Disposto à delação, Valério diz que é ‘muito grave’ a chantagem ao PT

Publicitário mineiro preso e condenado no mensalão afirmou a juiz da Lava Jato 'que está disposto a conversar' com MPF sobre motivos que o levaram a desistir do repasse que faria ao PT de R$ 6 milhões para empresário de Santo André (SP), que teria 'chantageado' Lula, Dirceu e Gilberto Carvalho, após assassinato do prefeito petista Celso Daniel

Julia Affonso, Fausto Macedo e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

13 de setembro de 2016 | 13h00

Ronan Maria Pinto. Foto: Joedson Alves/AE

Ronan Maria Pinto. Foto: Joedson Alves/AE

O publicitário Marcos Valério – preso e condenado no mensalão – afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que desistiu de participar da operação de repasse de R$ 6 milhões, em 2004, para o empresário Ronan Maria Pinto, pedido pelo PT, por que soube de algo “muito grave”. O pagamento seria para encerrar suposta chantagem que estaria sendo feita contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contra os ex-ministros José Dirceu e Gilberto Carvalho,

“O que eu soube era muito grave”, afirmou Valério, ao falar sobre o que descobriu sobre Ronan e a suposta extorsão. “O que eu fiquei, sabendo, eu não gostei.”

Marcos Valério é réu na Lava Jato por ter participado da lavagem de metade de um empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões tomado pelo PT no Banco Schahin em nome do pecuarista José Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente Lula. A dívida nunca foi quitada diretamente, mas sim com um contrato do esquema de cartel e corrupção na Petrobrás dirigido para o Grupo Schahin de operação de um navio-sonda, usado para explorar petróleo em alto mar – negócio de US$ 1,6 bilhões, fechado em 2009.

A força-tarefa da Lava Jato afirma que metade dos R$ 12 milhões teria sido enviada para Ronan Maria Pinto e outra metade para os publicitários Armando Peralta e Giovanni Favieri, responsáveis pela campanha de Dr Hélio, em Campinas, ligados ao ex-governador Zéca do PT – responsável por aproximar Lula e Bumlai.

O procurador da República Diogo Castor de Mattos questionou detalhes sobre o que ele sabia da suposta chantagem. “Vou pedir para não responder. O que eu fiquei sabendo era muito grave e o senhor não vai poder garantir a minha vida.”

Celso Daniel. Foto: Itamar Miranda/AE

Celso Daniel. Foto: Itamar Miranda/AE

Jornal. A parte de Ronan, dono de empresas de ônibus do ABC paulista condenado por corrupção na prefeitura de Santo André, no governo do prefeito assassinado em 2002 Celso Daniel (PT). O dinheiro serviu para a compra do controle acionário do jornal Diário do Grande ABC e também para aquisição de ônibus para suas empresas de transporte público coletivo.

Na versão de Valério contada a Moro nesta segunda-feira, 12, ele foi procurado em 2004 pelo ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira. Pivô do primeiro grande escândalo de corrupção do governo Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005, o publicitário Marcos Valério confirmou em depoimento a Moro que o ex-secretário do PT Sílvio Pereira teria pedido a ele para ajudar no repasse de R$ 6 milhões para o Ronan, que estaria fazendo chantagem. As ameaças seriam feitas contra Lula e os ex-ministros José Dirceu e Gilberto Carvalho.

Depois do pedido do petista, em que Silvio Pereira teria indicado a empresa de ônibus de Ronan chamada Viação Santo André para efetuar o repasse, Valério disse ter procurado o ex-deputado federal José Janene, ex-líder do PP no escândalo do mensalão, morto em 2010 e origem da Lava Jato.

Janene estava na Bônus-Banval. Segundo Valério, era Janene que tinha relação comercial com Enivaldo Quadrado, dono da Bônus-Banval – corretora de valores envolvida no mensalão. A Bônus seria usada para entrega de valores em espécie para o PT.

O publicitário disse que Janene fez o contrato fictício que assinou para repassar os R$ 6 milhões para uma empresa de Ronan, chamada Remar. Janene falou para mim, ‘procura saber que é esse cara'”.

