Doenças silenciosas afetam a saúde e o bem-estar de mulheres durante a pandemia

Doenças silenciosas afetam a saúde e o bem-estar de mulheres durante a pandemia

Thiers Soares*

09 de maio de 2021 | 05h00

Thiers Soares. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com a vida profissional, carreira, casa, filhos e família, os cuidados com a saúde da mulher são deixados de lado e nem sempre são compreendidos como deveriam. Assim, doenças silenciosas ganham corredor expresso para atingi-las e, quando descobertas, normalmente causam grandes problemas para o bem-estar feminino.

É o caso da adenomiose, endometriose e mioma, que venho tratando em mulheres que relatam dores fortes, desconfortos e muitas dificuldades em manter uma vida saudável durante seus ciclos menstruais. Estas três doenças têm sintomas semelhantes e, se não identificados a tempo, podem interromper a chance de muitas delas serem mães e ainda afetar o funcionamento de múltiplos órgãos do corpo.

Cólicas fortes no período menstrual (e principalmente fora dele), sangramentos intensos e queixa de dores durante as relações sexuais podem até passar despercebidos e serem considerados “normais” no dia a dia atribulado das mulheres, mas merecem atenção especial e precisam ser relatados no acompanhamento médico. Por isso, é importante conhecê-las e saber identificar cada uma delas.

Quero citar primeiro a adenomiose, uma doença que causa o crescimento do tecido endometrial na parede interna do útero, e de forma silenciosa, afeta o funcionamento do órgão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada dez mulheres pode sofrer com a adenomiose, e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) aponta que 35% das mulheres que têm esta doença são assintomáticas, e sua cura só acontece com a realização da histerectomia (retirada total do útero). Assim, a doença com sintomas comuns, quase imperceptíveis sem uma rotina de exames preventivos, passa a ser um dos principais fatores para a infertilidade feminina.

Já a endometriose, muitas vezes atrelada à primeira doença citada, acontece quando o tecido do endométrio reveste toda a cavidade abdominal, atingindo outros órgãos, como a bexiga e o intestino. Além da infertilidade, a endometriose pode levar a perda dos órgãos alcançados.

No Brasil, 15% das mulheres em idade fértil são acometidas pela endometriose. Elas demoram, em média, oito anos para diagnosticarem a doença e passam boa parte da vida sem entender os sintomas por acharem extremamente normais. Apesar da seriedade da patologia, esta patologia pode ser controlada em casos leves com a melhoria no estilo de vida, como a qualidade de sono, alimentação, a prática de exercícios físicos regulares e os cuidados básicos com estresse e ansiedade.

Entre as doenças silenciosas que atingem as mulheres, os miomas chegam a assustar quando mencionadas nas consultas ginecológicas. E não é para menos, o Ministério da Saúde afirma que quase 2 milhões de mulheres sofrem de miomas no país e cerca de 300 mil perdem o útero por ano. A doença, que causa o aparecimento de tumores pélvicos benignos nas paredes do útero, pode acometer até 80% da população fértil feminina.

Mesmo sem ter causas definidas para os miomas, os fatores de riscos para o surgimento dos tumores são vastos, como a idade, entre 30 a 50 anos, início precoce da menstruação, afrodescendência, obesidade, dieta rica em carnes vermelhas e o consumo de álcool. Já o seu avanço pode afetar muito além da região pélvica, gerando dores, sangramentos e muito incômodo. É importante lembrar que, apesar desta doença causar medo, ela não é fator determinante para o aumento do risco de câncer.

O melhor tratamento para todas essas enfermidades que comentei acima é o acompanhamento médico, diagnosticando cada etapa destas doenças e buscando alternativas para devolver a saúde e o bem-estar as pacientes, já que afetam muito além da parte física, elas mexem com a rotina, com a saúde mental e com as relações destas mulheres.

Hoje, a tecnologia é uma grande aliada para ajudá-las a superar as complicações destas doenças. A cirurgia robótica, por exemplo, é uma alternativa viável para eliminar os focos de endometriose e realizar a retirada de miomas, preservando a região afetada e devolvendo a qualidade de vida para as pacientes.

Já os casos de adenomiose também podem ser tratados desta forma, mas merecem atenção especial para entender a evolução da patologia. É essencial lembrar que este tipo de cirurgia pode ser encontrada no SUS, permitindo que essas e outras doenças não se agrave. E não podemos deixar de mencionar a recém chegada tecnologia da radiofrequência no Brasil, responsável por iniciar uma nova era no tratamento destas condições.

Mesmo que o cenário da pandemia da Covid-19 contribua para o adiamento de tratamentos e descobertas dessas enfermidades, é primordial realizar a busca por diagnósticos e acompanhamento médico. Em tempos tão urgentes, nunca foi tão necessário se manter saudável.

Entretanto, só a conscientização do autocuidado e o conhecimento sobre essas doenças silenciosas podem ajudar as mulheres a avançarem o sinal verde para seguir suas vidas e viverem melhor.

*Thiers Soares, ginecologista especialista em cirurgia por vídeo e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgias Minimamente Invasiva – Capítulo Rio de Janeiro – SOBRACIL RJ

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