Do que se orgulhar?

Do que se orgulhar?

José Renato Nalini*

18 de junho de 2022 | 05h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Quando o Brasil mostra ao mundo a sua cara assassina de quem se opunha à grilagem, à continuidade do genocídio indígena, ao garimpo criminoso e à delinquência incentivada que tornou a Amazônia um inferno vermelho, qual o motivo que o brasileiro tem para se orgulhar?

No momento em que trinta e três milhões de brasileiros passam fome e o Parlamento prefere contemplar orçamento secreto e aumentar Fundões Eleitorais, terá o patriota alguma razão para se ufanar de sua terra?

Quando a indústria está sucateada, a floresta incendiada, as águas poluídas, a inflação prospera e a violência é vitoriosa, resta algum motivo de legítimo orgulho para aquecer a alma dos homens de bem?

Para debelar o desespero, os espíritos sensíveis têm de se socorrer da sabedoria longeva. Recorrer aos filósofos e invocar as reflexões morais de François de La Rochefoucauld (1613-1680), que para Saint-Beuve, “parecem verdadeiras, exageradas ou falsas conforme o humor e a situação de quem o lê”.

São atemporais as “máximas” de La Rochefoucauld, que caluniam a natureza humana supondo que o melhor dela dimana de um princípio vicioso. Veja-se, por exemplo esta: “Essa clemência, de que se faz virtude, ora se pratica por vaidade, às vezes por preguiça e muitas por temor e quase sempre, pelos três juntos”.

Como não encontrar certa verdade na prática da clemência, que ora é um gesto de superioridade de quem pode ser clemente, ou resulta da preguiça de sustentar a inclemência ou pelo temor de reação violenta do destinatário dela?

Um outro aforismo que tem proveito em nossos dias: “Os reis dispõem dos homens como de moedas; dão-lhes o valor que entendem e somos obrigados a aceitá-los segundo o curso e não segundo o seu valor exato”. Os áulicos, sabujos de qualquer déspota, são glorificados quando se identificam – por seus vícios – com quem alcançou transitoriamente o poder. A sociedade se vê obrigada a aceitá-los enquanto não se desaloja o atual detentor da autoridade. Logo em seguida, remete-os ao seu natural destino: os subterrâneos da história.

La Rochefoucauld escreveu: “Nossas virtudes não são, no mais das vezes, senão vícios disfarçados”. Isso remete a Aristóteles, para quem as virtudes estão num polo, enquanto no polo antagônico estão os vícios. Na primeira edição de sua obra, ele explicava: “O que o mundo apelida por virtude, ordinariamente não é mais do que um fantasma engalanado por nossas paixões e a quem damos nome honesto para fazer impunemente o que quisermos”. Os fanáticos enxergam virtudes na falta de senso, de compostura, na grosseria dos “autênticos”. Como se a falta de educação de berço pudesse representar espontaneidade. Com isso se renega toda a lenta escalada civilizatória e se legitima o retrocesso ao primitivismo ignorante que contamina mais do que vírus pandêmico.

Outro pensamento incidente sobre o Brasil de nossos dias: “O amor-próprio é o maior dos lisonjeiros”. Quem dispõe de corte submissa – quase sempre por interesse nas migalhas que caem da mesa do banquete – considera-se ungido e predestinado. Vão aprender a lidar com a verdade quando não dispuserem de poder. O servilismo se voltará para o novo ocupante do posto. As moscas são sempre as mesmas. São atraídas pela cupidez e pela busca de vantagens. Servem a qualquer senhor, desde que possam participar do butim.

Para essas moscas que envolvem qualquer expressão de poder, serve uma outra máxima de La Rochefoucauld: “Temos todos suficiente força para suportar os males de outrem”. Por isso a insensibilidade em relação às vítimas do cruel assassinato – “mereceram, pois eram mal-vistos” – e quanto aos famintos – “só passa fome quem quer! Estamos no celeiro do mundo!”.

Infinitas as tonalidades da hipocrisia circundante a qualquer resquício de poder, na avidez de conseguir algo a mais do que seus méritos. Isso nosso filósofo conhecia bem por ser explorador da consciência humana. Tanto assim que afirmou: “O interesse fala qualquer língua e representa qualquer papel, mesmo o de desinteressado”. Essa a mensagem predileta de quem sustenta defender interesses gerais, mantendo olhos vendados para as sujeiras que qualquer criança enxerga.

São exatamente “aqueles que se aplicam muito a coisas miúdas, e ficam geralmente inábeis para as grandes”.

Quanta coisa La Rochefoucauld nos legou para uso e meditação no século 21, a mostrar que cinco séculos pouco significam na História da Humanidade, uma trajetória de baixezas e de recuos, que fazem duvidar da vocação de perfectibilidade dessa espécie, a única autointitulada racional dentre todos os viventes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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