Dinheiro sobra: depende de nós

Dinheiro sobra: depende de nós

José Renato Nalini*

18 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O relatório do organismo da ONU encarregado das mudanças climáticas soaria tétrico para qualquer pessoa sensata. O negacionismo que obnubilou boa parte dos brasileiros não conferiu importância a esse alerta. Menos de dois meses nos separam da COP-26, a última chance para o Brasil acertar o passo com a ciência e com a consciência ambiental.

O Presidente da COP-26, que terá início dia 31 de outubro e se prolongará até 12 de novembro, em Glasgow, na Escócia, espera que os países tenham juízo. Levem a sério o compromisso acordado em Paris em 2015 e façam muito mais do que isso. Os sinais de exaustão do planeta estão em todas as partes, inclusive no Brasil.

Não há mais como tergiversar. É preciso acabar com o uso do carvão, reduzir drasticamente o emprego de combustíveis fósseis, mais do que cessar o desmatamento, encetar urgente movimento de plantio de espécies nativas. A própria Ministra da Agricultura reconhece que há cerca de setenta milhões de hectares de pasto abandonado e ocioso. Se uma parte desse imenso território merecer reflorestamento, pode ser que deixemos de ser o “pária” ambiental destes dois últimos anos.

Se não assumirmos um compromisso realmente consistente, as catástrofes continuarão e com intensidade maior. Já vivenciamos a pior crise hídrica dos últimos noventa e um anos. Embora se tente disfarçar, haverá, sim, racionamento e não está excluída a hipótese de apagão.

O mar avança sobre a área litorânea e continuará a levar as construções da orla. Veja-se Florianópolis e Maceió. Frio intenso de um lado, calor insuportável de outro.

A boa notícia é que um dos objetivos da COP-26 é falar em financiamento. O mundo dispõe de trilhões de dólares disponíveis para projetos de descarbonização. O Brasil tem tudo para se valer dessa oportunidade de ouro. Não se espere uma súbita conversão do governo federal, que praticamente extinguiu o Ministério do Meio Ambiente, que já foi titularizado por Paulo Nogueira Neto, Marina Silva, José Goldemberg, Zequinha Sarney. Lideranças como Fábio Feldman não são ouvidas em gabinetes que se dedicam a outros hobbies.

Mas para isso existe uma Federação sui generis, que inclui Estados-membros e municípios. Os Estados, se emitem metade da poluição do Brasil, são responsáveis por mais do que a metade do PIB. São Paulo dá o exemplo ao procurar governos estrangeiros para mostrar que nem tudo no Brasil é obscurantismo, atraso, retrocesso e cretinice.

O mesmo tem sido feito por outros Estados, que recentemente receberam emissários de Joe Biden, o lúcido Presidente democrata da América do Norte, que soube adotar a bandeira ecológica e reservou muitos bilhões de dólares para isso.

Os municípios também são entidades federativas e podem – e devem – procurar financiamento para projetos sólidos de reflorestamento e de logística reversa, de redução da poluição e do descarte de resíduos sólidos. Há quase tudo a ser feito no Brasil e o momento é o da coesão entre os governos subnacionais, o empresariado, a sociedade civil, a Universidade e a Academia.

O movimento “Race to Zero” pode ser encetado em cada cidade e os chefes de executivo mais lúcidos saberão demonstrar aos investidores internacionais que nem tudo no país é sinônimo de terra arrasada.

O Brasil tem tudo para voltar a ser aquela potência ambiental admirada pelo globo quando editou a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, que completa quarenta anos em 2021. Quando ajudou a elaborar o conceito de sustentabilidade, com Paulo Nogueira Neto influenciando a lavratura do relatório Brundtland. Quando editou a mais bela norma ecológica do século 20, o descumprido e menosprezado artigo 225 da Constituição da República. Ignorado pelo governo, como tantos outros dispositivos da “Cidadã”. Quando recebeu dignitários de quase duzentos países na Eco-92.

De lá para cá, um retrocesso primeiro lento, depois acelerado. Mas a situação chegou a tal grau de gravidade, que agora não há possibilidade de recuos. É agora que o mundo precisa dar mostras de que está preocupado com a situação climática. A vantagem é que há dinheiro sobrando – muitos trilhões de dólares – e eles se destinarão às entidades subnacionais que mostrarem bons projetos.

Que o exemplo de São Paulo frutifique. Há um universo lúcido em vários dos Estados da Federação. E em inúmeros municípios. Os Prefeitos estão com tudo nesse momento. Que saibam aproveitar a chance e tornem suas cidades modelos de conversão ao melhor dos propósitos, que é salvar as pessoas e a natureza, ameaçados por força da insensatez do próprio homem. Se continuar a dupla ganância & ignorância, então não haverá futuro para ninguém. Não é isso o que esperam nossos descendentes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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