Deus, Noé e a burocracia

Deus, Noé e a burocracia

Ricardo Viveiros*

01 de novembro de 2021 | 13h55

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Naqueles tempos em que a maldade do homem era grande, disse o Senhor a Noé: “Dentro de seis meses farei chover por 40 dias e 40 noites, até que toda a terra seja coberta de água e todas as pessoas más sejam destruídas”. E seguiu dizendo: “Mas, quero salvar os bons e, também, duas criaturas de cada espécie do planeta, um macho e uma fêmea. Para tanto, ordeno que você construa uma arca”.

Em seguida, entre raios e faíscas, o Senhor passou outras detalhadas instruções para Noé, exemplo de fé e justiça, que respeitosamente afirmava: “Está bem, Senhor. Eu farei tudo de acordo com a Sua vontade”. Já começando a desaparecer entre as nuvens, recomendou o Senhor: “Dentro de seis meses iniciará o dilúvio! Tenha a arca pronta, ou trate de aprender a nadar por que, pelo resto da vida, terá de fazê-lo”.

Passaram-se seis meses, o céu começou a ficar repleto de nuvens cinzentas, trovões e relâmpagos trouxeram um aguaceiro nunca dantes visto. Começava o prometido dilúvio. O Senhor então olhou através da tempestade e pode ver Noé, cabisbaixo, chorando tanto quanto o céu deitava água no pátio de sua casa. E não havia, por ali em volta, nenhuma arca.

O Senhor, bravo, pergunta: “Noé, cadê a arca?!”. No que o pobre homem, responde numa súplica: “Senhor, perdoa-me, fiz tudo o que podia, que estava ao meu alcance, mas encontrei muitos problemas”. De fato, tudo começou quando precisou tirar uma licença de construção e pagar elevadas taxas para aprovar a planta da arca. Depois disso, exigiram que obtivesse um sistema de segurança contra incêndios, o que só foi possível com suborno ao funcionário responsável.

Quando imaginou que tudo estava pronto para começar a construção, os vizinhos se queixaram de que ele estava construindo uma arca em zona exclusivamente residencial. Por conta disso, perdeu vários meses em constantes e infrutíferas visitas à repartição pública responsável pelo assunto. Isso, sem falar de que, nas inúmeras vezes em que explicou para diferentes pessoas em distintos lugares as razões pelas quais iria construir uma arca, todas lhe pediram uma procuração assinada pelo Senhor e com firma reconhecida em cartório.

Por se tratar de uma embarcação de grande porte, Noé não poderia agir como pessoa física. Micro empresa, sob regime do Simples, nem pensar. A imposição era para que abrisse, pelo menos, uma limitada. E, claro, seria indispensável cobrar passagens a cada casal de animais que fosse embarcado, todas emitidas por sistema digital com certificação da Fazenda e recolhendo os devidos impostos ao setor de transportes públicos. E qual não foi sua surpresa, depois de reunir 20 quilos de papelada, ao receber uma notificação de dívida com o governo, acompanhada de multas e outros encargos, por estar atrasado com os documentos, segundo eles, já fora de prazo.

Superados esses pequenos grandes entraves, o problema era conseguir a liberação da madeira em quantidade suficiente para construir a arca determinada pelo Senhor. Os órgãos de defesa do meio ambiente, de proteção aos animais, de valorização dos povos das florestas, de garantia de permanência das paisagens não quiseram entender que se tratava de uma emergência. Não aceitaram as explicações de Noé quanto às determinações do Senhor para salvar a espécie humana e animal. Na verdade, até falaram de outros poderes…

Foi quando apareceram, para complicar ainda mais a tarefa, os representantes dos sindicatos e das centrais sindicais (se é central e única, porque há mais de uma?), impondo que Noé, apenas com seus filhos, não construísse a arca. Ele estaria tirando emprego e renda aos carpinteiros e marceneiros. E, caso os contratasse, nada de horas extras além de apenas duas por dia — é trabalho escravo, dá cadeia, um crime hediondo inafiançável.

Para procurar e cadastrar os animais que Noé salvaria do dilúvio até que não foi tão complicado, apenas preencheu uns formulários e pagou as guias de recolhimento de taxas na associação protetora das espécies. Um simpático funcionário público ajudou bastante o pobre Noé. Alertou para que ele não mais falasse que haveria um dilúvio, porque iriam lhe pedir um complexo estudo de impacto ambiental. Perdeu um grande argumento, mas escapou de mais essa burocracia…

Para o estoque, dentro da arca, da comida necessária para alimentar os animais durante o dilúvio, seria obrigatório que a área de saúde concedesse não apenas autorização, como fiscalizasse as condições de armazenagem. Câmaras frigoríficas etc. Um tecnocrata de um desses vários órgãos públicos, pediu um mapa da área que seria inundada, sem esquecer de mencionar medidas e pontos limítrofes. Noé estava tão nervoso que fez uma grosseria, lhe mandou um globo terrestre. Quase foi preso…

E os responsáveis pelo setor de trânsito queriam por que queriam inspecionar o motor da arca e não abriram mão de que Noé tivesse licença para pilotar. Sem falar, é claro, que ordenaram a construção imediata de postos de pedágio aquático… Para finalizar, os zelosos policiais responsáveis pela repressão às drogas avisaram que, quando a arca ficasse pronta, teriam que vistoriar toda a embarcação. E isso levaria semanas porque era grande.

Nesse momento, a tempestade parou. Surgiu o sol e um lindo arco-íris coloriu o firmamento. Noé, num misto de emoção e surpresa, ainda temeroso, perguntou aos céus: “Isso significa que o Senhor desistiu de nos castigar?”. E ouviu: “Sim, meu filho, porque descobri que não mais será necessário. Os seus governos, em todos os níveis, já estão tratando disso…”

Todos os anos, com a chegada do verão, começa a temporada das chuvas, enchentes, alagamentos aqui pela Região Sudeste. As autoridades, como de costume, culpam São Pedro pelos problemas. Mas, como na metáfora acima, sabemos que o santo não é responsável pela falta de planejamento, estratégia e empenho dos gestores públicos. Assim sendo, agora ainda às vésperas da primavera, é hora de prever para prover.

*Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de vários livros, entre os quais Justiça Seja Feita, A Vila que Descobriu o Brasil, Pelos Caminhos da Educação e O Poeta e o Passarinho

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