Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência: retrocesso ou avanço?

Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência: retrocesso ou avanço?

Guilherme Braga*

20 de setembro de 2020 | 11h30

Guilherme Braga. FOTO: MARCO TORELLI

Desde de 1982, no dia 21 de setembro, é comemorado O Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, a data foi oficializada em 2005, por meio da Lei n° 11.133. O dia foi escolhido devido ao início da primavera, estação das flores. Esse acontecimento serve como uma metáfora para a renovação da luta dessas pessoas.

Apesar de serem tratadas como grupo minoritário, segundo o Banco Mundial, é estimado 1 bilhão de pessoas com deficiência no mundo, cerca de 15% da população mundial. Ainda de acordo com o Censo de 2010, mais de 23% da população brasileira possui algum tipo de deficiência, algo como 45 milhões de pessoas. Ainda que sejam números muito expressivos, para muitos, PcDs são totalmente  invisíveis.

O Brasil possui problemas estruturais que afetam de forma ainda mais severa a população com deficiência, gerando grande impacto desses profissionais no mercado de trabalho. Além disso, educação, saúde, transporte público e acessibilidade se conectam a esse ecossistema de empregabilidade, potencializando os diversos impeditivos que envolvem o público PcD. Contudo, acredito que temos uma barreira anterior a ser vencida, a atitudinal.

A sociedade brasileira tem urgência por uma cultura mais inclusiva. Olhando especificamente para pessoas com deficiência, é imprescindível lutar no combate ao capacitismo. Mas afinal, o que seria isso?

Durante milhares de anos, PcDs foram vistas pela sociedade como incapazes. Apesar de não se enquadrar como crime, o capacitismo atua de forma invisível em muitas interações. Um exemplo disso está no fato da sociedade julgar incrível uma pessoa com deficiência com diploma universitário, família e filhos. Esse tipo de leitura traz à tona a inferiorização dos PcDs, marcados como incapazes ou inaptos para tomar decisões de forma autônoma pessoal e profissionalmente.

Trazendo um recorte para o mercado de trabalho,  pessoas com deficiência representam apenas 1% da força de trabalho, totalizando 486 mil empregos formais. Estima-se que existam mais 7 milhões economicamente ativos, que se enquadrem na Lei de Cotas, logo existe um grande número de profissionais disponíveis. Apesar da demanda legal para empresas a partir de 100 funcionários, existe uma barreira severa para a inclusão, dentre os impeditivos está a falta de informação. Em geral, soluções simples ou até mesmo gratuitas, como, por exemplo, leitores de tela open source para cegos, são efetivas. Ainda assim, a negativa de contratação está lá, como se tudo se resumisse a acessibilidade de rampas e elevadores. Há uma pluralidade de deficiências, é preciso conhecimento antes de tudo!

Precisamos também ressaltar os avanços que podem ser percebidos na última década. De 2010 a 2018 houve o aumento de 60% no número de pessoas com deficiência em empregos formais. Empresas avançaram de forma significativa na transformação de cultura organizacional para promover a inclusão de PcDs. Contudo, precisamos ir além da Lei de Cotas. É necessário que as empresas valorizem de forma efetiva esses profissionais, principalmente no que diz respeito a oportunidades de crescimento e implementação de práticas de diversidade. Quando isso ocorre os resultados são espetaculares. Já vimos empresas reduzirem turnover, melhorarem o clima organizacional e indicadores financeiros por meio da inclusão.

Essa ainda é uma jornada longa. Em 2020, ano extremamente desafiador, vimos PcDs perdendo ou não encontrando empregos, dentre elas, muitas passando verdadeira dificuldade. Mais do que isso, perdendo vidas.

Entre avanços e retrocessos, comemoramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, com a certeza de que seguimos avançando. Observamos, em meio à pandemia, as conquistas realizadas por meio da transformação digital, que continuará transformando a nossa sociedade rumo a uma sociedade mais inclusiva. Passada a tormenta, trago uma visão otimista e de avanço, mas sempre atenta. A maior barreira não está no ambiente físico, já que esse nós enxergamos e conseguimos solucionar, está nas pessoas e suas respectivas atitudes. A transformação da sociedade ocorre quando os indivíduos mudam suas percepções e visões, logo, precisamos individualmente fazer a nossa parte para a inclusão, nós somos os agentes de mudança.

*Guilherme Braga, CEO da Egalitê

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