Desconstruindo a dominação de gênero em número e grau

Desconstruindo a dominação de gênero em número e grau

José Barroso Filho*

15 de fevereiro de 2022 | 10h35

José Barroso Filho. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Conforme a Unidade de Saúde da Mulher da Organização Mundial da Saúde, mulheres que sofreram maus tratos têm até seis vezes mais probabilidade de sofrer distúrbios psíquicos do que aquelas que não tiveram essa experiência, e até cinco vezes mais possibilidade de suicidar-se do que aquelas que não vivem com homens violentos.

Geralmente essa mulher encontra-se isolada.

Esse processo acontece de forma crônica e lenta.

Esses homens têm uma característica de possessão muitas vezes interpretada pela mulher de maneira errada, ela o vê como uma pessoa que a valoriza.

Muitos homens dizem que gostam das suas mulheres e é por isso que ele não quer que ela saia na rua sozinha com saia curta porque ele a quer só para ele.

No primeiro momento ela vê isso como uma coisa de valorização, depois ela vê que é uma coisa de dominação e muitas vezes quando ela se dá conta já não tem grupo de amigos, já não sai a não ser com ele, não se relaciona nem com os vizinhos.

Ele pediu, dizendo que o vizinho estava olhando para ela de maneira errada, e ela foi reduzindo os contatos externos.

Na medida que ela fica isolada, fica sem o retorno social de outras pessoas que poderiam informá-la de que aquilo não é uma conduta adequada e que poderiam ajudá-la.

Ela não tem esse retorno e passa a ter apenas a informação do próprio agressor, que fica dizendo para ela que ela está errada, que se tivesse se comportado direitinho aquilo não teria acontecido.

Então, sem acesso a outras informações, ela tende a culpar-se pela situação.

Entra num estado de desesperança e resistência passiva e se habitua a conviver com aquele tipo de situação.

A seguir, então, a vítima passa a assumir o modelo mental do seu agressor.

É quando ela passa a pensar que ele está certo e ela está errada, mas com o objetivo de garantir a integridade psicológica e adaptar-se à situação.

A essa reação chama-se de Síndrome de Estocolmo, quando a vítima se identifica com o seqüestrador.

Alguns autores usam a mesma denominação para explicar a violência doméstica dizendo que também há uma Síndrome de Estocolmo dentro do próprio lar. Isso acontece quando a vítima estabelece com o seu agressor, no caso o companheiro ou marido, uma relação de total dependência passando a constituir seus esquemas cognitivos do que está acontecendo e da visão de mundo do ponto de vista do próprio agressor.

Nesse momento, ocorre o que chamamos de identificação com o agressor.

Este passa a ser o seu ponto de referência e segurança, e a ameaça fica ligada ao exterior.

Na medida em que essa mulher não tem contato com o exterior, ninguém que possa ajudá-la a entender o que está acontecendo nem garantir-lhe a segurança de que precisa, gasta toda a sua energia para se adaptar a essa situação, para se dar bem com o agressor, porque aí se sentirá segura.

É nesse manejo com o agressor que a mulher garante a sua segurança física e psíquica.

Quais são as conseqüências a partir daí?

O que a mulher estabelece com esse agressor são vínculos traumáticos, paradoxais, resultantes da alternância e continuidade do tratamento positivo/negativo.

Na verdade, ela sabe que se conseguir lidar na fase da explosão, depois vem alguma coisa boa.

Então, tenta manejar a fase de explosão para poder usufruir a coisa boa que vem depois, que é a fase positiva.

Ao mesmo tempo, romper com aquele homem explosivo é também romper com aquele homem que, em algum momento depois, lhe dará algum tipo de prazer, garantia, retorno positivo.

Esse é o vínculo que essa mulher estabelece.

As conseqüências são: grande dependência do agressor, idealização do agressor e defesa das razões do agressor.

Em muitos casos, a mulher não tem condições de sozinha fazer a ruptura desse vínculo com o agressor.

Ela precisa de apoio até se reforçar e poder chegar na frente do homem e dizer que ele não baterá mais nela, encerrando um ciclo de violência, porque ela estava envolvida naquele relacionamento, submetida.

As mulheres vítimas de maus tratos apresentam sintomas crônicos, depressivos e ansiosos que resultam, muitas vezes, em reações psicofisiológicas, a somatização.

Essa é uma das características típicas dessas mulheres.

Esses sintomas, associados aos sentimentos preponderantes de tristeza, raiva e desesperança, sugerem a presença da “síndrome da mulher espancada”, cuja principal característica é a desesperança apreendida.

É aquela depressão na qual não se vê saída.

Aí, fica imobilizada ou explode em atos de extrema violência.

A “síndrome da mulher espancada” é constituída por “violência cíclica e crescente” numa relação simbiótica, isenta a mulher de qualquer responsabilidade, que reage por “auto-defesa” e “auto-proteção”, e que precisa de novos padrões de pensamento para desfazer-se do sentimento de baixa auto-estima, dependência, apatia e valores dos “grupos de referência”.

Neste sentido, alia a dificuldade que a maioria das mulheres possuem em perceber os abusos e também em considerar os atos como violentos nas fases iniciais, geralmente marcadas por “agressões verbais, ciúmes, ameaças, destruição de objetos etc.”

Seguindo aquele perfil, a avaliação da vítima-mulher sobre o agressor-homem representa uma espécie de distúrbio de percepção, resultante da síndrome em que está mergulhada.

Essa vítima, normalmente ao avaliar o agressor como cansado, e/ou alcoolizado, estaria aliviando a responsabilidade dos atos violentos e, por fim, se comportando-se como cúmplice.

Necessária uma apreciação interdisciplinar para bem entender o evento e, consequentemente, promover um adequado ncaminhamento da questão.

Precisamos dar maior aplicabilidade à Lei Maria da Penha, dar todo o apoio psicológico às vítimas, mas também, empoderar economicamente as mulheres, daí a necessária atenção às políticas de crédito às mulheres, com especial atenção ao crédito solidário para grupos de mulheres.

*José Barroso Filho é ministro do Superior Tribunal Militar e conselheiro do Conselho Nacional de Educação

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