Desigualdade já não choca

Desigualdade já não choca

José Renato Nalini*

08 de maio de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Converteu-se em lugar comum o asserto de que a pandemia escancarou nossa miséria. Quando se admite que vinte milhões de brasileiros passam fome diariamente, a grilagem e desmatamento na Amazônia não causam indignação e revolta, não é preciso ser psicanalista para concluir que algo não vai bem na sociedade brasileira. Ao contrário, é testemunho contundente de que ela vai moralmente em agonia.

Olhares externos são mais lúcidos do que os nativos. Quem está imerso no cipoal de paradoxos tupiniquins tem dificuldade de enxergar com fidedignidade. Existe o natural interesse pessoal ou corporativo de quem se beneficia do caos social. Nunca se viu tamanha desproporção entre a miséria e mais escandalosa riqueza. Às vezes, no mesmo espaço físico elas são contíguas, embora bem separadas pela blindagem das mansões. Imensos caixotes de concreto, cercados por elevados muros, todos com offendicula, a proteção contra o mundo exterior. Quanta diferença com os países civilizados, onde sequer existe cerca viva a separar o gramado e os jardins das residências ocupadas por gente que confia em seu próximo.

Um sociólogo que há muito estuda o Brasil procura fazer uma análise da situação contemporânea. Ele começa um de seus livros – “O fim do império cognitivo”, com a frase: “vivemos num período no qual as mais repugnantes formas de desigualdade e de discriminação sociais estão se tornando politicamente aceitáveis. As forças sociais e políticas que costumavam desafiar esse estado de coisas em nome de alternativas políticas e sociais estão, aparentemente, perdendo a força e, de um modo geral, parecem estar, em todo lado, na defensiva. As ideologias modernas de contestação política foram em grande medida cooptadas pelo neoliberalismo”.

Uma acusação recorrente à filosofia, é que ela pretende interpretar o mundo, em lugar de transformá-lo. Os “amigos da sabedoria” sempre são recriminados por elucubrarem teorias e nada oferecerem como alternativa prática. A “práxis” passou a ter importância como síntese entre teoria e prática. Para Boaventura, “é imperioso que regressemos à interpretação, a fim de reinterpretarmos o mundo antes de tentarmos transformá-lo. As teorias críticas desenvolvidas durante esse período com o objetivo específico de transformar o mundo não conseguiram fazê-lo nos termos que haviam sido previstos. Pelo contrário, provocaram uma imensa frustração histórica composta de efeitos perversos, de sonhos que se tornaram pesadelos, de esperanças que acabaram em medos profundos e de revoluções traídas; os ganhos civilizacionais que eram tidos como irreversíveis acabaram por ser destruídos e as expectativas positivas inverteram-se, tornando-se negativas”.

Impossível deixar de negar a veracidade de tal posição, apesar de seu manifesto pessimismo. A política, arte da coordenação da vida pública para melhor atender ao interesse coletivo, tornou-se território de profissionais que somente perseguem objetivos exclusivamente pessoais. O vaticínio de que a humanidade, castigada por dois conflitos mundiais, nunca mais recorreria à guerra, mostrou-se falacioso. A promessa de uma era de “ócio criativo”, em que se trabalharia menos e se divertiria mais, só pode ser considerada piada maldosa. A edificação de uma sociedade justa, fraterna e solidária é uma utopia cada vez mais distanciada da realidade. Nesta, digladiam-se fanatismos extremados, semeia-se e cultiva-se o ódio e a intolerância, incentiva-se o armamento da cidadania, para reagir a qualquer ofensa ou incursão em seu patrimônio.

Existiriam alternativas a esse quadro dantesco?

Para Boaventura, “não precisamos de alternativas, e sim de um pensamento alternativo de alternativas”. O que seria isso?

Acordar a cidadania. Primeiro, fazê-la se compenetrar do que é cidadania: o direito a ter direitos. Mas também assumir deveres, obrigações e responsabilidades. A quem mais foi dado, mais será exigido. Vive-se num país de iletrados. Nem sempre desprovidos de escolaridade. Mas pessoas preconceituosas, egoístas, narcisistas, completamente insensíveis às carências do próximo.

Como o constituinte de 1988 teve a coragem de erigir a fraternidade a categoria jurídica, é pregar – evangelicamente – essa condição humana, para que todos se sintam efetivamente vinculados por essa identidade. Somos todos humanos. Enquanto houver iniquidade, o ser racional e sensível não ode estar tranquilo.

Ficção? Sonho irrealizável? Sem o sonho não se vive. Acordemos para a realidade brasileira, tão melancólica, pois a desigualdade entre semelhantes já não consegue chocar sequer os homens de boa vontade.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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