Do coronel para o general – desafios do Brasil de ontem e de hoje

Do coronel para o general – desafios do Brasil de ontem e de hoje

Bernardo Pasqualette*

09 de janeiro de 2021 | 05h00

Mário Andreazza e Eduardo Pazuello. FOTOS: REPRODUÇÃO E DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Senhor ministro, prezado general, caro Pazuello,

Quem lhe escreve é o Mário, mas por aí alguns ainda se lembram de mim como o coronel Andreazza. Permita-me começar por uma dúvida: não sei se devo lhe chamar de ministro ou de general. Militar da ativa em ministério é coisa nova. Pelo menos para mim. Na minha época, o costume era ir para reserva antes de assumir uma Pasta. Talvez esteja ficando antiquado.

Seja como for, lhe escrevo para contar o que eu vivi, um dia, por essas bandas que hoje o senhor habita. Assim como o senhor, eu era considerado um “gestor” – palavra que, na década de 1970, era pouco utilizada e representava modernidade. Hoje está na moda, e serve para qualquer coisa. Acho que estou mesmo ficando velho.

Independentemente do que a palavra signifique, o senhor foi convidado para o ministério da Saúde porque o presidente acredita que você é um gestor. Exatamente o que o Costa e Silva pensava de mim. Acabei ministro dos Transportes. Dessa coincidência, nasce o traço essencial a nos unir, afora nossa fraternidade de armas: o senhor é o militar diante do maior desafio de gestão desde que eu deixei o governo central.

Meus desafios, no entanto, eram outros. Descomunais, assim como os seus. Mas de estaturas diferentes. Completamente. Sua batalha é mais árdua. Disso, não tenho dúvidas.

Cada qual com a sua cruz.

Poderia, assim, lhe contar sobre as rodovias Transamazônica, Santarém-Manaus ou sobre as pontes que ligam o Brasil ao Paraguai e ao Uruguai. Nada disso. Quero lhe contar sobre a ponte Rio-Niterói. Talvez meu aprendizado lhe valha de algo. Idealizei o projeto, que considerava como um filho. As obras foram inauguradas na presença da Rainha Elizabeth II, em 1968. Mas não era para inglês ver. Muito pelo contrário.

Bernardo Pasqualette. FOTO: DIVULGAÇÃO

Aquela obra representava o Brasil moderno, sonho da minha geração. Foram cinco anos de muito trabalho. Até na vila contígua à obra eu morei. Talvez venha daí a fama de “tocador de obras”. Nunca saberei ao certo.

O que eu sei é que o rótulo nunca me diminuiu. Pelo contrário. Se era para me desmerecer, perderam tempo: considerei um elogio. Sempre fui afeito ao trabalho, e disso muito me orgulho. Nenhuma sensação foi melhor que a de fazer o único discurso no dia da inauguração da Ponte. Um filme passou pela minha cabeça. Tive certeza de que cada minuto valeu a pena.

Nem tudo, no entanto, foi fácil. A obra sofreu com atrasos e problemas de todo o tipo. Haja gestão. Certa tarde, o presidente Médici mandou me chamar. Pela expressão do ajudante de ordens, vi que a coisa não estava boa. Tiro e queda. Queria desapropriar o consórcio responsável pela obra. Cheguei a indagar se aquilo era possível. Santa ingenuidade. A resposta reflete o espírito daquele tempo: “Eu tenho o AI-5 na mão e, com ele, posso tudo.”.

Podia mesmo. Porém, eram outros tempos. Aliás, esse mesmo AI-5 foi responsável pelos 14 segundos mais longos de toda minha vida, naquilo que seria um dos votos mais curtos da triste tarde de 13 de dezembro de 1968. Não tem jeito, ministro-general: a história é implacável. Para o bem e para o mal.

Por isso lhe escrevo, general-ministro. Diante do desafio da vacinação em massa, a Ponte Rio-Niterói parece pequena. Nunca se fez algo dessa grandeza, nem sequer parecido. Aqui, me permito um conselho: antes de um homem, vem sua biografia. Preserve-a. Una esforços e transforme inimigos em aliados. E lembre-se:  gestor não é político. Militar também não.

Seu primeiro desafio é comprar aquilo que o mundo todo quer ao mesmo tempo: vacinas. Pouca coisa não é. Assim, deixe as intrigas de lado e não permita que se politize aquilo que de mais essencial existe por aí. As disputas se vão, mas os fatos permanecem. Para mal dos nossos pecados, exatamente do modo que são.

Por esse motivo, priorize a imunização e toda a logística necessária para tanto. Compre as seringas, prepare os locais de vacinação, defina o calendário e toque a vida em frente. Organize a sociedade e lidere o processo. Vaias e aplausos inevitavelmente virão, mas o fundamental é ter a consciência de ter feito a coisa certa. Ou, pelo menos, tentado fazer.

O resto é disputa narrativa. Algo secundário, assim o tempo me fez ver. Veja a minha querida Ponte: há pouco quiseram mudar o nome dela. Revisionismo histórico? Justiçamento tardio? Tanto faz. Por mim, podem chamá-la até de Ponte Democrata Carlos Marighella. Li isso há algum tempo atrás e tenho de lhe confessar: adorei. Sempre fui fã de fina ironia.

Goste-se ou não do presidente Costa e Silva, o fato é que a iniciativa foi dele, apesar de a história registrar o interesse pela obra desde o Império. Isso ninguém muda, nem mudando o nome da Ponte. Talvez fosse mais fácil mudá-la de lugar. Sem ironias.

O que importa, senhor ministro, é que a ponte Rio-Niterói permanece mais firme que nunca. Quando a inauguramos, passavam 15 mil veículos por dia. Hoje são dez vezes mais. Se o senhor, um dia, por ali passar, lembre-se de mim. Apesar dos inúmeros contratempos, chegamos até o fim. Desafio vencido, legado preservado.

Antes de me despedir, indago-lhe como gostaria de ser lembrado pela posteridade: ministro? General? Gestor? Essa pergunta só o senhor será capaz de responder. Recordo-lhe, todavia, que a forma como somos lembrados fala por nós, mesmo quando não temos mais voz.

Espero, sinceramente, que no futuro os brasileiros possam guardar uma lembrança positiva de sua pessoa, assim como guardam de mim quando passam sobre a Ponte.

Daquele que lhe deseja o melhor,

Mário Andreazza

*Bernardo Pasqualette é advogado e autor do livro Me esqueçam – Figueiredo: a biografia de uma Presidência

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.