Desarmamento infantil: o problema está no brinquedo ou no comportamento?

Desarmamento infantil: o problema está no brinquedo ou no comportamento?

Leonardo Sant’Anna*

16 de abril de 2021 | 10h00

Leonardo Sant’Anna. FOTO: DIVUGAÇÃO

Vamos começar com uma consequência que tenha se tornado realidade. “Adolescente mata amiga com tiro acidental após pegar arma do pai em condomínio de luxo em Cuiabá, diz PM”. Isabela, de 14 anos foi atingida por um tiro na cabeça. Essa foi a realidade. Isso é verdade? Sim, é verdade. Ponto final. Uma verdade triste e incontestável.

Uma verdade que tira o fôlego de qualquer mãe, pai, irmão ou de mim, que não tenho qualquer grau de parentesco com a família que teve essa perda e que não tem a mínima chance de ser revertida.

Vamos lá. Isabela teve sua vida retirada pela amiga, da mesma idade. Inicialmente viriam a nossa cabeça a seguintes informações: “A amiga de Isabela não brincava de boneca e de casinha quando era pequena.” Ou “Ela brincava com pistolas d’água ou jogava videogames de tiro e guerra.” Você concorda com essa afirmação sobre os brinquedos da infância da amiga? Ela pode ser considerada verdade? Surge algo que pode ser questionado.

Sem luxo mas com reflexões

O Brasil tem crianças do tráfico, soldados juvenis e um índice de morte e criminalidade muito relacionado aos espaços onde o Estado não consegue alcance educacional, social e de trabalho. Essas vertentes são comprovadas e bem intensas em nosso país. Em nenhum dos espaços onde isso é presente existem condições para dizermos que mães e pais oferecem armas de brinquedo aos seus filhos.

Também é surreal imaginar que estejam presentes nesse mesmo público condições econômicas que sejam facilitadoras para acesso a armas. Pelo menos não as normalmente compradas conforme as condições comerciais atuais desses produtos.

Mas partindo do pensamento de quem conecta o trinômio armas de brinquedo-infância-desvios, filhos e filhas de pilotos de Fórmula 1 e Stock Car, por brincarem com seus carrinhos, deveriam se tornar jovens que pegam automóveis escondido para fazer “pegas” nas ruas? Filhos de médicos ou profissionais de saúde, ao terem uma maletinha com injeções de brinquedo, deveriam se tornar viciados? Filhos e simpatizantes de profissionais de segurança, ao vestirem fardinhas estilizadas no 7 de setembro, deveriam se tornar alvos de criminosos? Veja como essas previsões ficam fáceis de desmascarar.

Mas o que dizem outros especialistas?

Seu cérebro possivelmente ficou tão confuso quanto o meu. Mas essa cãibra mental é natural quando trazemos outros exemplos sociais para nossa discussão. Aliás, fica o agradecimento e a homenagem ao Psicólogo a Albert Bandura, criador da teoria da Aprendizagem Social.

O psicólogo canadense e professor da Universidade de Stanford, destaca nesse conceito, validado e aceito academicamente em todo o mundo, que o tipo de aprendizado que lhe trago acontece por meio da observação. Ele indica que o estado mental interno daquele que está aprendendo desempenha um papel crucial no processo aceitação de conhecimento.

A aprendizagem social se forma a partir da interação entre a mente do aprendiz e o ambiente ao seu redor. Dito isso, fica fácil entender o porquê de não termos uma legião de pilotos de pega, viciados em remédios e de usuários desviados de armas de fogo em nossas sociedades.

Exemplos e acompanhamento adequados, em qualquer tipo de brincadeira entre crianças, desaguará em um comportamento social seguramente saudável.

Lisa Zamosky, especialista americana em saúde é escritora premiada do Los Angeles Times. Com artigos publicados na Reuters, MSNBC, Health.com e Chicago Tribune, ela trouxe algo revelador sobre esse mesmo tema em seu artigo para um portal de saúde dos EUA, o WebMD.

Em uma conexão técnica com Michael Thompson, PhD, psicólogo infantil e autor de It’s a Boy! O desenvolvimento do seu filho desde o nascimento até os 18 anos, ela nos relata a seguinte fala do pesquisador: “Todo mundo tem uma teoria informal de causalidade de que brincar com armas leva ao uso delas na idade adulta. No entanto, a maioria dos homens adultos que se envolveu em armas de fogo quando crianças não comete crimes violentos.”

Perguntar não ofende

Dessa maneira pipoca em nossos corações a seguinte questão: de que tipo de desarmamento infantil precisamos tratar? O desarmamento real, que aflige famílias e crianças pela ausência de quem deveria governar corretamente o nosso país ou o desarmamento fictício, voltado ao questionamento de quem pode usar armas de brinquedo, que raramente são conectadas a desvios de comportamento e tragédias futuras?

É o momento em que novamente lhe pergunto: o problema está no brinquedo ou no comportamento?

*Leonardo Sant’Anna, especialista em segurança pública e privada. Atuou como consultor de segurança internacional em diversos países, alguns deles pela ONU. Autor do livro Quem mexeu na minha segurança? e realizou treinamentos para corporações como o Bope

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