Informações. O publicitário diz ter buscado informações sobre Ronan Maria Pinto e o que ficou sabendo “não agradou”. “Chamei o Sílvio Pereira novamente, em Brasília, logo que ele saiu do Palácio (do Planalto). É notório, se o senhor pegar na quebra do sigilo telefônico na agenda do Palácio, eu tive lá umas 600 vezes.”

Valério disse que Silvio Pereira estava “maluco”. “Não vou fazer, não vou transferir e o assunto é tão sério que eu acho o senhor deveria arrumar alguém de confiança do senhor presidente para resolver esse assunto. Usei o termo ‘me inclua fora disso’.”

O publicitário Valério afirmou que depois da primeira reunião, Silvio pediu para ele participar de uma reunião com Ronan, em São Paulo. O encontro foi marcado pelo petista para ele “ganhar tempo” e uma sala de reunião do subsolo do hotel Mercure, onde estavam Ronan, Silvio ele e o jornalista Breno Altman – ligado a Dirceu.

Altman foi ouvido também por Moro como réu no processo. Ele negou qualquer tipo de extorsão. Delubio Soares também negou.

“Ele estava doido da vida, com um radinho, falando com uma mulher. Ele queria pegar o dinheiro para comprar o Diário do Grande ABC. E quem falou que ia comprar o Diário foi ele mesmo”, explicou Valério. “Ali eu conheci o Ronan Maria Pinto.”

Chantagem. O publicitário afirmou que nesse encontro “tomou conhecimento” que os R$ 6 milhões eram para comprar metade do jornal do ABC, que “estava criando muito embaraço para eles lá em Santo André. “E, por isso, poderia dar uma sossegada na vida deles lá.” Ronan foi condenado na Justiça em São Paulo por corrupção no governo Celso Daniel.

No depoimento de ontem, Valério voltou a afirmar o que disse à Procuradoria Geral da República em depoimento prestado no mensalão, em 2012. Valério declarou saber que Ronan Maria Pinto estaria chantageando a alta cúpula do PT, via Sílvio Pereira, entre eles o ex-presidente Lula e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, para não associar o grupo ao assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel – morto em 2002.

O caso Celso Daniel é um capítulo emblemático do PT. O então prefeito de Santo André foi sequestrado e assassinado a tiros em uma estrada de terra de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. O Ministério Público Estadual afirma que ele foi vítima de crime político porque tentou interromper o ciclo da corrupção em sua gestão quando descobriu que a propina era destinada ao enriquecimento pessoal dos envolvidos. Por sua vez, a polícia concluiu que o petista foi morto por ‘criminosos comuns’.

O caso do assassinato não é alvo do processo penal da Lava Jato, mas sim a operação de lavagem do dinheiro que foi entregue à Ronan Maria Pinto (alvo da ação penal em que Valério foi ouvido) e os motivos do pagamento (ainda em apuração em procedimento criminal).

Delação. O procurador da República insistiu na questão sobre o que ele descobriu a respeito de “quem era Ronan Maria Pinto” e o que fez desistir de participar do repasse de R$ 6 milhões. “O que eu descobri é muito sério e eu não queria me envolver. Vou pedir para não responder essa pergunta… por que? Porque é um assunto muito grave e eu estou preso em uma penintenciárioa.”

No final do depoimento, o juiz Sérgio Moro questionou Valério se ele queria dizer algo. “Eu gostaria de me dirigir ao Ministério Público. Eu estou em um processo em Belo Horizonte aonde três procuradores, nos estamos conversando, são pessoas sérias. E estamos num processo de delação excelência, e claro deixar claro para o Ministério Público, o que precisar e o sr achar que nós somos úteis nos estamos dispostos a sentar e conversar.”

“Não vou dizer mentiras aqui”, afirmou Valério. “Eu sei o que é ser condenado, sei o que é cumprir pena e eu sei o que é fechar uma cadeia todo dia às seis horas.”

 

 

 

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