Distorção estatística: a quem favorece a subnotificação da covid-19?

Distorção estatística: a quem favorece a subnotificação da covid-19?

Leandro Bortolassi*

06 de maio de 2020 | 13h30

Leandro Bortolassi. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nunca saberemos os números desta pandemia. Por mais esforços de entidades, como a Universidade Johns Hopkins e a própria Microsoft, em trazer uma análise em tempo real acerca do número de infectados e vítimas fatais do novo coronavírus, a subnotificação tem duas grandes consequências:

1. Obviamente, inibe todos os esforços científicos para se entender os padrões de contágio, de avanço, da fatalidade e, principalmente, da taxa de cura da doença em diferentes regiões do planeta.

2. Tão grave quanto. Favorece políticos oportunistas, sobretudo em vésperas de um período eleitoral, uma vez que irão usar a subnotificação para demonstrar algum tipo de controle sobre o avanço do vírus maquiada de ações estratégicas efetivas no combate epidemiológico.

Para que fique claro. Quanto maior o número de casos suspeitos, menor é o volume de testes de carga viral disponível, o que, consequentemente, acaba gerando uma manobra estatística. Logo, quanto menos pacientes testados, menor é o número de constatações, o que aponta – em dados oficiais – uma redução na curva de contágio, e de óbitos causados pela doença. Na prática, porém, o que vemos é o empilhamento de corpos em caminhões refrigerados ou em leitos hospitalares à espera do serviço funerário.

Em ano eleitoral, crise econômica, desemprego e população doente não reelegem ninguém. Prefeitos são os maiores interessados em reabrir os comércios e as indústrias de suas cidades, de ‘normalizar’ a vida de seus munícipes. Nenhum governo municipal quer estar à frente de decisões impopulares a poucos meses de uma campanha eleitoral. Politicamente, o efeito é devastador.

Porém, analisando friamente, a posição mais confortável na hierarquia do poder Executivo, neste momento, é exatamente a cadeira de governador, uma vez que não está diretamente em campanha eleitoral e tampouco responderá pelos efeitos econômicos gerados pela pandemia. Seu poder de cobrança de medidas, tanto de prefeitos quanto do governo federal, é muito maior.

Justamente pelo último item, a Presidência da República é a posição mais vulnerável, sob o ponto de vista político-eleitoral. Afinal, crise econômica e fiscal são responsabilidades da esfera federal e de suas autarquias, como o Ministério da Economia e Banco Central, ambos sob regência do presidente da República. Em um cenário de crise econômica aguda, dificilmente uma população desempregada, sem renda e abatida pelos efeitos de uma pandemia irá reeleger seu chefe do Executivo.

Triste constatar, mas o sistema político brasileiro não atua em prol do cidadão. Trabalha unicamente para se perpetuar no poder ou ascender politicamente. Mesmo com os clamores por mudança das últimas eleições, isso não mudou e fica cada vez mais nítido tendo em vista a gravíssima crise política que abate o país em um dos momentos mais sensíveis da nossa história. Troca de ministros, troca de acusações, troca de insultos. Palanques eleitorais – disfarçados de estadismo – erguidos por governadores durante coletivas de imprensa referentes às medidas adotadas durante a pandemia. Decisões judiciais de tribunais superiores impedindo medidas populistas de prefeitos.

Perde a ciência, perde o Estado e, principalmente, perde a população.

Apesar dos efeitos gravíssimos dessa pandemia, o volume de informações que simplesmente deixaram de ser conhecidas por questões de cunho político – também por incompetência – irá comprometer gravemente a capacidade de resiliência do país. São dados valiosíssimos que poderiam ser incorporados de forma bem-sucedida, não apenas no sistema de Saúde, mas no planejamento estratégico dos governos municipais, estaduais e federal, sobretudo para o contingenciamento de situações críticas como a que estamos vivendo.

Assim como Sofia, nos resta apenas chorar pelos mortos e sofrer pela eternidade as consequências da falta de informação.

*Leandro Bortolassi, fundador e CEO da Eight Data Intelligence. Jornalista, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e MBA em Marketing pela SP Business School

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