Detonando a Semana de 22

Detonando a Semana de 22

José Renato Nalini*

12 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Em fevereiro próximo, o Brasil celebrará o Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Regozijo para a Academia Paulista de Letras, instituição fundada em 1909 pelo médico Joaquim José de Carvalho e que desde então, nunca interrompeu suas atividades. Pois, à exceção de Oswald de Andrade, os intelectuais que promoveram a Semana eram seus integrantes. O principal deles, Mário de Andrade. Mas também Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Monteiro Lobato, René Thiolier, Sérgio Milliet, Plínio Salgado e o próprio Presidente do Estado, Washington Luís Pereira de Souza.

A gênese da Semana foi um dos “salões” que, em São Paulo, supriam a carência de eventos culturais. Três eram célebres: a Vila Kyrial, do Senador Freitas Valle, a residência de D. Olívia Guedes Penteado e a casa de Paulo Prado, o verdadeiro Mecenas da Semana de 22.

Foi num dos almoços promovidos por Paulo Prado que sua esposa, a francesa Marie Lebrun, conhecida por Mariette, sugeriu que os jovens – todos na casa dos vinte anos – promovessem um evento como o Festival de Dauville, em sua terra natal. Desfile de modas, mas também apresentações culturais, exposição de artes, um verdadeiro happening.

A ideia foi entusiasticamente aceita pela dupla de Andrades, que se completavam em suas índoles bem antagônicas. Mário era concatenado, articulado, sistemático, estudioso e profundo. Oswald era impulsivo, expansivo, piadista, causer, aventureiro. Logo idealizaram utilizar o Teatro Municipal, inaugurado onze anos antes, para esse espetáculo demolidor. Sim, a intenção dos jovens, incentivados pelo inquieto Paulo Prado, era demonstrar que o passadismo já produzira os frutos que podia e que, tal e qual uma bananeira, deveria ser erradicado.

De certa forma, o inconformismo já começara bem antes. O nacionalismo estava nas obras de Euclides da Cunha, que foi a Canudos como repórter de “O Estado de São Paulo”, acreditando que um grupo de fanáticos pretendia reinstaurar a monarquia. Percebeu que eram ingênuos seguidores de uma espécie de profeta, Antonio Conselheiro, e que a cruel República os eliminara sem piedade. Menotti Del Picchia criara o seu Juca Mulato, um herói muito diferente do “bom selvagem” rousseauniano que estava na obra “Iracema” de José de Alencar, imortalizado por Carlos Gomes na ópera “O Guarani”. Mas, sobretudo, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, que escancarou a realidade do caboclo ou caipira brasileiro. Um ser endêmico, vivendo mal na sua choça ou nos brejais. Personagem que foi mencionado por Rui Barbosa ao disputar a Presidência da República, na campanha civilista em 1919.

Em 1917, Anita Malfatti expusera suas obras e Monteiro Lobato a criticara acerbamente, chamando a exposição de “Paranóia”. Isso serviu para chamar a atenção de todos para a obra da artista, que poderia ter passado desapercebida não fosse a polêmica então iniciada.

São Paulo fervilhava com quase um milhão e meio de italianos que trouxeram outra cultura, mais afinada com o “futurismo” de Marinetti e que em 1917 deflagraram uma grande greve. Enquanto o Rio se vangloriava da condição de Capital Federal, como o fora no Império, São Paulo queria mostrar, no Centenário da Independência, ser também capaz de um grito de emancipação artístico-cultural.

A Semana teve aplausos e apupos. Mas mudou o panorama brasileiro. Getúlio Vargas chega a incluí-la como um dos fatores que deflagraram a Revolução de 1930. A cada ano, ela se tornou mais importante. Releituras, revisitas, foi ganhando dimensão que não teve no tríduo de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. Seus artífices foram consagrados.

Mas foi justamente um confrade, também acadêmico da Academia Paulista de Letras, que quis detoná-la. João Fernando Almeida Prado, mais conhecido como Yan, escreveu um livro: “A Grande Semana de 1922”, para dizer que Marioswald – como chamava a dupla andradiana, se autopromovera às custas do acontecimento. Tentou diminuir a importância   da Semana, que seria fruto do oportunismo de dois jovens desprovidos de talento.

Em defesa da Semana e de Mário e de Oswald de Andrade, o próprio Menotti esclarece que a Semana foi, sim, um acontecimento de relevância extrema. Transformou a São Paulo provinciana em capital do pioneirismo intelectual. Projetou seus partícipes. Merece todas as glórias.

Felizmente, esse clima de beligerância entre “irmãos” – pois não é outro o sentido de “confreiras” e “confrades”, utilizado no trato dos membros da Academia Paulista de Letras, não existe em 2022. É uma Casa de excelente convívio, onde o pluralismo coexiste sem traumas, um espaço democrático agora também eternizado na coleção Perfil Acadêmico, resultante de um convênio entre a APL e a IMESP, da qual já saíram oito exemplares. São biografias sintéticas dos patronos, fundadores e membros da Academia, para inspirar os jovens – principalmente os jovens – a se interessarem por literatura, escrita e leitura. Que venham os próximos números.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.