Desprezar riscos socioambientais pode ser bem caro

Desprezar riscos socioambientais pode ser bem caro

Roberto Dumas*

25 de abril de 2021 | 11h00

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ode ao tempo. Quando ele se passa qualquer frase inteligente dita, escrita ou cantada, passa a fazer bem mais sentido. Como se o mundo fosse atemporal para algumas colocações. Assumindo uma distribuição normal ou curva Gaussiana da minha vida terrena, acredito já ter passado o ponto do inflexão da mesma e afirmar, que tenho mais passado que futuro. Dessa forma, sinto que tenho a licença de citar frases cantadas ad nauseam durante os anos 1970s, em Mi maior e Lá maior baixo Mi: “jurei mentiras e sigo sozinho. Assumo os pecados. O vento do norte não move moinhos” – apenas uma parábola para interpretar poeticamente o que grande parte das empresas do Brasil e até o governo, entendem por ESG (Environmental and Social Governance).

Quanta efemeridade e verborragia para explicar o que provavelmente muitas empresas ja adotavam e outras ainda acreditam se tratar de um modismo de barbudinhos raivosos. Prometem seguir o que é certo para os outros, acreditando assim conquistar e levantar audiências politicamente corretas e lucrarem com esse engodo evidente de se apontar. Dai o “jurei mentiras”.

Alguma empresas ainda se julgam paladinos da retidão socioambiental continuando com sua prosa de pseudo autoflagelação pretensiosa “assumo os pecados”, como se esse ato de assumir os pecados socioambientais ja praticados, as libertassem e conferissem um passaporte para os céus ou conferido pelos seus acionistas por erros passados ou ainda vigentes.

Erram feio as empresas que julgam se adequarem e respeitarem diretrizes de boas práticas socioambientais de seus stakeholders, jogando luz apenas em seus investimentos filantrópicos. Pouco entendem, se propagandeiam e ainda, passam vergonha.

Na reunião de Davos no ano de 2020 discutiu-se a substituição da figura do shareholder capitalism pelo stakeholder capitalism. Com todo o respeito que o evento anual representa, discordo diametralmente. Enquanto definem o shareholder capitalist como aquele que apenas almeja o lucro, definem o stakeholder capitalist como alguém na qual o lucro tende a ser secundário. Como assim? “Os ventos do norte não movem moinho”. Nesse caso uso a canção como minha aliada. Como achar que algum investidor em sã consciência não alocaria seus recursos em uma empresa, que não buscasse a maximização de seus lucros de forma legítima, mesmo desrespeitando moralmente os princípios básicos socioambientais? Pare um pouco e pense.

Você colocaria o dinheiro da previdência de seu filho em empresas que maximizassem o lucro, mesmo que profanando alguns pontos socioambientais ou toparia aplicar seu suado dinheiro em empresas que não maximizassem o lucro a ser usufruído pelo seu filho (a) no futuro? Note. Não se trata de uma pergunta trivial, mas se o respeito com as partes envolvidas de uma empresa (stakeholders) forem deixadas para escanteio, então os próprios acionistas minoritários e seus próprios stakeholders (consumidores, etc.) a penalizariam prejudicando assim o retorno do investimento de seu (sua) herdeiro (a). Isso posto, qual a diferença entre a empresa que busca maximizar seu lucro (shareholder capitalist) com aquela que respeita suas partes relevantes (fornecedores, compradores, colaboradores, consumidores, etc), sabendo que em ambos os casos o lucro resultante seria afetado? Quer por boicotes, prejudicando as vendas e o fluxo de caixa da empresa e/ou por motivos legais e creditícios?

Desfaçatez ingênua é separar capitalismo de acionistas com capitalismo das partes interessadas. Todas as empresas precisam, devem e necessitam verificar e avaliar seus stakeholders (partes interessadas), de modo a minimizar seu risco legal (multas, proibição de funcionamento, etc.), risco reputacional (boicotes que prejudiquem a imagem, as vendas e a lucratividade da empresa) e creditício (menores vendas, menor fluxo de caixa e maior probabilidade de calote do endividamento).

Há mais de 10 anos venho escrevendo e alardeando esse tópico, juntamente com profissionais de diversas áreas. É passada a hora desse romantismo filantrópico, que muitos tem tratado esse assunto, ser jogado de uma vez por todas na vala comum das finanças corporativas básicas e ser considerado como um risco inerente ao negocio a ser avaliado em todo seu espectro e não de forma isolada. Bora evoluir.

*Roberto Dumas, economista. Professor do Insper

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