão do diálogo, dos acordos, da construção de consensos, da convivência democrática entre adversários. Ruim com a política, impossível de se viver sem ela.

Seria, por fim, recomendável que o presidente Bolsonaro, o capitão, pudesse ler e ponderar aquilo que os dois professores, sociólogos, escreveram. FHC, por exemplo, já publicou três volumes de seus Diários da Presidência, no qual explica o cotidiano do poder e a tão necessária relação com o Congresso Nacional. Ler não faz mal e conhecimento continua sendo poder.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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