Diagnóstico de tirania

Diagnóstico de tirania

José Renato Nalini*

27 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Raros os homens que não tenham sentido, com diversos graus de intensidade, a sede de poder. Essa afirmação é de Emil Cioran (1911-1995), filósofo romeno que viveu em Paris, no texto “Escola dos tiranos”.

Ele considera natural essa condição humana de querer ser o primeiro em seu grupo, mas também constatou que essa sede adquire todas as características de um estado doentio. Como patologia, só termina por um acidente, por morte ou por renúncia.

A renúncia é caso invulgar. Cioran a considera anomalia ou maravilha, um desafio a nossas constâncias, a nossa identidade e “só sobrevém em momentos excepcionais, caso-limite que ultrapassa o filósofo e desconcerta o historiador”.

O Brasil se recorda de uma renúncia célebre, em 1961, a de Jânio Quadros, que prometera “varrer” o Brasil da sujeira. Em outras circunstâncias, Fernando Collor, o inimigo dos “marajás”, também abdicou da Presidência.

A regra é o apego irrestrito e a qualquer preço do poder e do cargo que o assegura. É que o poder inebria, anestesia, deixa seu detentor fora de si. Cioran o compara a uma loucura, uma loucura política, uma fonte de transtornos e de mal-estar sem igual, que “sufoca a inteligência, favorece por outro lado os instintos”.

O poderoso alimenta a ideia do bem, mas “sobretudo do mal” que imagina poder realizar. Isso fornece regozijo e exaltação e justifica o prodígio de todos os achaques, a sensação de que o poder transforma quem o exerce um “senhor de tudo e de todos”.

O texto de Cioran sugere uma atenta reflexão: “Sentirás à tua volta uma perturbação análoga naqueles que estejam corroídos pela mesma paixão. E enquanto estiverem dominados por ela, estarão irreconhecíveis, vítimas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre de sua voz. A ambição é uma droga que transforma quem se entrega a ela em um demente em potencial. Quem não observou esses estigmas – esse ar de animal transtornado, esses traços inquietos e como que animados por um êxtase sórdido – nem em si mesmo nem em nenhum outro, permanecerá estranho aos malefícios e aos benefícios do Poder, inferno tônico, síntese de veneno e panaceia”.

A mera alusão à perda do poder causa calafrios. Quem se sente ameaçado se sente “outra vez desencantado, normal em excesso. Nenhuma ambição mais, logo nenhuma possibilidade mais de ser alguém ou algo; o nada em pessoa, o vazio encarnado: glândulas e entranhas clarividentes, ossos desenganados, um corpo invadido pela lucidez, livre de si mesmo, fora de jogo, fora do tempo, sujeito a um eu congelado em um saber total, sem conhecimentos. Onde encontrar o instante que escapou? Quem o devolverá a ti?”

Para preservar o poder, tudo vale. Esquecem-se as regras do jogo democrático. Sempre haverá áulicos servis, dispostos a incentivar a tomada de atitudes insensatas. A Democracia é uma prisão a que o ambicioso não se acostuma. Como ter de ouvir quem não foi eleito? Ao perceber o seu poder de fato, a força de sua vontade, as potencialidades de sua caneta ou de sua voz, o político se afasta de qualquer racionalidade. Isso, para Cioran, é uma patologia: “Para tornar-se um homem político, isto é, para ter as qualidades de um tirano, é necessário uma perturbação mental; para deixar de sê-lo, impõe-se outra perturbação: não se tratará, no fundo, de uma metamorfose de nosso delírio de grandeza?”.

Depois de vaticinar que o mundo todo se renderia ao poderio de um só tirano, universal, após cujo império tudo voltaria à primitiva anarquia, favorecendo o ressurgimento de pequenos tiranos, Cioran analisa a primeira metade do século XX. “A julgar pelos tiranos que produziu, nossa época terá sido tudo, menos medíocre. Para encontrar tiranos similares, seria preciso remontar ao Império Romano ou às invasões mongólicas. Bem mais do que a Stálin, é a Hitler que cabe o mérito de haver dado a tônica do século. Ele é importante, menos por si mesmo do que pelo que anuncia, esboço de nosso futuro, arauto de um sombrio advento e de uma histeria cósmica, precursor desse déspota em escala continental que conseguirá a unificação do mundo pela ciência, destinada não a libertar-nos, mas a escravizar-nos”.

Nem tudo é tranquilo para o tirano, pois ele também se aterroriza. Sofre de pânico e de pavor. Reflexo do que provocou nos outros.

Ainda bem que a profecia de Emil Cioran não se concretizou. As Democracias vicejam e crescem. As instituições funcionam, a imprensa – ou a mídia – é livre, todos vivenciam uma existência equânime: as mesmas oportunidades, idêntico acesso aos bens da vida que a ciência e sua serva, a tecnologia, nos propiciou.

Seja como for, é importante que a juventude que se interessa pela política, tenha noção e consciência de que a gula de poder é enfermidade. Tão ou mais nefasta do que a interminável pandemia da Covid19.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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