Dinheiro não vai faltar

Dinheiro não vai faltar

José Renato Nalini*

07 de junho de 2020 | 06h00

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

A “gripezinha” ou “resfriadinho” está levando um brasileiro por minuto. E está longe de arrefecer. É improvável que o governo federal, que não levou a pandemia a sério, esteja preparado ao enfrentamento da violenta crise que virá. Econômica, social e sanitária. Da política nem se fale, porque, desmentindo a semântica, no Brasil a crise é crônica.

Aquilo que parecia uma ideia bizarra, a renda mínima, passa a ser uma cogitação real. Escancarou-se a situação de milhões de brasileiros invisíveis. Aqueles que sobrevivem quase que por milagre. Atuam na informalidade, a cada manhã lutam para obter o suficiente para almoçar. Nem se pense em jantar. Quando muito, uma cachaça para enganar o estômago.

A poderosa rede oculta mantinha incrivelmente aquietada essa massa desassistida. Aquela à qual o poder destinou o circo, já que não foi capaz de oferecer pão em abundância. É essencial que esses brasileiros esquecidos pelo sistema continuem a subsistir. Daí a conveniência de se levar a sério a renda mínima.

Há muito o que se economizar para sobrar dinheiro essencial à manutenção da mínima dignidade existencial. O mais flagrante é o famigerado Fundo Partidário. Inconcebível pensar-se em bilhões para as eleições, com pessoas correndo o risco de morrer de fome.

Não é o suficiente, mas é um começo.

Outro passo, deixar de pensar em criação de novas estruturas, em qualquer dos poderes. Inacreditável que se pense em criar mais um Tribunal Regional Federal, quando a pandemia mostrou que o trabalho à distância aumenta a produtividade e não se pode pensar, neste século 21 de tanto sofrimento, em palácios, tapetes vermelhos, veículos oficiais com placas de bronze e outros ornamentos que uma velha concepção de Judiciário ainda alimenta.

Também seria saudável destinar as verbas reservadas para a propaganda oficial a essa causa muito mais nobre. O governo não precisa fazer propaganda. Sua propaganda é estar atento às necessidades do povo. É sofrer com a população que enterra seus entes queridos sem poder se despedir, sem velório, sem o abraço dos amigos, sem o conforto da presença física do sacerdote ou do pastor.

Se o governo cumpre sua obrigação, isso é imediata e automaticamente revertido para qualquer cidadão, principalmente porque hoje, ao menos em tese, todos estão acessando as redes sociais. Não se pode olvidar que o Brasil tem 265 milhões de mobiles – smartphones, tablets, celulares, etc. – para uma população de 210 milhões de habitantes. Ou seja: alguns de nós têm várias dessas bugigangas eletrônicas que nos permitem estar em contato permanente com nossos semelhantes, estejam eles onde estiverem.

A pandemia mostrou que os serviços essenciais podem continuar e obter produtividade ampliada mediante o uso dos recursos digitais. Estes precisam ser aperfeiçoados, como identificar os reais destinatários dessas verbas, para evitar as vexaminosas filas nas agências das instituições bancárias oficiais. Não é difícil aparelhar o equipamento para que cada pessoa seja identificada digitalmente, e assim apta a receber uma quantia garantidora de subsistência, sem a necessidade de deslocamento até às sedes físicas dos bancos.

É o momento de o Brasil fazer um exame de consciência e pensar num projeto consistente de educação coletiva. Educar os professores, para que saibam se servir das tecnologias. Educar os pais, para que consigam acompanhar o desenvolvimento de sua prole, hoje alvo de aulas virtuais, que só terão valia se forem absorvidas pelos educandos. Educar a comunidade toda, para revisitar a hierarquia dos valores posta em xeque nesta crise. Um país só atingirá o desenvolvimento quando nenhum de seus nacionais estiver excluído de condições básicas de sobrevivência.

Examine-se o orçamento brasileiro e veja-se que há muito dinheiro desperdiçado em inutilidades, suscetível de ser direcionado para o essencial. E o retorno será benéfico para todos. Não é esmola o que o governo tem obrigação de propiciar aos famintos e desempregados. É o imprescindível para se reerguer e participar, ativamente, de uma nova feição de economia. Que só considere como lucro, aquele que faz mais feliz e realizado cada integrante desta frágil e efêmera espécie.

*José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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