Dia da “consciência negra”: como entender a sua importância

Daniel Medeiros*

20 Novembro 2015 | 06h00

Vou começar com um exemplo simples.

A mãe diz pro filho que não sai do chuveiro: “sai daí, desliga isso! Você não tem consciência? Não pensa no dinheiro do seu pai? E você acha que dinheiro dá em árvore?

Entendeu?

Não?

Compreendo. Foi muito básico. Então vamos a este: a mesma mãe, o mesmo menino no banho: “desliga logo, você não sabe que tá desperdiçando água? Você acha que tem água assim, pra jogar fora? Você não tem consciência disso?

Hummm. Não? Não vê a relação?

Bom, vamos ver assim. A criança pergunta pra professora: por que existe esse negócio de dia da Pátria?
E ela responde: “para lembrarmos que somos todos brasileiros e que temos um passado, uma história, uma herança comum. Nosso lugar no mundo é aqui e a consciência disso ajuda a respeitar nossa terra e também a terra dos outros que, no fundo, é uma terra só, não é?

Agora sim! Viu como é fácil?

Não?

Vou tentar mais uma vez.

Aniversário da bisavó, a família se reúne, todos: primos nunca vistos, parentes por afinidades, tias com maridos novos, um zum zum zum de conversas disparatadas e olhares persistentes pro estacionamento. Mas aí vem a bisa, 99 anos, o olhar ainda firme mas as perninhas fracas, o andar claudicante. E ela se posta em frente ao bolo, olha para todos, aquele olhar longo que vai se marejando, vertendo lágrimas que escorrem pelos caminhos da face. E ela diz: “vocês são as minhas melhores lembranças”. E a consciência dessa verdade profunda provoca um calor que se espalha, denso, terno, cálido, pela longa e divertida noite.

Acho que deu, não?

Olha o que diz o dicionário:

Consciência: “sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior.” Ou ainda: “sentido ou percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais.”

Muito bem. Se você concorda que se pode usar a palavra consciência quando a mãe apela ao filho para que ele cuide dos gastos da casa porque interessa a toda família; se você concorda que se pode usar a palavra consciência quando essa mesma mãe lembra ao filho que os recursos do mundo não são infinitos e que todos precisamos fazer a nossa parte; se você concorda que se pode usar a palavra consciência quando falamos das datas cívicas, como marcos de referencia de nosso país, nação, pátria, lugar real e simbólico de vivencia e memória, patrimônio coletivo que precisa ser preservado e perpetuado; se você concorda que se pode usar a palavra consciência quando se fala em família, filiação, recordações de amor e amizade, histórias comuns e alegrias compartilhadas.

Então. Os negros lembram, no dia 20 de novembro que são tudo isso e parte disso tudo: filhos, mães, professores, profissionais, políticos, artistas, cidadãos. São tudo isso e parte disso há séculos, com sangue, suor e lágrimas, com arte e determinação, com talento e profissionalismo, com paciência e destemor.

Eu tenho consciência disso. Ajudaram-me a ter consciência disso. Levou tempo para eu ter consciência disso. Hoje tenho plena consciência disso e acho óbvio, como deveria ser.

O dia da consciência negra é para quem pergunta “para que serve o dia da consciência negra”.

É para você?

*Daniel Medeiros é Doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor de História do Brasil no curso Positivo

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