Do mais divino ao mais selvagem

Do mais divino ao mais selvagem

José Renato Nalini*

17 de fevereiro de 2022 | 15h35

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

“O homem pode converter-se no mais divino dos animais, sempre que se o eduque corretamente; converte-se na criatura mais selvagem de todas as criaturas que habitam a terra, em caso de ser mal-educado”. Foi o que Platão escreveu em “As Leis”. O Brasil de 2022 é o testemunho de que o filósofo sabia o que estava dizendo.

O ser humano é um projeto de vir a ser. Ele tem a vocação de completar-se no decorrer do lapso temporal que lhe é dado caminhar por este planeta. Sabe que é possível tornar-se melhor a cada dia, pois tem a perfectibilidade como propósito. Essa a finalidade da educação. Uma permanente abertura ao novo e a superação a si mesmo, lapidando aptidões e explorando as potencialidades.

Platão pretendeu formar o homem para uma sociedade ideal. Para isso, não é imprescindível preencher a mente do educando com informações e dados que as modernas tecnologias garantem acesso com um clique. O importante é investir nas habilidades socioemocionais. Uma super-memória já foi viabilizada pelos computadores. Todavia, a máquina ainda não sabe se emocionar, intuir, imaginar, condoer-se, ter comiseração ou compaixão pelo próximo.

Decorar textos, saber repeti-los, não significa ser educado. Pode até tornar alguém instruído. Mas o homem educado é aquele que se compenetra de sua condição de um elo numa cadeia infindável, que une todos os demais seres humanos. É da natureza humana conviver. Convívio é partilhar das mesmas experiências e de um destino comum. A destruição da natureza é um sintoma explícito de que a sociedade não foi educada. Senão ela saberia que ao eliminar o ambiente, está praticando suicídio. Mas também está provocando a morte de quem ainda não nasceu e cuja vida o constituinte entregou à nossa tutela e proteção.

Todos conhecemos o mito da caverna, que Platão legou para as gerações que o sucederam. Presos numa profunda e escura escavação, os homens se acostumaram a vislumbrar suas sombras, projetadas por uma fogueira. Acreditavam que a vida fosse escuridão. Um deles consegue sair da caverna e verificar que o mundo é diferente: a luz do sol primeiro parece cegar para, em seguida, permitir o espetáculo da exuberância do mundo real.

Isso é o que a educação faz com todos os humanos. Estende a mão ao semelhante para que deixe as trevas e encontre a luz. Mais ainda, a verdadeira educação abre as portas da percepção para que se detecte o que realmente vale a pena. É uma formação para a virtude. Para o bem, para o belo, noções que praticamente se confundem na filosofia platônica.

O que vem a ser virtude? Para Platão, é a coisa mais preciosa. Só em sendo virtuoso o ser humano poderá ser feliz. Os maus são infelizes. Não é a riqueza que impede os humanos da infelicidade. Só a sabedoria, a consciência da finitude, a aceitação da morte é que propiciam serenidade à alma inquieta dos humanos.

Em Protágoras se discute se a virtude pode ser ensinada. Se ela não é um saber, não poderia ser transmitida. A outra questão diz respeito ao conceito de aretê, algo múltiplo. Sabedoria, temperança, coragem, justiça, santidade, são cinco verbetes distintos, mas aplicados a uma só coisa.

Sócrates sustenta que a virtude é um saber e, por esse motivo, pode ser objeto de ensino e aprendizado. É o conhecimento da virtude que faz o humano aprimorar seu comportamento.

Extrai-se do ensinamento platônico sua concepção de virtude como harmonia. Em “Górgias” e em “A República”, a mais completa virtude é a justiça. Ela seria a síntese de todas as demais virtudes, como prudência e sabedoria, ínsitas à alma racional, fortaleza, cuja função é regular na alma as paixões nobres e generosas, de tal maneira que os humanos consigam preterir os prazeres e aceitar os sacrifícios no cumprimento do dever.

Platão entendia que apenas os homens virtuosos poderiam exercer o poder. Embora seja, ao lado de Aristóteles, a única dupla de verdadeiros filósofos, nada se criou verdadeiramente original depois de ambos, não é possível deixar de constatar que a humanidade está longe de observar tais mandamentos.

Nem os virtuosos chegam ao comando da Nação, nem as virtudes fazem parte da educação formal, adstrita a um adestramento do educando para que aprenda a arquivar em sua memória informações que se desatualizam e que estão sempre atrás daquilo que as TICs – Tecnologias da Informação e da Comunicação liberam, instantaneamente, no mundo virtual.

Nenhuma perspectiva de que isso se altere agora ou no futuro. A inércia paralisa as mentes, o comodismo faz sua parte e resta indagar se o homem se tornará, com esse processo, a mais divina das criaturas ou não.

A educação convencional tem algo a ver com a educação platônica?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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