Disputa por espólio de Capitão Adriano ajudou MP a identificar bens e lavagem de dinheiro

Disputa por espólio de Capitão Adriano ajudou MP a identificar bens e lavagem de dinheiro

MP do Rio busca por viúva de miliciano (morto em 2020), que empregou por dez anos a mãe e a ex-mulher no gabinete de Flávio Bolsonaro, na Alerj; Julia Lotufo e mais sete acusados viraram réus por esquema de agiotagem

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

23 de março de 2021 | 05h06

Adriano Nóbrega, miliciano morto em 2020. Reprodução

A disputa pelo espólio de Adriano Magalhães da Nóbrega – miliciano que morreu em fevereiro de 2020, na Bahia, após reagir à prisão – e movimentações financeiras e societárias de negócios ligados ao ex-capitão do Bope e seus aliados ajudaram o Ministério Público do Rio a reunir provas para pedir a prisão e a abertura de uma ação penal contra a viúva do miliciano, Julia Emília Mello Lotufo, e mais oito pessoas. Entre elas, um soldado e um sargento da Polícia Militar, Luiz Carlos Felipe Martins, que seria braço-direito do miliciano e foi assassinado no último sábado.

Alvos da Operação Gárgula, deflagrada pelo MP do Rio nesta segunda-feira, 22, eles são acusados de crimes de associação criminosa, agiotagem e lavagem de dinheiro ligados ao Capitão Adriano, como era conhecido o miliciano que empregou por dez anos a mãe e a ex-mulher no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (Republicados/RJ), quando ele era deputado estadual, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). As duas são parte do esquema denunciado de “rachadinha” – apropriação indébita de salários de servidores. O caso está em julgamento de legalidade, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que já anulou parte central das provas, a quebra de sigilo fiscal e bancário dos alvos.

Quatro dos acusados de serem parceiros de Capitão Adriano tiveram prisão preventiva decretada pelo juiz Bruno Monteiro Rulière, da 1.ª Vara Criminal Especializada da Capital: Julia Lotufo, seu ex-marido e soldado da PM Rodrigo Bitencourt Fernandes Pereira Rego, seu primo Daniel Haddad Bittencourt Fernandes Leal e o sargento da PM Luiz Felipe Martins (morto no dia 20). Os demais foram alvos de outras medidas cautelares ou são alvos da investigação, entre eles, dois irmãos da viúva, David Mello Lotufo e Lucas Mello Lotufo, e duas irmãs do miliciano, Tatiana Magalhães da Nóbrega e Daniela Magalhães da Nóbrega.

Agiotagem.  Na Operação Gárgula, promotores do Grupo Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP do Rio, apontam que o esquema de agiotagem misturou, em uma mesma engrenagem financeira de lavagem de dinheiro sujo, os supostos rendimentos obtidos por Capitão Adriano com a milícia de Rio das Pedras, com os serviços para o Escritório do Crime (grupo de assassinos de aluguel), com a exploração de máquinas caça-níqueis dos contraventores e os negócios em cavalos e gado.

O alvo central da apuração é um dos esquemas usados por Capitão Adriano para lucrar e “legalizar” dinheiro obtido com crimes, segundo o MP. A Cred Tech Negócios Financeiros Ltda., que estava em nome do soldado Rodrigo Bittencourt e de uma sócia, servia de “fachada” e movimentava “cifras milionárias”.

“Alega-se que parte do produto ou proveito dessas infrações penais (tidas como antecedentes) praticadas por Adriano Magalhães da Nóbrega era direcionados à concessão de empréstimos a terceiros, mediante juros extorsivos, com a utilização da Credtech Negócios Financeiros Ltda. e atuação dos denunciados”, registra o magistrado, ao colocar os acusados no banco dos réus.

O MP sustenta que os empréstimos da Cred Tech serviam para “prática da ação de ocultar e dissimular a origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de valores decorrentes de crimes anteriores praticados, em tese, por Adriano da Nóbrega”.

Dados de relatório da Unidade de Inteligência Financeira (UIF), o antigo Coaf, mostraram que o soldado Rodrigo Bittencourt – preso nesta segunda, 22 – movimentou em conta pessoal R$ 4,6 milhões, entre 3 de julho de 2018 e 24 de abril de 2020, e mais R$ 3,6 milhões na conta da Cred Tech, entre 1 de agosto de 2019 e 28 de abril de 2020.

A quebra dos sigilos de dados dos 11 aparelhos de telefones celulares que estavam com Capitão Adriano, quando morreu na Bahia, indicaram que o miliciano e “Rodrigo Bittencourt tinham permanente contato” durante o período de fuga – de janeiro de 2019 a fevereiro de 2020.

Nas apurações do Gaeco, Bittencourt foi monitorado em conversas telefônicas prestando conta dos valores movimentados. Outro dado relevante foi que após a morte do miliciano na Bahia, as movimentações financeiras da Cred Tech pararam.

“Os indícios de utilização da pessoa jurídica Cred Tech Negócios financeiros como ‘empresa de fachada’ para movimentação financeira de Adriano Magalhães da Nóbrega reforçam-se com a circunstância de que, a despeito de a sociedade não ter sido formalmente encerrada, após a morte deste cessaram as operações financeiras suspeitas”, informa a acusação do MP.

