Desafios do planejamento financeiro para universitários

Desafios do planejamento financeiro para universitários

Ana Baraldi*

03 de junho de 2020 | 04h00

Ana Baraldi. FOTO: HELENA NAVARRO

Quando falamos de comportamento financeiro, quanto antes começamos a nos preocupar com o tema, melhor porque temos o tempo como aliado. A ideia de ter juros de investimentos rendendo desde o começo dos vinte anos até a aposentadoria parece o sonho de muita gente que quando se depara com o tema pensa: “Por que não comecei antes?”

Os universitários brasileiros podem ser divididos em dois grandes grupos: os que podem apenas estudar e os que já trabalham desde o começo da faculdade. Segundo estudo do DataPopular, 70% dos universitários conciliam estudos e trabalho desde o começo do curso. Neste momento não quero entrar no mérito do impacto no estudo desses dois tipos de realidade, mas apenas salientar que alguns estudantes já começam a faculdade com uma renda e outros ainda não.

Hoje em dia, a maior parte do conteúdo de finanças é desenhado para quem já tem uma renda e normalmente não é feito para quem está estudando. Alguns tipos de gastos são bem específicos desse período da vida, desde o próprio gasto com o ensino, até livros, computador, algum equipamento específico da profissão, etc. Provavelmente são realidades que não se enquadram nas regras prontas de quanto gastar e poupar que os especialistas em finanças trazem. Além disso, ainda podemos levar em conta o número de estudantes que abandonam os estudos por problemas financeiros. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Lobo em 2016, a evasão já beira os 30%.

Com todo esse cenário torna-se essencial falar de planejamento financeiro no momento de escolha de qual curso fazer, onde fazer, quanto de dinheiro será necessário, com quem vou contar, etc.

O começo é muito parecido com um planejamento financeiro tradicional: entender as entradas e as saídas. Se estamos considerando o momento da tomada de decisão de começar um curso novo, é super importante conversar com quem já está dentro do curso para entender desde valores básicos como o preço do café na cantina, até carga de textos e livros que podem implicar em novos gastos. Conhecer a realidade antes de entrar nela permite um planejamento mais coerente com o que será encontrado.

Em relação às entradas é importante entender como serão pagos os gastos durante os estudos: será por trabalho próprio? Algum parente irá ajudar? Por quanto tempo? É possível conseguir um estágio na própria universidade? Dar mentoria? Conseguir uma bolsa? Com a carga horária é possível estagiar? Todas essas questões são super válidas para que a preocupação com as finanças não seja mais uma das variáveis de perda de sono no começo da universidade.

Outro ponto que é importante de ser levado em conta, é como o perfil dos gastos e de entrada de recursos vai mudando ao longo da graduação. Em alguns cursos, os gastos são mais intensos no começo da faculdade, como Odontologia e toda a aquisição de equipamentos necessária para realizar os estudos, ou ainda existem cursos em que a possibilidade de conseguir um estágio na área são mais remotas nos primeiros anos, como para alunos de Engenharia. Em alguns cursos, quanto mais perto de se formar você está, maiores são os seus gastos. É o caso dos alunos de Medicina que vem os seus custos aumentarem durante o internato, desde os valores para as provas de residência até o acompanhamento de cirurgias em horários que não existe transporte público funcionando. Com isso torna-se muito importante revisitar o planejamento de tempos em tempos. Criar esse hábito de ver e rever o orçamento é uma habilidade que se conquistada desde cedo na vida só tende a ter bons frutos no futuro.

A vida universitária já tem diversos desafios: novas pessoas, ambiente diferente, escolher qual será o próximo passo no mercado de trabalho e a falta de planejamento financeiro pode ser um desses desafios se não for levado em conta na equação de decidir o que e onde estudar. A provocação que gostaria de deixar é que ao olhar para a questão financeira como um quesito decisor na hora de definir o próximo passo profissional pode evitar que lá na frente uma má decisão resulte em uma desistência do curso.

*Ana Baraldi, diretora de Inovação da Provi

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: