Dia das Mulheres: decisões na pandemia apontam para um futuro mais desigual

Dia das Mulheres: decisões na pandemia apontam para um futuro mais desigual

Nelson Wilians*

08 de março de 2021 | 17h05

Nelson Wilians. FOTO: BRUNO VAN ENCK

Desde março de 2020 convivemos com o fardo mortal da pandemia do coronavírus. De lá para cá, muita coisa mudou. As relações de trabalho, as relações sociais, a economia, os cuidados com a saúde etc. São tantas as mudanças que tenho “dificuldade em admitir que agora tenho muito a admitir”, como bem observou o escritor inglês Alain de Botton.

A pandemia ficará para a história, com certeza.

Mas o que me causa ansiedade são as consequências para as próximas décadas com decisões tomadas hoje, muito além do alívio com as vacinas, da tristeza e do mar de emoções que sentiremos sobre este período nebuloso e permeado por uma incerteza atroz.

O fato é que estamos em uma encruzilhada, escolhendo caminhos que podem não ter retorno.

O relatório produzido pela LeanIn.Org, em parceria com a consultoria empresarial McKinsey, nos Estados Unidos — o ‘Mulheres no Local de Trabalho 2020’— revela que as mulheres foram extremamente impactadas pela crise, especialmente as mulheres negras, com a maior probabilidade de terem sido demitidas ou dispensadas durante a crise da COVID-19, interrompendo suas carreiras e colocando em risco sua segurança financeira.

De acordo com informações do levantamento, isso é mais preocupante do que se imagina, levando-se em consideração que, entre janeiro de 2015 e janeiro de 2020, a representação de mulheres em cargos de vice-presidente sênior havia crescido de 23 para 28%, e a representação na diretoria havia passado de 17 para 21%. Portanto, nota-se que as mulheres continuaram sub representadas, mas os números estavam melhorando lentamente.

O relatório mostra ainda que mais de uma em cada quatro mulheres está considerando o que era impensável há apenas seis meses: mudar de carreira ou deixar o mercado de trabalho por completo. Com isso, as empresas correm o risco de perder mulheres na liderança e de ver naufragar anos de árduo progresso em direção à diversidade de gênero.

Guardadas as diferenças com o mundo corporativo americano e o mercado de trabalho feminino de lá, esse quadro é uma realidade possível em nosso país também, não só pelas demissões como pela dupla jornada em um período em que muitas escolas e creches estão fechadas.

Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), publicado pelo governo federal em novembro passado, 897,2 mil trabalhadores perderam o emprego de março a setembro de 2020, em função da pandemia e do isolamento social, sendo 588,5 mil mulheres, ou seja, 65,6% dos demitidos.

Diante desta constatação de que as mulheres foram as mais atingidas, fica clara uma das razões da dispensa do trabalho: elas são maioria nas atividades mais prejudicadas pela crise, como o setor de serviços. Entre outras questões, além dos efeitos da reestruturação e da automação nas empresas que reduziram postos de trabalho, as mulheres também têm que enfrentar uma dificuldade que causa ainda mais angústia: a dificuldade em reorganizar o esquema doméstico, sobretudo as que têm filhos e estão sem a opção de deixá-los nas escolas ainda fechadas em consequência da pandemia.

A boa notícia contida no próprio relatório ‘Mulheres no Local de Trabalho 2020’ é que a crise também representa uma oportunidade. Se as empresas fizerem investimentos significativos na construção de um local de trabalho mais flexível e empático, e há sinais de que isso esteja começando a acontecer, elas podem reter as funcionárias mais afetadas pela crise, criando um ambiente em que as mulheres tenham oportunidades iguais.

Recentemente, por meio de nosso instituto, o INW, organizamos um encontro virtual com uma consultoria organizacional de diversidade de gênero para treinar nossos diretores a desarmar esses possíveis efeitos dentro de nossas empresas.

O momento é difícil, sem dúvida, ainda mais porque precisamos decidir sob o efeito de uma grave crise de saúde, que trouxe também efeitos nefastos na economia mundial. Mas, como ressaltei, precisamos produzir anticorpos para que esse efeito seja minimizado para evitar que as desigualdades não se aprofundem ainda mais no futuro.

*Nelson Wilians, advogado, empreendedor, fundador e presidente do Nelson Wilians Advogados

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