Desafios trabalhistas e de gestão envolvidos na decisão pela manutenção do home office

Arthur Asnis*

04 de julho de 2020 | 02h00

À medida que se inicia o relaxamento do isolamento físico, também conhecido como social, ficam evidentes as mudanças que as empresas têm feito para adaptarem-se à essa realidade. Entre os temas mais debatidos por gestores, está a manutenção ou não do home office.

Um estudo conduzido pelo professor André Miceli, da FGV, aponta que o trabalho remoto deve crescer 30% no Brasil[1] e é fato que o home office permanente já tornou-se realidade em muitas empresas, que estão revisando suas operações e reconsiderando a necessidade de sedes físicas.

É verdade que muitas empresas de diferentes frentes no país já praticavam o home office de forma esporádica antes mesmo da pandemia. Diante do isolamento social e da falta de perspectivas sobre vacinas e medicamentos seguros pelo menos até 2021, tenho visto muitas organizações abolindo o escritório físico e estabelecer o home office permanente para 100% da equipe, para preservar a saúde de todos e evitar a busca por um escritório maior neste momento, devido ao novo cenário e sugestões de distanciamento dentro dos escritórios. Seguir um plano e agir de forma rápida tem levado a resultados positivos e está permitindo aos colaboradores se programarem para esse modelo de trabalho. Muitos, inclusive, estão planejando sair de São Paulo para viverem com suas famílias, diminuindo despesas e adequar suas casas para o trabalho remoto permanente.

Na empresa em que atuo, a entrega dos serviços à distância tem sido até mais eficaz. Nesse período, já contratamos três novos colaboradores e nosso foco agora é no novo modelo de venda de serviços. Quem vende serviços vende confiança, e vender confiança à distância – mostrando-se somente da cintura para cima – é um desafio.

Trabalhar sem poder sair de casa é algo que muitos não haviam experimentado de forma coletiva, o que vem obrigando empresas a criar ou passar a utilizar novas ferramentas de gestão e benefícios. Começam a ser ampliados benefícios como o vale-internet, o vale-refeição flexibilizado para vale-alimentação, o uso de recursos do antigo escritório para treinar pessoas e equipar as estações de trabalho nas casas dos colaboradores.

Em relação à jornada de trabalho, recentemente o LinkedIn divulgou uma pesquisa que aponta que 21% das pessoas está trabalhando até 4 horas a mais que antes[2]. Esse é um ponto de alerta para as empresas, pois horas extras são as líderes do ranking de processos trabalhistas, mesmo após a reforma da CLT. Ou seja, a má gestão em relação à quantidade de horas trabalhadas em home office pode resultar em sérios passivos trabalhistas.

Em outros tempos, além de demonstrar o pagamento das horas extras efetivamente realizadas, testemunhas eram arroladas pelas empresas para contestar em juízo as alegações dos autores do processo.

Ainda que a MP 927 (22/3/20) não tenha sido específica em relação à jornada de trabalho e remeta ao guarda-chuva do teletrabalho – que em seu bojo traz a previsão de inexistência de horas extras – como decidirão os juízes e os tribunais? Isso tudo pode ser uma discussão sem fim e bastante cara.

Por isso, empresas que flexibilizarem o home office ou o adotarem definitivamente, devem considerar contar com a tecnologia para não caírem em armadilhas jurídicas. Softwares que controlam a jornada dos funcionários, por exemplo, são uma forma legalmente reconhecida para evitar problemas e ainda proporcionam mais qualidade de vida às pessoas, ao bloquearem suas máquinas nos horários de descanso e no fim do dia de trabalho, salvo se uma solicitação prévia de flexibilização for realizada pelo gestor.

Frente a esses desafios, independente das ferramentas escolhidas pelas empresas para adaptarem-se à nova cultura de trabalho, é preciso lembrar que o maior ativo de uma organização são as pessoas e que líderes devem priorizar condições de trabalho adequadas, seja no escritório ou dentro de casa.

[1]https://valorinveste.globo.com/objetivo/empreenda-se/noticia/2020/04/14/home-office-deve-crescer-30percent-apos-crise-de-coronavirus-aponta-fgv.ghtml

[2]https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2020/05/27/home-office-deixa-profissionais-mais-ansiosos-e-estressados-revela-pesquisa-do-linkedin.ghtml

*Arthur Asnis, sócio-diretor da Soft Trade

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