Dia Mundial do Câncer: o que a imaginação tem a ver com isso?

Dia Mundial do Câncer: o que a imaginação tem a ver com isso?

André Castilho*

04 de fevereiro de 2020 | 04h00

André Castilho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Todos os anos, 9,6 milhões de pessoas morrem de câncer no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Apesar dos avanços da medicina, a doença é a segunda causa de morte da humanidade e é difícil imaginar um cenário mais positivo a curto prazo. Mas, será que a imaginação pode funcionar como um apoio e ajudar pacientes a enfrentar este delicado momento da vida? E, mais, alcançar estados de cura? Alguns dos estudos dizem que sim.

Na década de 1970, um oncologista chamado Carl Simonton realizou tratamentos complementares à quimio e radioterapia em pacientes com câncer utilizando métodos de visualização, meditação e relaxamento – no que ele batizou de psico-oncologia. Apesar de seus esforços de comprovar os resultados positivos em mais de três décadas de trabalho, a American Cancer Society nunca reconheceu os dados apresentados.

Influenciada pelas ideias de Simonton, a psicóloga, pesquisadora e autora do livro A Imaginação na Cura, Jeanne Achterberg, realizou procedimentos semelhantes em pacientes com câncer e relatou resultados positivos. Quando não físicos, ao menos psicológicos. E isso é muito. Afinal, quem passa pela doença, sofre um abalo emocional sem precedentes – tão grave quanto a deterioração física em si – que só piora sua condição de saúde.

Vertentes xamânicas, religiosas e até filosóficas partem da premissa de que muitas das doenças surgem pela somatização de emoções e pensamentos negativos. É de se supor que a cura também possa ser alcançada com a prática dos pensamentos e emoções positivas. Aí que entra a força da imaginação. Imaginar-se em um lugar onde não exista dor, visualizar o corpo em plena regeneração, conversar com os órgãos afetados pela moléstia. Todas essas são ferramentas encontradas no subconsciente do próprio paciente, uma sabedoria inerente ao ser, que pode desencadear a dose certa de endorfinas e estimular o sistema imunológico do corpo, alcançando, se não a cura, uma considerável melhora na qualidade de vida. A imaginação é como um farol que guia a fé, a esperança e mantém o pensamento positivo em sustentação, dando ao corpo e à mente uma chance maior de reação.

No meu livro Janela de Isabela, uma menina de dez anos enfrenta um câncer incurável. Ela aprende com sua avó a usar a própria imaginação para extrair os ensinamentos que a doença traz, o que lhe proporciona amadurecimento, serenidade e alívio para a dor. Em uma viagem lúdica, Isabela descobre que a morte é uma condição natural da vida e que é possível ser feliz vivendo um dia após o outro. A sugestão de Isabela é que quem esteja passando pela mesma situação converse com suas células e órgãos, todos os dias, como um complemento ao tratamento tradicional. Com a sabedoria que só uma criança pode ter, Isabela garante que a receita, se não fizer bem, mal também não fará.

Ao considerar que tudo ao nosso redor, as ferramentas, os objetos, os equipamentos tecnológicos e até os remédios que desenvolvemos, foram um dia imaginados por alguém, deveríamos dar uma chance à Medicina da Imaginação. Minha sugestão neste Dia Mundial do Câncer é que a ciência considere esse assunto com seriedade, pesquise dados científicos, teste-a em pacientes e ofereça a oportunidade de que as pessoas se vejam livres das limitações do corpo ao menos por alguns instantes. Quando a alma voa em busca de sua própria cura no mundo da imaginação, quem pode sentenciar o que ela vai ou não encontrar?

*André Castilho, escritor, cineasta, publicitário

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