Discriminação na pandemia revela sociedade separatista

Discriminação na pandemia revela sociedade separatista

Flavio Goldberg*

19 de março de 2021 | 08h20

Flavio Goldberg. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

No caótico e calamitoso cenário pela vertiginosa contaminação da Covid19 no Brasil salta aos olhos, escandalosamente, o caráter separatista da realidade brasileira. O noticiário da imprensa, diariamente, vem apontando a dramaticidade de casos de pessoas, inclusive pacientes terminais, hipócrita, mas todos aviltantes e, principalmente, de cunho criminoso, afrontando a Constituição da Republica e Ética.

Relacionando algumas situações que revelam a crueldade e ao mesmo tempo o enraizamento no psiquismo social daquilo que podemos chamar de “distanciamento impiedoso”, porque desumaniza numa escala de Eugenia, o próprio fundamento civilizatório do Estado Democrático de Direito, que é o princípio da igualdade de todos perante a Lei, no respeito à dignidade individual e na régua do equilíbrio harmônico das interações na diversidade e excepcionalidade da espécie.

Os idosos enquadrados como doentes (comorbidade), ampliando para a visibilidade de cadeirantes, pobres, miseráveis, sem-teto, negros, obesos, e toda uma cartografia que parte do salvacionismo de um ideal de aparência, saúde, educação que, no final da linha equivale à uma escolha drástica, que desqualifica a conquista dos mínimos recursos de sobrevivência.

Nas portas dos hospitais pessoas contaminadas são separadas entre os que tem o ampara ou não dos convênios médicos, na tradução instantânea de uma condenação à morte.

Médicos e enfermeiros desesperados sucumbem na angustia diante a precariedade e falência do sistema das UTIs por urgência e prioridade de vai ou não ser intubado.

Qual o critério que sem dúvida implica numa condenação à morte entre dois ou mais pacientes necessitados dos limitados dispositivos de salvação?

Inclusive, uma autoridade, publicamente, tentando convencer a população ao respeito às medidas de distanciamento social, uso de máscara, lockdown, falando sobre o colapso da falta de leitos nas UTIs chegou a exclamar pela TV, em agonia: “Vão faltar leitos mesmo para aqueles que pagam convênios caros. ”

O respeito à consciência da sacralidade da pessoa humana como faz para “mandar para casa”, no toque de recolher, aqueles que não tem casa, os “sem-teto”?

Episódios de incidentes com idosos tratados como autênticos párias se sucedem. Numa sociedade do interior um caminhão desfilava pela rua ecoando uma palavra de ordem de lembrança nazista: “Velho, vá para casa”.

No instante contemporâneo do “stress” originado pelo medo da morte, a tanatofobia, urge a conscientização de que a Saúde é um bem público e social, que a vacinação, hospitalização, socorros não podem se mercantilizar segundo a riqueza, aparência ou qualquer critério que não seja o da compaixão, compromisso que o Governo e a própria sociedade deve, principalmente, aos desvalidos e mais frágeis, eis que a Vida não é maratona espartana mas o Espirito e a essência do valor em si mesma: feita à imagem e semelhança de Deus.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito

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