Desmonte da direita

Desmonte da direita

Márcio Coimbra*

04 de janeiro de 2021 | 07h00

Márcio Coimbra. FOTO: DIVULGAÇÃO

Bolsonaro chegou ao poder embalado por uma onda que começou a se formar em 2013, primeiro sinal de fadiga do sistema político. As manifestações daquele ano começaram a dar voz a uma série de pessoas que pregavam uma profunda mudança do sistema. Os grupos eram difusos. Vinham de setores conservadores, militares, antipetistas e posteriormente lavajatistas e até liberais.

Sem um nome forte capaz de catalisar as paixões nacionais, Bolsonaro foi aos poucos ocupando este espaço, agregando em torno de si o sentimento de rejeição ao sistema. Enquanto a classe política tentava viabilizar nomes de centro e a esquerda repetia seus mantras, Bolsonaro encontrou uma avenida livre para transitar em 2018. Venceu com facilidade surfando a onda da nova política.

Ao chegar ao poder embalado por uma nova direita que ainda precisava se encontrar, uma composição confusa de nacionalistas com liberais, reacionários, conservadores, impulsionados pela Lava Jato, Bolsonaro ressentiu-se de uma base política. Seu estilo mercurial de campanha foi transposto para o governo, na mesma medida que incitava o confronto e rifava a cada episódio polêmico todos aqueles que o haviam ajudado a vencer.

Bolsonaro começou a desmontar o embrião de uma nova direita que o havia levado ao poder. Os liberais não enxergaram as reformas prometidas, lavajatistas ficaram chocados com o sepultamento da operação, antipetistas estarrecidos com as indicações para STF e PGR, conservadores traídos pelos rompantes presidenciais e até militares começaram a questionar as humilhações impostas por Bolsonaro para membros das Forças Armadas.

Em outras palavras, Bolsonaro traiu a direita. Ao se apropriar de seu nome sem aplicar suas práticas, iniciou o desmonte de um grupo político que ainda buscava identidade. Ao se aliar com a política fisiologista, que poucos anos antes apoiava as esquerdas, rifou a agenda de reformas e reconstrução do Brasil dentro de métodos liberais na economia e conservador em suas práticas. Mais do mesmo.

Presidente Jair Bolsonaro em Praia Grande (SP), no dia 1º de janeiro. FOTO: REPRODUÇÃO

Aliás, Bolsonaro, que se diz conservador, não guarda qualquer semelhança com esta prática ou ideologia. O conservadorismo é pautado pelo princípio da prudência, pelos instrumentos da cautela, estabilidade e moderação. Nada mais antagônico a Bolsonaro, que lidera um governo instável, beligerante e errático. Ser conservador, na verdade, passa ao largo de uma simples agenda de costumes, que se inclui muito mais em um viés de direita populista.

Bolsonaro desmontou a direita real para criar outra, à sua imagem e semelhança. Um modelo de governar que afasta aliados históricos, se aproxima de amigos de ocasião, enquanto semeia uma popularidade efêmera baseada em um populismo clientelista baseado em ajudas governamentais. Nunca se imaginou um governo tão parecido com o petismo.

Ao desmontar a direita real, perdeu a base que poderia levá-lo à reeleição. Em breve Bolsonaro descobrirá que perdeu tração e embalo. O discurso mercurial e uma direita servil, fabricada para servir aos seus propósitos, não levará seu nome sequer ao segundo turno. O bolsonarismo já vive seu ocaso.

*Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil. Diretor executivo do Interlegis no Senado Federal

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