Gabriela Hardt abre sigilo de operações de lavagem de R$ 1,8 bi atribuídas a Tacla Duran, acusador de amigo de Moro

Gabriela Hardt abre sigilo de operações de lavagem de R$ 1,8 bi atribuídas a Tacla Duran, acusador de amigo de Moro

Juíza da Lava Jato de Curitiba acolhe pedido do Ministério Público Federal, que acusa operador da Odebrecht de apresentar informações falsas 'reiterada e sistematicamente' em processos e investigações

Rayssa Motta e Fausto Macedo

11 de junho de 2020 | 03h00

Uma série de documentos inéditos colhidos pela Operação Lava Jato e tornados públicos pela Justiça Federal nesta semana apontam que o advogado Rodrigo Tacla Duran teria movimentado cerca de R$ 1,8 bilhão para lavagem de dinheiro. Ele é apontado pela força-tarefa como operador financeiro da Odebrecht.

Em decisão proferida no último domingo, 7, a juíza Gabriela Hardt, da 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, atendeu pedido do Ministério Público Federal (MPF) pelo levantamento do sigilo de provas produzidas em diversos processos criminais contra Tacla Duran.

“Ele é apontado pelas autoridades de persecução penal, com base em robustas provas coletadas ao longo das investigações da Operação Lava-Jato, como responsável por graves crimes de lavagem de dinheiro, que superam US$ 300 milhões, e de organização criminosa”, escreveu a juíza em sua decisão.

O pedido do MPF veio após uma análise de investigações e processos que, segundo os procuradores, apontam que Tacla Duran apresentou informações falsas ‘reiterada e sistematicamente’ na tentativa de induzir autoridades responsáveis pelo seu caso ao erro na ‘busca por impunidade’. O órgão afirma que o advogado forjou documentos e atuou para induzir ao erro autoridades do Brasil, Espanha, Interpol e Singapura.

“Considerando a justa causa apresentada pelo MPF, que os documentos apresentados guardam relação com a prova que se pretende produzir, bem como que tais documentos não expõem a intimidade ou a vida privada do acusado, tampouco se trata de material que constitua ofensa a sua honra ou imagem, defiro o pedido do MPF”, diz a magistrada no despacho.

Tacla Duran é alvo de investigações da Lava Jato. Foto: Jamil Chade / Estadão

Entre os documentos que tiveram o sigilo levantado, estão um e-mail, com assinatura por codinome de Rodrigo Tacla Duran, em que o advogado admitiria ter trabalhado como operador financeiro da Odebrecht. “Operei com vocês + de USD $300.000.000,00 e acredito eu que nunca trouxe problemas ou aborrecimento de qualquer natureza a vocês”, escreveu.

A magistrada também incluiu declarações do Grupo Odebrecht em que os empresários admitem que, para viabilizar o pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos e políticos, lançaram mão dos serviços prestados pelo advogado. De acordo com a delação, Tacla Duran se encarregava de receber recursos ilíticos da Odebrecht no exterior, por meio de contas abertas em nome de offshores, e repassá-los, no Brasil e no exterior, aos seus destinatários.

Sentenças anteriores, que reconheceram a existência de provas da ‘atuação criminosa’ de Rodrigo Tacla Duran como operador financeiro em processos de lavagem de dinheiro e outras chegaram a expedir mandado de prisão contra o advogado, também foram tornadas públicas.

A decisão da Procuradoria-Geral da República pelo arquivamento de denúncias enviadas pelos deputados petistas Wadih Damous, Paulo Pimenta e Carlos Alberto Rolim Zarattini, na qual narram supostas ilegalidades praticadas por procuradores em negociações de acordos de delações premiadas, foi incluída na lista.

Por fim, a juíza determinou o levantamento do sigilo de esclarecimentos prestados pelo Ministério Público Federal à Interpol, organização internacional que facilita a cooperação policial mundial, visando a extradição de Tacla Duran, além da petição do advogado ao Escritório Central da entidade no Brasil e de comunicações posteriores entre autoridades sobre o caso.

Rodrigo Tacla Duran está foragido no exterior desde 2016, quando foi alvo de um mandado de prisão determinado pelo ex-juiz federal da Lava Jato e ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. O próprio Tacla Duran afirmou ter pago dinheiro a um amigo de Moro para obter vantagens em uma delação premiada, posteriormente frustrada, com a Lava Jato em 2016. Entre elas, uma suposta redução no valor da multa delatória.

Segundo reportagem publicada na última quarta-feira, 3, pelo jornal O GLOBO, o procurador-geral da República, Augusto Aras, desengavetou uma investigação sobre suposto pagamento de US$ 5 milhões em propina a Carlos Zucolotto, que foi padrinho de casamento de Moro e sócio da esposa do ex-ministro. A denúncia já foi investigada pela própria PGR e arquivada em 2018, sob conclusão de que a prática de crimes não foi comprovada. Com o desarquivamento do inquérito pela PGR, Aras pretende voltar a negociar uma colaboração premiada com Tacla Duran.

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com a defesa de Rodrigo Tacla Duran. O espaço está aberto a manifestação (rayssa.motta@estadao.com).

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