Dia Internacional da Mulher para além do clichê

Dia Internacional da Mulher para além do clichê

Camila Nasser*

08 de março de 2020 | 05h00

Camila Nasser. Foto: Divulgação

Os dias 8 de março dos últimos tempos têm se dividido, essencialmente, em dois grupos. O primeiro é o daqueles que pintam tudo de rosa, entregam flores e chocolates às mulheres e fazem discursos prontos como “para quem dá vida a tudo” ou “uma lembrança para as flores que alegram nossos jardins”. O segundo grupo, basicamente ocupado por mulheres, é aquele das que rejeitam todas as tradições e apenas dizem “não queremos nada disso”, “não nos deem flores”. Em essência, dois grupos que se tornaram grandes clichês do mundo atual, e que não nos ajudam em nada a evoluir e avançar enquanto sociedade do século 21.

É preciso aprofundar nos porquês desse dia, e como nós, mulheres, podemos usá-lo como suporte para nos levar a mais um passo em direção à real igualdade de oportunidades. Segundo dados do SEBRAE, nas duas últimas décadas as mulheres conseguiram atingir um nível 16% mais alto de escolaridade do que os homens, e apenas 34% dos negócios brasileiros tem uma mulher no comando. Há preparo, há competência, a pergunta que fica é: por que nós mulheres estamos estudando tanto, para servir a negócios que não são nossos? Ou ainda, por que, enquanto empresárias, não estamos empregando mais mulheres?

Nós chefiamos 45% dos lares brasileiros, e este número é crescente ano a ano desde a década de 90. Tendo estes números como parâmetro, fica fácil entender por que precisamos parar, respirar e pensar em um dia como esse. Porque precisamos lembrar que para além da função primária do mundo, de gestar novas vidas, cuidar que essas vidas cresçam seguras e amadas, e tornem-se cidadãos do mundo, estamos, ao mesmo tempo e mesma medida, cuidando para que exista um mundo socialmente justo, ambientalmente saudável e economicamente possível que possa receber essas gerações daqui a alguns anos.

Sim, a jornada é dupla, às vezes é até tripla. Esse é o ponto de partida. Fato que não há como refutar. Partindo dele então, como podemos pensar caminhos para essas mulheres?
Pensando nas mulheres que desejam empreender, facilidade de acesso ao crédito é um item a melhorarmos. Segundo dados do SEBRAE, mulheres empresárias têm um menor índice de inadimplência nos bancos em relação aos empreendedores homens, mas pagam taxas de juros mais altas, e acessam linhas de crédito menores. Naturalmente isso fomenta negócios menores, que empregam menos pessoas.

Pensando nas mulheres que não tem intuito de empreender, mas querem seguir carreira corporativa em sua área de atuação, faixa salarial é o assunto. O IBGE nos conta em comparativo feito entre profissionais atuantes na mesma área, que no Brasil, mulheres ganham 20,5% a menos que um homem para exercer exatamente a mesma função. A conta não fecha.

O empreendedorismo feminino é crescente e sem volta. Vai ser dia após dia maior, disso não há dúvidas. Mas isso não nos tira a responsabilidade da reflexão constante, da busca de caminhos mais favoráveis às mulheres.

Que seja um dia com flores, chocolates, consciência social e de classe, respeito e amor daqueles que nos cercam, mas principalmente de amor próprio e reconhecimento das nossas ancestrais que nos permitiram viver os dias de hoje. Que seja um feliz dia internacional da mulher, com o reconhecimento ao que já alcançamos e a consciência do quanto ainda precisamos caminhar. Sigamos. Juntas.

*Camila Nasser é administradora de empresas e diretora do BNI Rota das Bandeiras e diretora executiva do BNI São Paulo

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