Dia da Visibilidade Trans: identidade de gênero continua sendo um grande tabu em nossa sociedade

Dia da Visibilidade Trans: identidade de gênero continua sendo um grande tabu em nossa sociedade

Liliane Rocha*

29 de janeiro de 2021 | 07h25

Liliane Rocha. FOTO: MARIO DUARTE

Começamos o ano com a possibilidade de refletir sobre Visibilidade Trans. Dada a importância do tema, o Ministério da Saúde estabeleceu, em 2004, a criação do dia 29 de janeiro como marco para ações de conscientização e de conhecimento sobre identidade de gênero, pessoas transgênero, travestis, transsexuais e cisgênero.

Um dos temas sobre os quais mais tenho me debruçado é o porquê da identidade de gênero seguir sendo um tabu tão grande na sociedade brasileira. Confesso que em meio a um contexto global tão dinâmico, desafiador e tecnológico, eu esperava que alguns dos dilemas individuais e coletivos que observo no dia a dia, e que são relacionados a essa questão já estivessem equacionados. Afinal, em um contexto de pandemia, no qual a maior parte das grandes empresas teve que realizar uma gestão de Recursos Humanos em caráter de urgência, colocando parte expressiva do seu contingente em home office da noite para o dia, algo auspicioso e de vanguarda, levanto a seguinte questão: Por que essas mesmas áreas de Recursos Humanos e os mesmos líderes seguem com tantas lacunas de entendimento relacionadas a crachás, banheiro e nome social de profissionais trans?

Às vezes, penso que nem parecem ser as mesmas empresas que seguem resolvendo questões tão urgentes e desafiadoras no contexto da 4ª Revolução Industrial, em que muito se fala sobre nanotecnologia, biotecnologia, impressora 3D, Internet 5G e, ao mesmo tempo, continuam esbarrando em empecilhos simples e simplórios como os já mencionados, que acabam se tornando verdadeiras barreiras de inclusão para pessoas LGBTQPIA+ nas empresas, e, em particular, destaco nesta conversa os profissionais transgêneros.

Quando me dizem que não vão contratar profissionais trans por falta de banheiro, eu automaticamente lembro de outros momentos e contextos da história da humanidade em que o famigerado banheiro foi utilizado como justificativa para trazer mulheres e negros para os mesmo ambientes. Penso que a história nos mostra que a estrutura, ou a falta dela, é o argumento mais chinfrim do qual o mundo empresarial lança mão quando quer impedir a entrada de determinados grupos de profissionais em seu quadro.

Se você assistiu ao filme “Estrelas Além do Tempo, do diretor Theodore Melfi”, vai se lembrar da cientista negra, Katherine Johnson, que foi interpretada pela atriz Taraji P. Henson, sendo perguntada pelo chefe onde ela estava a maior parte do tempo, já que sempre que ele a procurava não a encontrava no local de trabalho. E ela então explica que demora cerca de 15 minutos para ir e voltar do banheiro, pois apesar de haver um banheiro no prédio em que trabalha, este é de uso exclusivo para profissionais brancos.

Até hoje, dependendo do segmento empresarial com o qual estou conversando, averiguo que na operação não há banheiros para mulheres, o que acaba se tornando um limitador na contratação dessas profissionais.

As barreiras foram criadas pela sociedade. E por isso mesmo a própria sociedade questiona, por que mudar este cenário? Afinal, são anos e anos de equívocos e ideias preconcebidas que misturaram identidade de gênero com dogmas religiosos ou supostos transtornos de saúde, ou até mesmo comportamentos sociais inadequados. Hoje sabemos que nada disso faz sentido.

Possibilitar igualdade de renda, segurança, acesso a todos é a obrigação de uma sociedade decente e em desenvolvimento. Hoje, a perversidade de exclusão que vemos no mundo do trabalho se reflete em todos os espaços. O Brasil é o país mais transfóbico do mundo, os dados apontam que matamos três vezes mais pessoas trans do que o segundo colocado que é o México. Em 2019, ao todo, 124 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, segundo o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Na virada do ano, vimos uma das ocorrências mais tristes e brutais dessa estatística que tem nome, tem rosto, tem família! Keron Ravach de 13 anos foi brutalmente assassinada a pauladas, socos e chutes no estado do Ceará.

Em contrapartida a essa triste estatística, apresento um pequeno avanço nesse tema, já que na última eleição tivemos recorde de candidaturas de profissionais trans no Brasil. Meu desejo para 2021 é que possamos também ter recordes de contratação de profissionais trans em todos os níveis hierárquicos nas empresas brasileiras. Recordes de CEOS trans e recordes de segurança e expectativa de vida para pessoas trans. Que 2021 seja um ano repleto de boas notícias e avanços em termos de inclusão e diversidade nas empresas e em nossa sociedade!

*Liliane Rocha é CEO e fundadora da Gestão Kairós, autora do livro Como ser um líder Inclusivo e premiada com o 101 Top Global Diversity and Inclusion Leaders por dois anos consecutivos (2019 e 2020)

Tudo o que sabemos sobre:

Artigotransg

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.