Dia do Amigo

Dia do Amigo

Ricardo Viveiros*

20 de julho de 2021 | 12h50

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O que significa ser “amigo” de alguém? Amigo é uma referência de si mesmo. Amizade é um dos elos sentimentais mais significativos que estabelecemos em nossa vidas. Um patrimônio valioso que surge de encontros mágicos, muitas vezes inexplicáveis, que determina com total liberdade um vínculo de amor. Você pode contar com o amigo, e ele pode contar com você. Não se pode ser amigo de quem não é seu amigo, e na mesma intensidade de sentimento.

Amizade verdadeira é aquela que existe entre pessoas, quando uma pode confiar na outra acima de qualquer coisa. Amizade verdadeira é aquela na qual as partes preocupam-se e cuidam da outra pessoa, sem determinar nacionalidade, sexo, cor, condição social, níveis de educação e cultura. A amizade é um relacionamento afetivo, que exige incondicionalidade, confiança, lealdade, sinceridade, compromisso e desprendimento. Na amizade verdadeira não se espera nada em troca.

Hoje, 20 de julho, é o Dia do Amigo.

A data foi criada pelo professor e médico argentino Enrique Ernesto Febbraro, que escreveu mais de quatro mil cartas, e enviou a diferentes destinatários em inúmeros países do mundo celebrando a união entre os povos. Alguém “muy amigo” que se inspirou na chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969. No entender do Prof. Dr. Febbraro, a conquista espacial não foi apenas uma vitória  científica, mas uma oportunidade de criar conexões de amizade em todo o universo. Mesmo sendo a Lua um lugar desabitado, e sua disputa nada amistosa – pelo menos naqueles tempos da Guerra Fria entre EUA e URSS – a presença humana em seu solo despertou positivo sentimento.

No Brasil, este nosso país tropical, bonito por natureza, tudo é diferente, irônico, estranho, sem rima com a lógica. Assim, nem sempre uma beleza…

Acredite, o Dia do Amigo foi causador de inimizades na Câmara Municipal de São Paulo, em 23 de setembro de 1999. Na época, a situação articulava a obtenção de cargos e a indicação de duas secretarias, além de pretender adiar a votação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da oposição. Parte dos vereadores desistiu de votar os projetos de lei enviados pelo então prefeito Celso Pitta (PTN) porque foi incluído na pauta o PL 01-0740/1997 que criaria o Dia do Amigo na capital paulista, proposto pelo vereador Dito Salim (PPB) – político reiteradamente acusado de diferentes crimes, entre os quais estar envolvido na Máfia da Propina.

Na justificativa do PL, que havia sido criado dois anos antes, em 12 de agosto de 1997, constava que a ideia era contar com divulgação e promoções por parte do comércio de maneira parecida ao Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças e tantas outras comprometidas mais com
o lucro do que com sua suposta razão de ser.

Salim argumentava no texto do seu projeto de lei: “Quem não tem um amigo? Aquele ‘amigo de fé, irmão camarada’, consagrado por Roberto Carlos em uma de suas canções mais conhecidas. E quem não gostaria de homenagear seu melhor amigo num dia especialmente dedicado a ele?”.

Diante da pressão para que o projeto, considerado de pouca relevância e sem urgência diante de outras discussões, fosse retirado da pauta, Salim ficou irritado, gritou palavrões e esbravejou: “Para eu matar um não demora muito!”.

Wadih Mutran, à época integrante do mesmo partido de Salim, alegava arrasado: “Não pedi para ele retirar o projeto da pauta: eu implorei!” Em vez de 20 de julho, a ideia era que o Dia do Amigo fosse comemorado em uma data diferente a cada ano, sempre no segundo domingo de julho. Não emplacou e, em razão disso, gerou muita inimizade entre parlamentares de todos os partidos e ideologias.

A política é uma arte na qual os valores da amizade nem sempre prevalecem aos interesses pessoais de seus praticantes. Ouvi de um dos mais cultos e sérios empresários da história do Brasil, Antônio Ermírio de Moraes, a máxima: “Já defini a política como a arte de pedir votos aos pobres, pedir recursos financeiros aos ricos e mentir para ambos depois.” Por esse e outros bons motivos, o jornalista e escritor norte-americano Victor Lasky, afirmou: “Na política não há amigos, apenas conspiradores que se unem.”

O Brasil anda dividido em dois, os contra e os a favor. Embora também siga atuante a turma oportunista do “muito pelo contrário” – sempre em cima do muro. Não vale a pena terminar uma amizade por discussão política, deve prevalecer a liberdade de opinião e o bem-querer.

Portanto, hoje, Dia do Amigo, cumprimente os seus. E caso algum tenha se perdido no embate político, não pense que não era amigo. Ele pode ter bons ou maus motivos para estar do lado que escolheu, então respeite. Cumprimente-o também, ele vai descobrir que a verdadeira amizade vale a pena mesmo se a política é pequena.

*Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de vários livros, entre os quais Justiça Seja FeitaA Vila que Descobriu o BrasilPelos Caminhos da Educação e O Poeta e o Passarinho

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