Documentos indicam repasses de operador para filha de Serra na Suíça

Documentos indicam repasses de operador para filha de Serra na Suíça

Autoridades do país europeu enviaram papéis que mostram pelo menos dois pagamentos da Circle Technical, de Amaro Ramos, a Verônica Serra, no montante de 400 mil euros, entre dezembro de 2006 e fevereiro de 2007; senador reafirma que 'jamais recebeu nenhum tipo de vantagem indevida ao longo de sua extensa carreira política'

Fabio Serapião/BRASÍLIA, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

18 de agosto de 2018 | 05h00

Documentos encaminhados pela Suíça mostram que uma offshore ligada ao operador José Amaro Pinto Ramos realizou ao menos dois pagamentos para uma conta cuja beneficiária é Verônica Serra, filha do senador José Serra (PSDB).

Por meio de sua Assessoria, Serra rejeitou ‘a possibilidade de haver qualquer ilegalidade envolvendo o nome de sua filha’. Ele reafirmou que ‘jamais recebeu nenhum tipo de vantagem indevida ao longo de sua extensa carreira política construída sempre em prol do Brasil e dos brasileiros’.

Tanto Serra como Amaro Pinto Ramos são investigados pela Polícia Federal em um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). Os investigadores tentam mapear a relação entre os dois relatada pelo ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis em seu acordo de colaboração.

O executivo da empreiteira contou ter repassado R$ 4,5 milhões ao senador, entre 2006 e 2007, por meio de ‘uma conta bancária no exterior fornecida por José Amaro Ramos’.”Que pode afirmar que as transferências realizadas para a Circle Technical Company, conforme indicado por José Serra, não possui qualquer relação com serviços prestados por José Amaro Pinto Ramos”, disse Novis à PF. O valores teriam como destino a campanha do tucano ao governo de São Paulo, em 2006.

De acordo com os documentos em poder da Procuradoria-geral da República, na mesma época em que teria recebido valores da Odebrecht, a offshore Circle Technical, de Pinto Ramos, efetuou dois pagamentos para a conta Firenze, no Arner Bank, em nome da offshore Dortmund, sediada no Panamá, e que teria como beneficiária Verônica Serra.

O primeiro repasse de 250 mil euros foi em dezembro de 2006, meses depois de Serra ser eleito governador de São Paulo. Dois meses depois, em fevereiro de 2007, quando o tucano já era governador, foi realizada outra transação no valor de 150 mil euros.

Para provar a relação da conta offshore Dortmund com Verônica Serra, as autoridades suíças encaminharam cópias da documentação utilizada para abri a empresa em que aparece o nome e endereço da filha do senador.

Além disso, foram encaminhados e-mails em que a própria Verônica Serra autoriza transações realizadas por meio da offshore e da conta administrada por ela no Arner Bank.


COM A PALAVRA, O SENADOR JOSÉ SERRA

Sobre a questão diz respeito à sua filha Verônica, o senador José Serra afirma que:

– Rejeita a possibilidade de haver qualquer ilegalidade envolvendo o nome de sua filha.

– Reafirma que jamais recebeu nenhum tipo de vantagem indevida ao longo de sua extensa carreira política construída sempre em prol do Brasil e dos brasileiros.

– Espera que o caso seja esclarecido da melhor forma possível para evitar que prosperem acusações falsas que atinjam a honra de seus familiares.

Assessoria de Imprensa/Senador José Serra

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ANTONIO SÉRGIO DE MORAES PITOMBO

O criminalista Antonio Sérgio de Moraes Pitombo, que representa Verônica Serra, disse que ainda não teve acesso aos documentos da Suíça, por isso não está em condições de emitir nenhuma opinião. “Não vou comentar, vou estudar o caso, ainda. Agora nenhuma palavra posso dar porque nem sequer examinei o material.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO EDUARDO CARNELÓS, QUE REPRESENTA JOSÉ AMARO RAMOS

a) Conforme esclareceu o dr. Ramos ao ser ouvido no inquérito policial, os pagamentos que foram feitos à empresa Circle (há muito extinta) por empresa do grupo Odebrecht não tiveram nenhuma relação com campanha eleitoral, nem do Senador Serra nem de ninguém, até porque o dr. Ramos nunca teve atuação partidária ou em campanha eleitoral;

b) Aqueles pagamentos estavam ligados a trabalhos de prospecção feitos entre 2005 e 2008 na Argélia, na Turquia e em outros países do Maghreb para empresa europeia do Grupo Odebrecht, conforme, aliás, consta dos swifts bancários relativos a cada uma das remessas. Foi com base nessas evidências, aliás, que o Dr. Ramos foi exonerado em investigação realizada pelo Ministério Público da Confederação Helvética a partir de 2011, e que analisou toda a documentação existente em contas bancárias suíças de 2000 e 2012, nada tendo sido encontrado com relação a qualquer transação envolvendo direta ou indiretamente o Brasil (ver certidão negativa anexa);

c) Os pagamentos agora vindos a lume, feitos pela empresa Circle a uma conta da qual a sra. Veronica Allende Serra seria procuradora – e não beneficiária, conforme diz sua mensagem – nada têm a ver com o dinheiro recebido da Odebrecht;

d) Aqueles pagamentos referem-se a um projeto que o dr. Ramos desenvolveu no Uruguai, que dizia respeito à exploração imobiliária decorrente de uma possível ligação ferroviária que seria construída entre o Centro e o Aeroporto de Montevidéu. O dr. Ramos tratou disso, diretamente, com o beneficial owner da empresa contratante, um cidadão uruguaio membro de família tradicional naquele País;

e) O dr. Ramos nunca teve conhecimento de ligação da sra. Veronica Allende Serra com aquela empresa sediada no Panamá, e nunca manteve relação com a sra. Veronica, seja pessoal ou profissional, no Brasil ou em outro país;