 

Foragida. A viúva do Capitão Adriano é considerada foragida. Segundo o MP, Julia Lotufo administrava o patrimônio ilícito do miliciano e teria participado ativamente nos esquemas de agiotagem e lavagem de dinheiro via Cred Tech.

“Os dados produzidos demostram que o denunciado Rodrigo Bittencourt Fernandes Pereira do Rego se reportava a Julia Lotufo prestando-lhe conta de valores decorrentes de empréstimos concedidos”, registra a denuncia. “Evidenciando, desta forma, que a denunciada detinha controle sobre parte dos valores movimentados de Adriano Nóbrega.”

Outro negócio supostamente usado para lavar dinheiro que vinculam Julia Lotufo foi a Lucho Comércio de Bebidas Ltda. Constituída inicialmente em nome de Rodrigo Bitencourt e Carla Chaves Fontan, a empresa foi passada para dois irmãos da viúva, David Lotufo e Lucas Lotufo, após a morte do Capitão Adriano.

“A alteração contratual evidencia, segundo os investigadores, que a denunciada Julia permaneceu agindo com o intuito de ocultar e administrar o patrimônio de Adriano, beneficiando-se diretamente do proveito dos crimes por ele praticados”, informou o Gaeco, por meio de nota.

Réus. Julia Lotufo e os esquemas da Cred Tech são só uma parte das apurações do MP do Rio sobre o patrimônio do Capitão Adriano e sua rede de amigos, que garantiu sua fuga por um ano. A Justiça decretou na Operação Gárgula o sequestro de R$ 8,4 milhões em bens do esquema.

No despacho, o juiz Bruno Monteiro Rulière, da 1.ª Vara Criminal Especializada, registra que a denuncia é lastreada por dados das investigações do Escritório do Crime, originária do caso do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes (em março de 2018), e da Operação Intocáveis, contra a milícia da comunidade de Rio das Pedras.

Nas apurações, a descoberta fortuita de provas levou à abertura de uma investigação específica em 2020 sobre o esquema de agiotagem e lavagem de dinheiro do Capitão Adriano. Nas buscas da Operação Gárgula, os agentes procuraram também dados relacionados a outros investigados, como Ronaldo Cesar da Silva Corrêa, o Grande, que teria relações supostamente criminosas com Capitão Adriano e Luiz Felipe Martins, além dos ex-policiais militares Waldiney Mirlando Gomes Lopes, apontado como segurança do Capitão Adriano e da família, e Valdemi Gomes Junior, o Cabeça, pessoa de confiança.

Com a decisão do juiz, estão no banco dos réus, além de Julia Lotufo e seus irmãos David e Lucas Lotufo, Rodrigo Bitencourt Fernandes Pereira do Rego, Daniel Haddad Bittencourt Fernandes Leal, Carla Chaves Fontan, Carolina Mandin Nicolau, Jefferson Renato Candido da Conceição, conhecido como Sapo. A denúncia foi apresentada pelo Gaeco em 15 de dezembro de 2020. A decisão do magistrado é do dia 15 de março.

Queima de arquivo. O assassinato do sargento da PM Luiz Felipe Martins, que seria braço direito do miliciano, no sábado, 20, em Realengo, no Rio, abre uma nova frente de investigação: sobre suposta execução. A morte ocorreu dois dias antes da deflagração da operação, data em que sua prisão já havia sido decretada.

A morte foi considerada por investigadores uma “queima de arquivo”. O caso vai ser investigado pela polícia e pelo MP. Luiz Felipe Martins era PM e pessoa de confiança do Capitão Adriano e da viúva.

No despacho do juiz, em que aceitou a denúncia e mandou prender os acusados, foi destacado que o PM Luiz Carlos Martins “detinha tarefa de intermediar uto a Adriano da Nóbrega valores a ser inseridos no esquema de agiotagem, através de Rodrigo Bittencourt e da empresa Cred Tech”. O MP afirma que ele “era responsável por levar valores a familiares e prestadores de serviços de Adriano e pelo pagamento das despesas pessoais de Adriano com aluguel, carros, cartões de crédito”. A ação penal será extinta em relação a ele.

O nome do sargento já apareceu em outras apurações. Na casa de praia alugada em um condomínio de luxo na Bahia, onde Capitão Adriano passou as festas de Natal e de Réveilon, no final de 2019, o nome de Luiz Felipe Martins está na lista de pessoas que visitariam a família. O miliciano acabou fugindo de um cerco policial, no local, no final de janeiro de 2020. As suspeitas eram de que ele havia sido avisado e acabou se escondendo em um sítio indicado por um amigo, onde foi morto dias depois, em segundo cerco .

Em 2011, Luiz Felipe Martins também foi alvo da Operação Tempestade no Deserto, em que foi preso com Adriano da Nóbrega e outros dois PMs e um policial civil. Os cinco atuariam como segurança e matadores de contraventores e teriam tentado matar Rogério Mesquita, em 2008, a mando dos herdeiros do bicheiro Waldomiro Garcia, o Miro, e de seu filho, Waldomir Paes Garcia, o Maninho – assassinado em 2004.

Nesta segunda, na Operação Gárgula, foram feitas buscas na Fazenda Haras Modelo, em Guapimirim (RJ). Capitão Adriano teria ligação com a propriedade, que foi da família do bicheiro e está relacionada a outros crimes.

 

 

 

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