Do Brás, bangalês cobrava R$ 47 mil para contrabandear migrantes aos EUA

Do Brás, bangalês cobrava R$ 47 mil para contrabandear migrantes aos EUA

Saifullah al Mamun, apontado como o maior contrabandista de migrantes do mundo, foi preso na manhã desta quinta, 31, pela Polícia Federal, em São Paulo, sob suspeita de chefiar esquema ilegal que levava sul-asiáticos até os EUA passando pelo Brasil

Pedro Prata, Pepita Ortega e Luiz Vassallo

31 de outubro de 2019 | 15h52

O bangalês Saifullah al Mamun, que comandava, do Brás, um esquema intercontinental de tráfico de migrantes, cobrava R$ 47 mil para levar pessoas do sul da Ásia até os Estados Unidos, passando pelo Brasil. Se o destino final fosse o País, a taxa era de R$ 25 mil. Ele foi preso nesta quinta, 31, pela Polícia Federal, em São Paulo. A PF aponta Saifullah como ‘o maior contrabandista de migrantes em todo o mundo, envolvendo migração ilegal para os EUA’.

Ele teve a prisão decretada essa semana nos Estados Unidos e o nome difundido na Interpol.

Saifullah Al Mamun. Foto: PF/Divulgação

As investigações, que começaram a partir de denúncia anônima à PF, contaram com a cooperação internacional do U.S. Immigration and Customs Enforcement, agência americana.

Às autoridades americanas, os migrantes disseram que entram no Brasil pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, com passaportes e documentos falsos. Saifullah oferecia até mesmo o registro de imigrantes (RNE) falsificado.

A operação que tirou de cena o líder da maior rede de tráfico de migrantes do mundo foi comandada pela Delegacia de Defesa Institucional da PF em São Paulo.

Eles são, em sua maioria, provenientes de países como Afeganistão, Bangladesh, Índia e Paquistão, dentre outros países do Sul da Ásia.

Os migrantes contrabandeados eram, então, transportados até o Acre, segundo a PF. “Nesse momento, os contrabandistas de São Paulo fazem contato com os taxistas de Rio Branco via aplicativos de conversa (WhatsApp, Telegram, Imo, Messenger etc.), e encaminham fotos dos migrantes para que os taxistas possam reconhecê-los no desembarque  e levá-los até a fronteira do Brasil com o Peru.”

As investigações apontam que o bangalês cobrava R$ 45 mil para contrabandear pessoas do sul asiático para os Estados Unidos. Foto: PF/Reprodução

A seguir, atravessavam os seguintes países: Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala e México.

A jornada era cheia de riscos, na floresta. “Na região da fronteira da Colômbia com o Panamá, os migrantes atravessam a Selva de Darién, por cerca de cinco a dez dias a pé, enfrentando diversos perigos, como onças, animais peçonhentos e narcotraficantes.”

Já na fronteira do México com os Estados Unidos, os migrantes corriam o risco de ser sequestrados pelos cartéis mexicanos. Dentre aqueles que chegam ao destino final, os Estados Unidos, muitos podem ser presos por imigração ilegal.

Taxistas em Rio Branco eram acionados para levar os migrantes até a fronteira com o Peru. Foto: PF/Reprodução

A operação da PF contou com técnicas especiais de investigação, dada  a complexidade dos fatos sob investigação. “Em especial a cooperação policial e jurídica internacional, ação controlada, quebra de sigilo bancário, interceptação telefônica e a busca e apreensão de e-mails dos investigados.”

Ainda de acordo com a Polícia Federal, o grupo teria utilizado diferentes estratégias para lavar US$ 10 milhões que movimentou no País entre 2014 e 2019, entre elas: uso de ‘laranjas’; saques e movimentações em espécie; transferências, saques e movimentações de valores fracionados; e operações de dólar-cabo.

Saifullah foi preso nesta quinta, com a deflagração das operações Estação Brás e Bengal Tiger.

Em agosto último, a PF deflagrou a Operação Big Five, que já mirou uma organização no Brás que atuava no contrabando de migrantes vindo da África Ocidental para os Estados Unidos. A Procuradoria denunciou três integrantes da organização, que acreditava contrabandear de 30 a 50 pessoas mensalmente pelo País.

Operação Estação Brás, da PF, combate esquema de contrabando de migrantes. Foto: PF/Divulgação

Advogado ajudava no status de refugiado

O advogado Henrique Gonçalves Liotti, associado de Saifullah al Mamun, pedia o status de refugiado para alguns dos imigrantes.

Em um dos casos acompanhados pela PF, ele solicitou o status especial e declarou o endereço dos interessados como Rua Barão do Ladário, nº 859, Brás.

Rua Barão do Ladário, 859, onde ficava o restaurante de um dos associados de Saifullah. Foto: Google Maps/Reprodução

O endereço, no entanto, era do India Bangla Restaurante Ltda. e Asian Viagens e Turismo Ltda, empresas de Saiful Islam, outro associado de Saifullah al Mamun no contrabando de migrantes, informa a Polícia Federal.

“Dessa maneira, é possível constatar, de plano, que os migrantes nunca tiveram o ânimo de residir no Brasil para fugir de uma suposta perseguição política, mas sim a exclusiva intenção de migrar ilegalmente para os Estados Unidos, valendo-se para isso dos serviços ilegais da associação criminosa.”

Liotti ainda foi advogado de Nazrul Islam, outro integrante do grupo criminoso, na oitiva da Operação Philotheus, na qual a PF já investigava a prática de contrabando de migrantes. Nazrul e Liotti foram grampeados enquanto tratavam da recepção de alguns dos migrantes em Rio Branco.

Polícia Federal deflagrou as operações Estação Brás e Bengal Tiger. Foto: PF/Divulgação

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com a defesa de Saifullah al Mamun e do advogado Henrique Gonçalves Liotti. O espaço está aberto para manifestação.

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