Devemos nos preocupar com a possibilidade de os ‘desertos de dinheiro vivo’ do Reino Unido chegarem ao Brasil?

Devemos nos preocupar com a possibilidade de os ‘desertos de dinheiro vivo’ do Reino Unido chegarem ao Brasil?

Dominic Hirsch*

29 de agosto de 2021 | 07h00

Dominic Hirsch. FOTO: DIVULGAÇÃO

O número de caixas eletrônicos no Reino Unido caiu mais de 13.000 (19%) ao longo de um período de três anos, do final de 2017 ao final de 2020, e deverá cair ainda mais este ano. A mídia está repleta de relatos de um número crescente de “desertos de dinheiro vivo” – áreas geográficas onde o público precisa percorrer longas distâncias para obter dinheiro, porque caixas eletrônicos, agências bancárias e correios foram fechados ou removidos.

Mas como ocorreu essa situação, e há lições aprendidas que podem ser aplicáveis no Brasil?

Mais de três quartos dos caixas eletrônicos do Reino Unido são de uso gratuito e, para essas máquinas, o proprietário do caixa eletrônico recebe um pagamento conhecido como tarifa de intercâmbio, pago pelo emissor do cartão, para cada saque de dinheiro feito. Em meados de 2018, e novamente no início de 2019, o valor da tarifa de intercâmbio do Reino Unido foi reduzido, essas foram a primeira e a segunda das quatro reduções planejadas de 5% na tarifa de intercâmbio. O momento não poderia ter sido pior, pois coincidiu com o crescimento dos pagamentos eletrônicos e a queda do uso de dinheiro e, embora essas reduções na tarifa de intercâmbio possam parecer pequenas, a margem de lucro nas tarifas de intercâmbio do Reino Unido é baixa e a combinação de um número decrescente de transações e receita reduzida por transação significava que muitos caixas eletrônicos não eram mais viáveis. Alguns proprietários de ATMs tentaram converter seus ATMs gratuitos em pay-to-use, normalmente cobrando GBP 2 (14 reais) diretamente do consumidor por saque de dinheiro, mas isso reduziu ainda mais o número de saques de dinheiro nessas máquinas e, na maioria dos locais, isso significava que ainda não eram sustentáveis.

A LINK, que opera a rede nacional de ATMs do Reino Unido, acabou cancelando a terceira e quarta reduções de tarifas de intercâmbio que haviam sido planejadas, o que significa que as tarifas de intercâmbio de saque de dinheiro atuais no Reino Unido são de GBP 0,23 (1,7 reais) para um caixa eletrônico de agência e GBP 0,26 (1,9 reais) para uma máquina externa. Em seu mérito, a LINK também introduziu várias iniciativas para ajudar a resolver a situação, incluindo prêmios sobre as tarifas de intercâmbio padrão em locais selecionados para melhorar a inclusão financeira e a capacidade das comunidades locais de solicitarem um caixa eletrônico.

Mesmo com essas mudanças, o governo do Reino Unido está cada vez mais preocupado com as implicações sociais do acesso reduzido ao dinheiro. Já apresentou uma legislação este ano para ajudar a resolver o problema, permitindo que os clientes saquem dinheiro nos varejistas sem ter que fazer uma compra, e atualmente está fazendo consultas sobre propostas que estabelecem regras de acesso mínimo ao dinheiro que se aplicam às maiores instituições financeiras do país.

Uma das principais lições dessa história recente das ATMs no Reino Unido é que a implantação de ATMs é extremamente sensível aos níveis de tarifas, e pequenas alterações nas tarifas podem ter consequências indesejadas se os proprietários de ATMs não puderem mais cobrir seus custos. Essa situação é ainda mais exacerbada em um ambiente de uso crescente de cartões de pagamento e pagamentos móveis sem contato.

Por meio de seu sistema de quatro saques de dinheiro grátis por mês, os mercados de caixas eletrônicos do Brasil e do Reino Unido são semelhantes, pois a maioria dos saques de dinheiro é gratuita para os clientes. Como as tarifas são pagas pelo emissor do cartão ao proprietário do caixa eletrônico, os bancos emissores estão empenhados em garantir que essas tarifas sejam as mais baixas possíveis. Até certo ponto, isso é eficiente, pois se as tarifas forem definidas muito altas, haverá o risco de superprovisionamento, mas, por comparações internacionais, as tarifas de intercâmbio, tanto no Brasil como no Reino Unido, são relativamente baixas. O que a experiência do Reino Unido nos mostra é que o risco é muito maior no outro sentido, o que poderá levar à criação não planejada de “desertos de dinheiro vivo”.

*Dominic Hirsch, diretor executivo da RBR

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