Dia Mundial da Filosofia: de Tales de Mileto à contemporaneidade

Antoine Abed*

15 de novembro de 2020 | 05h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

No próximo dia 19 de novembro comemoraremos o Dia Mundial da Filosofia. Para muitos a data não quer dizer muita coisa devido a notoriedade que a ela é dada atualmente. Porém questiono aqui: qual a real importância da Filosofia em nossas vidas? Como ela surgiu e para que serve?

Voltando ao princípio, o homem primitivo sobrevivia de forma simples: necessitava de um abrigo e comida para manter-se vivo. Mesmo com essas condições atendidas, não se sentia satisfeito. O motivo deste descontentamento justifica-se pela necessidade do homem de ir além, entender o porquê das coisas, como elas acontecem e qual seu sentido no mundo.

Esse desejo inerente de entender como as coisas se originam, de certa forma, proporcionava uma sensação de maior segurança pois, vivíamos em um mundo que até aquele momento era completamente desconhecido. A característica de ir além e não se contentar somente em satisfazer nossos sentidos, nos diferencia de todas as outras espécies que habitam nosso planeta. Essa busca pelo saber, que tanto nos move para enfrentar o desconhecido, é chamada de “razão” ou “consciência”.

Por esse motivo, começamos a tentar explicar o mundo que se apresentava à nossa frente e, a primeira forma que desenvolvemos foi a mítica. Se procurarmos em nossa história, todas as sociedades antigas tentaram explicar o mundo por meio da mitologia. A etimologia da palavra mito vem do grego “mythos” e significa “narrativa”. Dessa forma, as primeiras sociedades criaram narrativas a fim de explicar a origem das coisas, no sentido de trazer aos indivíduos um certo tipo de conforto/segurança.

A mitologia é uma forma de conhecimento que, por meio de uma narrativa elaborada, rica em detalhes e de característica romântica, dava conta das explicações que necessitávamos para entender a natureza das coisas durante aquele período em que vivíamos. Porém, como dito antes, o ser humano sempre vai além e, pouco a pouco, mais exatamente na atual Grécia, ocorreram várias transformações sociais, comerciais, políticas e culturais, culminando assim o processo que chamamos de “milagre grego”. Esse milagre corresponde ao surgimento da Filosofia, que vem a ser o estímulo da racionalidade e, a partir de então, a mitologia deixou de ser única forma de conhecimento.

Não é que a mitologia não usasse a racionalidade para explicar o mundo: sabemos que já existia certo nível de racionalidade em suas narrativas por haver uma relação entre causa e efeito. Porém, com o surgimento da Filosofia, essa relação veio a se desenvolver e passamos a explicar a natureza não mais de fora para dentro – como fazia o mito e suas relações com o sobrenatural, e sim de dentro para fora.  Em outras palavras, agora conseguimos explicar a natureza pela própria natureza.

Essa mudança transformou a maneira de enxergar o mundo e desenvolveu uma noção de progresso nunca antes vista. O “milagre grego” dá a oportunidade ao indivíduo de se libertar de dominadores invisíveis que sobrecarregam sua existência e liberdade.

A Filosofia em si ajuda a escapar de algumas obviedades e introduz em nossas vidas algo que é perturbadoramente necessário: a suspeita. Devemos suspeitar das coisas como elas são, do modo que são: a Filosofia tende a nos fazer sair da unanimidade e colocar um ponto de interrogação no que para muitos é uma certeza.

Quantos exemplos podemos dar sobre as conquistas da Filosofia através dos tempos, não é mesmo?! De Tales de Mileto aos contemporâneos, passamos por inúmeras descobertas. Como esquecer das contribuições de Pitágoras, Demócrito de Abdera que, mesmo nascido no ano de 460 A.C., propôs o pensamento atomista que consiste em partículas extremamente pequenas que se deslocam no vácuo – isso tudo num mundo onde não existiam lupas ou lentes de aumento. E ainda, Sócrates com a imortal frase “Só sei que nada sei’’; os estudos sobre a Ética de Aristóteles; os pensamentos de Epicuro sobre a Teoria da Evolução dois mil anos antes de Darwin; os estudos de Santo Agostinho sobre o tempo; a primeira “certeza” encontrada por Descartes depois de colocar todo o resto em dúvida, com a frase “Penso, logo existo’’; as contribuições na política, nas artes, medicina, etc…

Desse modo, trago aqui uma tentativa de elevar, de alguma forma, a importância dada para a Filosofia em nosso cotidiano. Fazer uso da “razão” para ir além sempre foi um atributo do homem e, depois de tanto que já fizemos, seria um desperdício viver uma vida de maneira automática e sem sentido. Por isso, desejo a todos um excelente Dia Mundial da Filosofia. Espero que, segundo suas prioridades, você tenha tempo para refletir e pensar sobre a vida que leva, se vive como quer, se está satisfeito com quem se tornou e se é motivo de orgulho para os que estão à sua volta.

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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