Desenvolver projetos participativos é o melhor ato de intervenção

Jonas Gomes da Silva*

05 Junho 2018 | 04h00

O artigo conceitua projeto e apresenta experiências eficazes para enfrentar coletivamente problemas que afligem a sociedade.

Segundo a ONU, um projeto é um empreendimento planejado que consiste em um conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas para alcançar objetivos específicos, obedecendo os limites de um orçamento e de um período de tempo.

O desenvolvimento de projetos é uma das formas que a humanidade encontrou para enfrentar ou solucionar problemas ao longo do tempo. Construção das pirâmides do Egito (2500 a.c), da muralha da China (220 a.c), do coliseu de Roma (70 a.c), de sistemas de esgoto e irrigação, de embarcações, de canais, de palácios e templos são alguns casos mais antigos.

No entanto, foi a partir da Revolução Industrial que várias abordagens ou técnicas foram criadas (administração científica, PERT, CPM, Gráfico de Gantt, CEP, QFD, Método Taguchi, Matriz X, GUT, PMBOK, organização matricial, etc) para solucionar problemas mais específicos da indústria. Além disso, nas últimas seis décadas, boas práticas de desenvolvimento de projetos foram catalogadas e disseminadas por várias organizações, das quais vale a pena citar duas mundialmente conhecidas: a International Project Management Association (IPMA) criada em 1965 e o Project Management Institute (PMI) criado em 1969. Apesar das contribuições dessas organizações, a tendência no desenvolvimento de projetos é a busca de novas abordagens que tornem o desenvolvimento dos empreendimentos mais participativos e ágeis ao longo do tempo, sendo também implementados em setores como o serviço público e o da sociedade civil organizada.

Se de um lado, por força da concorrência, a indústria tem buscado implementar abordagens ágeis para tornar o desenvolvimento de projetos menos burocrático e mais flexível, por outro lado, é no terceiro setor que há experiências bem exitosas de desenvolvimento de projetos com abordagens mais simples e participativas para enfrentar problemas que afetam a sociedade.

A indústria e o governo poderiam se beneficiar mais com experiências inovadoras que estão espalhadas no terceiro setor pelo planeta, uma delas diz respeito ao processo participativo para diagnosticar problemas, priorizá-los e enfrentá-los por meio de projetos sociais. E quais seriam essas abordagens? Como construir com vários stakeholders projetos de responsabilidade social empresarial, projetos de pesquisa ou projetos de governo?

Bem, foi pensando nisso que o autor lançou pela Agbook o livro eletrônico ou impresso Compêndio para elaboração de projetos sociais: casos nacionais e internacionais de sucesso. A obra tem como público-alvo gestores de RH interessados em reforçar os projetos de Responsabilidade Social Empresarial ou adotar novas abordagens para desenvolver coletivamente projetos de melhoria contínua na organização, bem como professores ou pesquisadores interessados em desenvolver projetos de pesquisa ou de extensão de maneira mais ampla. Também a obra foi focada para os gestores de associações ou fundações responsáveis pela elaboração de projetos para suas organizações.

Em grande síntese, a obra traz várias estatísticas do terceiro setor no Brasil e no mundo, bem como conceitua projetos sociais, apresentando exemplos de casos de sucesso no Brasil, nos EUA e Japão. Além disso, fornece várias orientações técnicas e apresenta cinco abordagens sobre como desenvolver coletiva e economicamente projetos com a sociedade para enfrentar problemas ao longo do tempo.

Dentre os cases de sucesso há um que poderia ser estudado seriamente por governos para enfrentar eficazmente o aumento da violência urbana em várias cidades do país. Trata-se da experiência bem exitosa da Homeboy Industries, uma organização de Los Angeles (EUA) que visitei em 2013 por meio de um intercâmbio patrocinado pela Embaixada dos EUA no Brasil. A organização é reconhecida nos EUA como o melhor modelo de desenvolvimento de projetos voltados para enfrentar a violência urbana em áreas com forte concentração de gangues. Para tanto, a Homeboy Industries desenvolveu vários empreendimentos que fornecem orientação legal, assistência clínica, reinserção dos jovens e adultos ao mercado de trabalho, geração de emprego e renda, volta aos estudos, etc.

Ao longo dos mais de 30 anos de caminhada, o desenvolvimento de projetos nesta organização tem contribuído para que milhares de pessoas (10000 jovens e adultos são atendidos anualmente) deixassem para trás o mundo do tráfico para trabalhar em equipe, lado a lado, aprendendo o respeito mútuo, a partir de tarefas e desafios que são dados dentro do ambiente de negócio. Dentre alguns dos projetos podemos citar: Homeboy Recycling, Homeboy Foods, Homegirl Café, Catering, Bakery, Grocery, SilkScreen, etc, estando presentes em aeroportos e em 50 localidades nos EUA.

Um outro caso é o da Fundação Projeto Pescar que iniciou em 1976, quando o empresário Geraldo Linck (1927-1998) presenciou um menino assaltando um idoso e chocado ao ver a agilidade e o vigor do jovem contra a fragilidade da vítima, resolveu fazer algo para mudar aquela situação de violência.

Inspirado pelo provérbio chinês “se quiseres matar a fome de alguém dá-lhe um peixe. Mas, se quiseres que ele nunca mais passe fome, ensina-o a pescar”, Linck abriu as portas da sua empresa para que 15 jovens em vulnerabilidade social aprendessem uma profissão. Assim, ele montou uma sala e ensinou o curso de Mecânica Automotiva aos jovens selecionados das comunidades do entorno da Linck S. A, nascendo a primeira unidade Projeto Pescar, na época denominada “Escola Técnica Linck”.

Em 1988 foi implantado o Projeto Pescar em outras empresas tanto em nível nacional quanto internacional. Em 2017 a organização completou 41 anos de atuação com mais de 29 mil jovens formados e um percentual invejável de empregabilidade em torno 89,2%.

Além destes dois exemplos, o livro aponta outros cases de sucesso como a ONG Peace Boat situada no Japão. O autor do livro teve a honra de ser voluntário por quase dois meses neste cruzeiro, sendo testemunha de como os japoneses conseguiram desenvolver vários projetos dentro de um modelo de negócio turístico que além de gerar lucro, emprego e renda, também contribui para o desenvolvimento de várias comunidades organizadas ao redor do planeta, as quais recebem os turistas interessados em conhecer a cultura local, fazer intercâmbio, incentivar a paz e o entendimento entre os povos.

E como promover o desenvolvimento local por meio de projetos participativos? O livro aponta 5 abordagens com exemplos construídos durante os 24 anos de experiência nesse seguimento: a primeira e mais conhecida é a Estatística, enquanto que as demais são pouco conhecidas em nosso país: a Soft System Methologoly (Rich Picture) para identificar problemas, a Matriz SCORE para priorizar problemas, a Árvore dos Desafios para estudar as causas e efeitos, a Árvore dos Objetivos que aponta os meios (objetivos ou metas) de enfrentar os problemas, além de identificar os potenciais resultados do empreendimento ao longo do tempo.

Finalmente, os cases e técnicas mostrados no livro apontam que a construção de uma sociedade próspera e mais justa é possível por meio de desenvolvimento de projetos coletivos que atuem diretamente sobre as causas dos problemas, sendo este o maior ato de rebeldia adotado por pessoas de bem que lutam por um Brasil melhor sem precisar recorrer ao uso de armas ou da intervenção militar.

*Prof. Dr. Jonas Gomes da Silva, departamento de Engenharia de Produção, Faculdade de Tecnologia da UFAM. gomesjonas@bol.com.br

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