Desperdiçamos nossas chances

Desperdiçamos nossas chances

José Renato Nalini*

03 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O Brasil já foi depositário da esperança do planeta em relação ao seu futuro. Quando se lê o livro “Uma breve história do futuro”, de Jacques Attali, vê-se  que o prefácio elaborado por Gesner Oliveira alinhava 7 fatores competitivos do nosso país,quando comparado com a China e a Índia.

Eram eles:  primeiro, a consolidação de um regime democrático nas últimas duas décadas, um importante ativo como mecanismo de estabilidade, em contraste com ditaduras ou governos fortes.

Já não se pode dizer esteja disponível esse ativo. Crescem os sinais e muitas manifestações que testemunham a fragilidade da incipiente democracia brasileira. O constituinte prometeu substituir a combalida representatividade por uma democracia efetivamente participativa. Até o momento, isso não se concretizou, enquanto as fórmulas tímidas de participação mediante atuação de Conselhos e a parceria com o Terceiro Setor foram sistematicamente desmanteladas.

O segundo ponto positivo seria a atuação da sociedade civil brasileira. Teríamos demonstrado protagonismo ao resistir à escalada da criminalidade urbana e rural, assim como ao aumento abusivo da carga tributária, enquanto assistíamos à disseminação do voluntariado. Discutível afirmar-se que a luta contra a delinquência tenha sido um sucesso. Há uma ambiguidade aflitiva na ação das milícias e no discurso armamentista impulsionado nos últimos tempos. A carga tributária continua crescente e o voluntariado até que mostrou força durante a desgraça pandêmica. Nada que sinalize real observância do princípio da solidariedade em todo o Brasil.

Em terceiro lugar, o empreendedorismo seria um fator de vislumbre de dias melhores. Mas colide com a educação de baixa qualidade, ainda afeiçoada a métodos superados, sem garantir à infância e juventude o acesso fácil e eficiente ao mundo digital.

Um quarto elemento seria a homogeneidade cultural. A vantagem de um só idioma e a criatividade esfuziante dos brasileiros. Ocorre que está difícil a sobrevivência da cultura, sempre relegada pelo Estado. A política pública reservada à cultura exerce papel insignificante e, crescente o desestímulo a tudo aquilo que já mostrou ao mundo o engenho e a arte de um povo sofrido, mas que não deixa de sorrir e de sonhar.

O quinto ponto a favor do Brasil seria a sua posição privilegiada em termos de dotação de insumos energéticos e recursos naturais. O autor escreveu antes do extermínio do verde, do incentivo a invasores, grileiros e exploradores de minérios em áreas protegidas e em demarcações indígenas. Escrevesse hoje o seu livro e não seria tão otimista quanto ao amanhã dos brasileiros.

Uma sexta condição favorável era a previsão de que o Brasil estaria a desenvolver um conjunto de regras mais adequadas ao investimento. Não parece ser o caso. Os investidores internacionais já consideraram o Brasil um pária ambiental, com os arroubos oficiais de abandonar o acordo de Paris, a recusa em se valer dos fundos internacionais pela ecologia, ao lado da acelerada destruição da Amazônia e de todos os biomas. Inclusive da nossa Mata Atlântica, onde reside a maior parte dos brasileiros.

Por outro lado, não se fez reforma administrativa e o Estado perdulário e ineficiente continua a crescer; não se acelerou o processo de implementação 5G, que viria – entre outros benefícios – a prover a escola brasileira de condições de resgatar décadas de atraso na formação das novas gerações.

O sétimo e derradeiro ponto considerado benéfico para o amanhã brasileiro contempla as migrações internas em massa. O Brasil é uma sociedade urbana com apenas 16% da população no campo. Ocorre que é preciso conhecer de perto a situação aflitiva dos moradores das cidades. A fuga da zona rural trouxe para o agricultor um estágio de exasperante pobreza. Que foi escancarada com a pandemia. Milhões de invisíveis, de desempregados, de subempregados, de informais, mostram que não existe perspectiva de vida digna para enorme legião de brasileiros.

É desalentador verificar o quanto se sonhou e o quão dolorida é a frustração acumulada, em virtude de uma série de eventos nefastos. Crise ética, agravou-se para se converter em profunda crise moral. Afetou a política, que nunca foi um capítulo nobre na história do Brasil. Deu causa a uma crise econômica e social, aprofundando o fosso existente entre incluídos e depauperados. Tudo a culminar com uma peste mal enfrentada, negada por aqueles que teriam obrigação de prevenir quanto aos seus efeitos e de salvar vidas preciosas.

Simultaneamente, uma espécie de fanatismo que lembra a cegueira de Saramago ou partes do inferno de Dante. Polarização fundamentalista com famílias se tornando inaptas ao convívio, diante de suas iradas opções e a desesperança a ampliar sua morada no coração até dentre os mais crédulos.

Gostaria de receber informes que desmentissem ou contrariassem essa visão pessimista. Invoco mais uma vez Saramago que dizia: “não sou pessimista; o mundo é que anda péssimo!”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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