‘Destratamento’ precoce

‘Destratamento’ precoce

Hugo Fernandes*

24 de janeiro de 2021 | 07h30

Hugo Fernandes. FOTO: DIVULGAÇÃO

“Não falei?!” A mensagem veio no segundo dia do ano. Semanas antes, não havia conseguido convencer meu tio sobre a ineficácia e os riscos do tal “tratamento precoce” para COVID-19, um kit alardeado por políticos, influenciadores e até por alguns profissionais de saúde contendo remédios como Hidroxicloroquina, Ivermectina, Azitromicina, Vitamina D e Nitazoxanida. O uso do kit tem se espalhado quase tão rapidamente quanto o próprio novo coronavírus, à revelia do que atestam órgãos como a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Organização Mundial de Saúde, National Institutes of Health (EUA), National Health Services (Grã-Bretanha) e o European Centre for Disease Control and Prevention, que garantem não haver alternativas terapêuticas para tratar previamente e tampouco prevenir COVID-19.

A mensagem orgulhosa do meu tio vinha acompanhada de um link do site oficial do Ministério da Saúde: “The American Journal of Medicine defende tratamento preventivo para COVID”. Li o artigo original da revista que supostamente embasava o anúncio do ministério e achei algumas coisas bem estranhas. Marco Faustino, então diretor do site E-Farsas, o primeiro serviço de checagem de fatos do Brasil, também achou aquilo suspeito e mandou e-mail para o Dr. Joseph Alpert, editor-chefe da revista científica anunciada no site do governo federal.

“O uso de outros agentes como a cloroquina ainda está no ar e provavelmente não é muito eficaz. O único fator que apoia o uso de cloroquina para prevenção é que ela impede a replicação viral in vitro, mas isso não diz nada sobre seu uso em seres humanos vivos”, respondeu Alpert, em afirmação bem distinta do que foi propagandeado pelo Ministério da Saúde.

Entretanto é fato que houve um artigo liderado por Peter McCullough, médico e professor do Baylor University Medical Center (EUA), publicado em agosto de 2020 na revista americana que, embora reconhecesse a necessidade de estudos mais robustos, atestava a necessidade imediata do uso do tratamento precoce em hospitais mundo afora. Contatei os cientistas do Observatório COVID-19 BR, time independente de acadêmicos de todo o Brasil que tem conduzido análises cientificamente embasadas dos dados da pandemia. O epidemiologista Roberto Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Unesp, encontrou erros e lacunas na metodologia que tornam o trabalho difícil de ser definido com outro adjetivo que não desastroso.

O artigo se propõe a fazer uma revisão de estudos publicados sobre tratamento precoce para COVID-19, mas, para embasar sua conclusão, traz pesquisas que não abordam COVID-19, não usam investigação randomizada com grupo controle (padrão ouro para pesquisas sobre fármacos) e até mesmo trabalhos que apontam a não-eficácia dos alegados remédios. O único estudo com metodologia mais robusta e que indicava uma suposta eficácia do combo hidroxicloroquina e azitromicina sofreu escrutínio de diversos artigos na própria revista que o publicou, mas o time de McCullough fingiu que eles não existiam.

A Sociedade Brasileira de Infectologia fez análise semelhante sobre um documento governamental, intitulado “Orientações do Ministério da Saúde para Manuseio Medicamentoso Precoce com Diagnóstico da COVID-19”. Apesar do documento, de inúmeras declarações e da compra e da produção em larga escala de hidroxicloroquina, ivermectina e outros compostos, o ministro Eduardo Pazuello afirmou esta semana, em entrevista, que o governo nunca recomendou tratamento precoce.

Todas as 93 referências destas orientações foram esmiuçadas pela SBI, que atestou que 33 delas nem sequer avaliam tratamento para COVID-19. Além disso, completam a bibliografia dezenas de documentos não-científicos, artigos não publicados, cartas de opinião e até artigos que exigiram retratação de seus autores devido à quantidade de erros. O mais grave é que todos os estudos padrão ouro para apontar a eficácia de remédios foram desconsiderados no documento do ministério. Claro que, não por coincidência, estes estudos apontam que não há indicação de eficácia para os fármacos utilizados no tratamento precoce.

Na internet, é comum ver defesas fervorosas do uso destes remédios junto de posicionamentos contra a vacina. Quando questionados sobre os estudos, surge a frase “mal não faz”. Sim, faz. Há pesquisas que relatam diversos registros de efeitos colaterais relacionados à toxicidade, problemas cardiovasculares e até agravamento do quadro clínico da COVID-19. Tomar remédio sem eficácia comprovada também dá ao indivíduo uma falsa sensação de proteção, provocando descuido e aumentando a exposição ao vírus. Além disso, o uso indiscriminado de antibióticos e vermífugos pode selecionar bactérias e vermes super resistentes, que potencialmente causam problemas seríssimos de saúde pública a médio e longo prazo.

Não se trata de ser contra o “tratamento precoce” apenas, mas ser contra o uso de dinheiro público empregado em algo comprovadamente sem eficácia, enquanto ações realmente efetivas estão sendo escanteadas. Há pesquisas em curso buscando remédios que, de fato, possam curar ou prevenir a doença. Quando surgirem, faremos festa e, sem dúvida, serão poderosos aliados para eliminarmos de vez o problema. Até lá, temos a vacina. Várias, na verdade, seguras e eficazes. Esse “tratamento precoce”, nos moldes do governo é, na verdade, destratar os brasileiros.

*Hugo Fernandes é biólogo, professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e recebe apoio do Instituto Serrapilheira

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