Diversificar para conquistar

Diversificar para conquistar

Dov Rawet*

26 de novembro de 2020 | 09h34

Dov Rawet. Foto: Divulgação

A clássica frase histórica dos tempos de disputa por territórios ‘Dividir para conquistar’, pode ganhar nova roupagem sob a forma ‘Diversificar para conquistar’, quando o assunto é também enfrentar períodos desafiadores, como o cenário atual do mercado financeiro brasileiro.

Nos últimos anos, temos presenciado a queda acentuada nas taxas de juros no Brasil, atualmente em 2% ao ano, nível recorde de baixa. Este fator, que tende a contribuir para o crescimento da economia, representa um desafio aos investidores brasileiros, que precisam buscar ativos mais arriscados para manterem a rentabilidade de seus investimentos.

Para alcançar tal objetivo de forma eficiente, é preciso montar uma carteira diversificada de ativos. Parafraseando Harry Markowitz, pai da Teoria Moderna de Portfólio, o único “almoço grátis” que existe no mercado é a diversificação, que permite diminuir o risco de uma carteira de investimentos sem reduzir os retornos esperados.

Entretanto, limitar os investimentos a ativos localizados em apenas um país (no caso, o Brasil) reduz desnecessariamente os benefícios oriundos da diversificação. É indispensável buscar investir em outros países, que além de possuírem mercados menos correlacionados com o brasileiro e representarem uma exposição a outras moedas, muitas vezes trazem produtos diferentes, mais desenvolvidos ou até sem correspondência no mercado local.

Porém, se a diversificação é um “almoço grátis”, a diversificação internacional ainda é custosa. No Brasil, menos de 12% dos investimentos na indústria de fundos são voltados ao exterior, o que mostra o potencial de crescimento que a modalidade ainda tem no país. Mesmo investidores mais sofisticados podem ter certa dificuldade em acessar mercados estrangeiros. Quando se observa o pequeno investidor, o desafio ainda é maior; historicamente, este sempre esteve distante dessas oportunidades.

Felizmente, os órgãos reguladores estão atentos a esta questão e vêm contribuindo de forma efetiva para expandir as possibilidades de acesso aos mercados externos pelo investidor brasileiro, além de aumentar a integração entre os nossos mercados financeiro, de capitais e os de outras jurisdições. Há vários exemplos recentes, como o lançamento da Iniciativa de Mercado de Capital (IMK) em 2019 – um novo grupo de trabalho do Governo Federal, coordenado pelo Banco Central e com representantes do Ministério da Economia, da CVM e da Susep – com o objetivo de desenvolver o mercado de capitais brasileiro, com base no livre mercado. Na agenda, encontram-se temas como o aperfeiçoamento dos mecanismos de oferta de hedge cambial pelo mercado financeiro, a permissão para a emissão de dívida local em moeda estrangeira por companhias não-financeiras e a redução do custo para abertura de contas de custódia para não-residentes.

O Banco Central, em sua Agenda BC#, propôs projeto de lei para modernizar o mercado de câmbio, a fim de facilitar o fluxo de recursos e investimentos, racionalizando as exigências para os investimentos brasileiros no exterior e para os investimentos estrangeiros no Brasil.

Já a Comissão de Valores Mobiliários vem aperfeiçoando suas regras com o objetivo de tornar a diversificação internacional mais acessível, sempre tendo em mente a proteção ao investidor. No final de 2014, a Instrução CVM No 555 veio aprimorar as regras que permitem aos fundos de investimentos brasileiros investirem no exterior. Com o passar do tempo e a crescente demanda por ativos estrangeiros, já há um esforço do mercado pela atualização de tais regras, buscando notadamente ampliar os limites de investimentos em ativos estrangeiros pelos fundos voltados ao público de varejo.

Motivação semelhante foi o que levou a CVM a recentemente modernizar as regras que tratam dos certificados de depósito de valores mobiliários – BDR. Os BDRs representam um instrumento valioso para permitir o acesso de investidores, especialmente o público de varejo e certos investidores institucionais, a ativos estrangeiros, pois são negociados na B3 em reais. O investidor não precisa ir longe; pode transacionar tais ativos no Brasil.

Agora, além de ações, também podem servir de lastro de BDR cotas de ETFs negociadas no exterior e títulos de dívida. Além disso, investidores não qualificados também já podem adquirir BDRs não patrocinados na Bolsa brasileira. Ou seja, da mesma forma que negociam ações de empresas brasileiras, pequenos investidores têm acesso direto a BDRs de grandes companhias americanas, como Apple, Amazon e Tesla, por exemplo.

Em outra frente, é promissor o retorno de emissores de BDRs Patrocinados ao mercado brasileiro e empresas sérias que queiram listar seus papéis e terem como seu principal mercado de negociação o Brasil devem ser encorajadas a fazê-lo.

Diante do bom momento, investidores que queiram diversificar internacionalmente devem procurar especialistas que conheçam bem os mercados estrangeiros, mas que também tenham profunda experiência com o público brasileiro e suas peculiaridades. A capacidade de fazer essa conexão entre as duas realidades é o elo mais valioso para o sucesso da estratégia de investimentos no exterior e a conquista de uma carteira com excelente rentabilidade.

*Dov Rawet é diretor de Produtos Estruturados e Membro do Comitê Executivo do Grupo Leste

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