Documentos confirmam que Vargas usou lavanderia de doleiro

Documentos confirmam que Vargas usou lavanderia de doleiro

Notas fiscais, depósitos e trocas de e-mail são provas da Lava Jato de que ex-deputado do PT pode ter desviado R$ 2,3 milhões de contratos com o governo

Redação

13 Abril 2015 | 03h00

Por Fausto Macedo, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

A Polícia Federal tem provas de que a lavanderia de dinheiro do doleiro Alberto Youssef – peça central da Operação Lava Jato – foi usada pelo ex-deputado federal do PT André Vargas (sem partido-PR), entre 2013 e 2014, para o recebimento de R$ 2,3 milhões em dinheiro vivo de uma empresa com contratos no governo federal.

São notas fiscais, registros de depósitos e trocas de e-mails envolvendo a contadora do doleiro, Meire Pozza, e a IT7 Soluções – contratada da Caixa Econômica Federal, do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), vinculado ao Ministério da Fazenda, e outros órgãos de governo.

A força-tarefa da Lava Jato tem elementos para acreditar que a IT7 – que tem escritório no Paraná e é administrada por Marcelo Simões – era usada pelo ex-deputado e seu irmão Leon Vargas para recebimento de propina em contratos do governo federal.

Imagens da entrada do ex-deputado André Vargas no escritório do doleiro Alberto Youssef

Imagens da entrada do ex-deputado André Vargas no escritório do doleiro Alberto Youssef

Vargas e Leon foram dois dos sete presos nesta sexta-feira alvos da nova etapa da Operação Lava Jato, batizada de A Origem. A sede da IT7 foi um dos endereços de buscas.

Um dos documentos em poder dos investigadores são as notas fiscais emitidas para a IT7 por duas empresas (Arbor Contábil e AJJP Serviços Educacionais) da contadora do doleiro, ambas no dia 27 de dezembro de 2013.

Uma é de R$ 964 mil e outra de R$ 1,4 milhão. Em depoimentos à Polícia Federal, a contadora e o doleiro afirmaram que as notas foram para cobrir os pagamentos da IT7, mas nunca houve prestação de serviços. Eram apenas para “esquentar” a retirada do montante em dinheiro vivo.

Nota fiscal da AJJP, da contadora de Youssef, em nome da IT7

Nota fiscal da AJJP, da contadora de Youssef, em nome da IT7

Nota fiscal da Arbor, da contadora de Youssef, para IT7

Nota fiscal da Arbor, da contadora de Youssef, para IT7

As versões da contadora e do doleiro – que está preso desde março do ano passado – são convergentes. Eles afirmam que foi o irmão de Vargas que pediu, no final de 2013, que fosse disponibilizado R$ 2,3 milhões em dinheiro.

Depois de ser orientada pelo irmão de Vargas e por Simões, da IT7, Meire emitiu então as notas, recebeu e sacou os valores para serem disponibilizados em dinheiro vivo. Ela cumpria ordens de Youssef.

Os valores foram entregues a Vargas entre janeiro e fevereiro de 2014. Nessa época, ele era vice-presidente da Câmara dos Deputados e secretário de Comunicação do PT.

Foram anexados ao pedido de prisão de Vargas e Leon, além das notas, as trocas de e-mail, em que Leon e Simões indicam a IT7 para emissão das notas fiscais para a contadora do doleiro.

A contadora e o doleiro não souberam dizer, nos depoimentos, qual a origem do pagamento da IT7. Meire identificou as três transferências eletrônicas bancárias, nos valores de R$ 964,3 mil, R$ 287,1 mil e R$ 1,1 milhão, como sendo relativas a operação para Vargas.

E-mail em que Leon Vargas trata com contadora sobre operação

E-mail em que Leon Vargas trata com contadora sobre operação

Cópia de troca de e-mail de contadora de doleiro e Marcelo Simões da IT7

Cópia de troca de e-mail de contadora de doleiro e Marcelo Simões da IT7

O sistema usado para disponibilizar o dinheiro para o ex-parlamentar seguiu a mesma dinâmica da lavanderia que permitiu que bilhões fossem desviados da Petrobrás – foco inicial da Lava Jato – entre 2004 e 2014, explicou Meire.

“Há prova de que Youssef providenciou, em dezembro de 2013, o repasse de R$ 2,3 milhões em espécie a André Vargas, numerário este proveniente de empresa que mantém vários contratos com entidades públicas”, registrou o juiz federal Sérgio Moro, que conduz os processos da Lava Jato, ao determina prisão preventiva de Vargas.

O magistrado considerou que os elementos indicam que a entrega dos valores em dinheiro foi possível “mediante emissão de notas fiscais fraudulentas por serviços que não foram prestados.”

Por essa movimentação suspeita, Vargas e seu irmão podem virar réus da Lava Jato por corrupção e de lavagem de dinheiro.

Receita. A IT7 hoje tem novo nome, CMSD Tecnologia Ltda, após alteração em seu registro, em fevereiro deste ano.

Relatório da Receita Federal mostra que a IT7 declarou receita de R$ 125 milhões entre 2012 e 2013.

O órgão aponta “expressiva movimentação comercial e bancária” e diz que ao analisar as fontes pagadoras da empresa é possível observar que entre os principais clientes estão “entes públicos, empresas públicas e estatais federais e estaduais”.

COM A PALAVRA, A DEFESA

Os advogados de André Vargas e seu irmão Leon Vargas negam qualquer irregularidade. A defesa deve entrar nesta segunda-feira com pedido de soltura dos investigados. Nenhum representante da IT7 e de Marcelo Simões foram encontrados.