Dilma pediu para centralizar todas as doações na campanha dela, diz Odebrecht

Dilma pediu para centralizar todas as doações na campanha dela, diz Odebrecht

Segundo empresário, delator da Lava Jato, durante a campanha de 2014 petista ordenou que todos os recursos da empreiteira fossem canalizados para sua campanha

André Borges, de Brasília

12 de abril de 2017 | 22h12

Dilma Roussef. Foto: Evaristo Sá/AFP

Dilma Rousseff. Foto: Evaristo Sá/AFP

Em um dos depoimentos de seu acordo de delação premiada, Marcelo Odebrecht, afirmou que durante a campanha de 2014 para presidente, a então candidata Dilma Rousseff ordenou que todos os recursos que a empreiteira dedicaria para as eleições deveriam se concentrar na campanha dela, o que teria gerado insatisfação entre candidatos do PT que disputavam cargos em governo estaduais, no Senado e na Câmara.

“Aquilo que ela (Dilma) fez com a gente de concentrar nossas doações na campanha dela, esvaziou todo mundo. Em determinado momento, as pessoas passaram a forçar ela para também ajudar outras campanhas”, declarou Marcelo aos investigadores da Operação Lava Jato.

Em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o herdeiro da empreiteira tinha afirmado que a ordem de concentração de recursos na campanha de Dilma foi comunicada por Guido Mantega.

Mantega, segundo relatos feitos por Marcelo Odebrecht, teve papel central nas arrecadações feitas pelo PT desde 2010, após a eleição de Dilma, até as arrecadações para a reeleição, em 2014. Antes de 2010, tudo era coordenado por Antônio Palocci. As coisas mudam quando Dilma assume, disse o empresário.

“Aí, eu fui checar. ‘Ô, presidenta, até agora tudo que eu conversava, inclusive os pagamentos, contribuições, tudo, era com o Palocci. E a partir de agora? É com o Guido? Ela falou: ‘é com o Guido’”, comentou o executivo, acrescentando que as conversas com Dilma sempre ocorriam na biblioteca do Palácio da Alvorada ou no Palácio do Planalto.

Segundo Marcelo Odebrecht, havia uma “agenda enorme de itens” da empreiteira que era apresentada a Guido Mantega. Como contrapartida, Mantega pediria recursos. “É essa história, eu levava minha agenda de pleitos. No fim era aquela história. ‘Olha, me ajuda aqui, Marcelo, tem aquele pagamento que a gente precisa fazer’.”

As reuniões com Guido aconteciam, na maioria das vezes, em São Paulo, no prédio da Caixa Econômica ou do Banco do Brasil. De maneira geral, disse Marcelo, Mantega pedia repasses via João Vaccari Neto e, depois, via João Santana, que injetou recursos nas campanhas de Dilma e de Fernando Haddad, para a prefeitura de São Paulo.

“Com o Guido realmente foi uma agenda intensa, 50 a 60 reuniões ao longo do tempo”, disse Marcelo. Segundo o dono da Odebrecht, Guido herdou os créditos da planilha “Italiano” administrada pelo departamento de propinas da empreiteira, com créditos próximos de R$ 50 milhões. Depois que Dilma foi eleita em 2010, declarou, Mantega teria apresentado um pedido seguinte de mais R$ 100 milhões.

“Os R$ 100 milhões eu negociei com a Braskem”, comentou o executivo. Em seus cálculos, a conta geral para PT teria concentrado o repasse, ao longo do tempo, de aproximadamente R$ 300 milhões.

Ao detalhar como os pedidos eram feitos, Marcelo disse que, quando Mantega queria algum recurso para Vaccari, por exemplo, escrevia um “V” no papel. “Ele escrevia e falava ‘Ó, Marcelo, ele está precisando. E colocava o valor”, declarou. “Todo mundo no governo tinha medo de ter grampo na própria sala, ou que você estava grampeando ele.”

A rotina de pagamentos de propinas para as campanhas eleitorais era tão forte que, segundo Marcelo Odebrecht, não havia mais distinção entre caixa oficial ou caixa 2, porque a origem do dinheiro estava, de qualquer forma, nas planilhas do departamento de propinas da empreiteira.

“A gente achava, de certo modo, natural o caixa 2. Três quartos da campanha no Brasil, eu estimo, era caixa 2. Então, caixa 2 virou um processo, quase um círculo vicioso, porque você tinha que fazer caixa 2, até por referência”, comentou.

Segundo o executivo, que está preso desde junho de 2015 em Curitiba, as doações oficiais de 2014 enfrentaram “problemas”, porque a Odebrecht já havia chegado a um limite estabelecido internamente para as doações que seriam feitas oficialmente e por meio de repasses não declarados. Daí, passou a haver uma triangulação com outras empresas. Foi o que ocorreu, por exemplo, com a cervejaria Itaipava, disse Marcelo, que fez uma doação oficial para a campanha do PT, recebendo os recursos por fora pela Odebrecht.

Procurada, assessoria de Dilma informou que a ex-presidente não comentaria o assunto, porque ela está em viagem em Nova York para participar de uma palestra sobre crise econômica e democracia.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DE GUIDO MANTEGA

“A Justiça, mesmo aquela realizada fora dos tribunais, nos julgamentos públicos, tem que se apoiar em fatos, não apenas em boatos”, disse o advogado José Roberto Batochio. Para ele, qualquer delator que fala para ter uma pena amenizada deve ter as palavras consideradas com a “máxima reserva”.

COM A PALAVRA, A BRASKEM

A Braskem lembra que assinou em dezembro de 2016 um acordo global de leniência que inclui todos os temas relativos às práticas impróprias no âmbito da Operação Lava Jato, pelo qual está pagando mais de R$ 3 bilhões em multas e indenizações. A empresa, que continua cooperando com as autoridades, vem reforçando seu sistema de Conformidade para que tais práticas não voltem a ocorrer.

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