Deputado preso no Rio diz que loteamento de cargos é ‘prática política’

Deputado preso no Rio diz que loteamento de cargos é ‘prática política’

André Corrêa (DEM), alvo da Operação Furna da Onça, foi interrogado na Polícia Federal no dia 8 de novembro e afirma que ‘nunca’ recebeu propina

Julia Affonso

14 Novembro 2018 | 13h03

O deputado estadual André Corrêa (DEM), preso na Operação Furna da Onça, confirmou, em depoimento à Polícia Federal, que diversos cargos públicos são divididos pelos parlamentares da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). André Corrêa negou que haja um loteamento de cargos. Segundo o deputado preso, trata-se de ‘prática política’.

A Furna da Onça foi deflagrada no dia 8 de novembro. A operação investiga um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos e mão de obra terceirizada em órgãos da administração estadual. André Corrêa e outros deputados tiveram a prisão temporária convertida em preventiva por ordem do desembargador Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região (TRF2) na segunda-feira, 12.

André Corrêa disse à PF que está no sexto mandato eleito. O delegado federal Antonio Carlos Beaubrun Júnior perguntou ao deputado se ele conhecia uma ‘divisão’ das regiões do Estado do Rio e dos postos do Detran entre os parlamentares.

O deputado declarou ter ‘conhecimento desta prática’. “Pelo que sabe, existe essa questão até hoje coordenada pela área política do governo estadual , onde o deputado mais bem votado numa região do estado indica pessoas para exercer funções públicas nestas áreas, sendo essa uma prática adotada na Alerj desde que chegou naquela casa; Que, esclarece que essa é a regra geral , embora haja exceções, específicas”, disse.

A PF questionou André Corrêa sobre uma tabela apreendida com o deputado estadual Edson Albertassi (MDB), preso na Operação Cadeia Velha, no ano passado. Segundo a planilha, André Corrêa ‘teria a sua disposição cargos nos postos do Detran (dentre outros órgãos) contidos nos municípios de Valença, Nova Friburgo, Vassouras e Cantagalo’, cidades do interior do Rio.

“Indagado se o declarante reconhece essa divisão, relata que sim, porém não há ilicitudes alguma nessa prática política envolvendo o declarante; que, com essa distribuição na Alerj, relata que indicou em Valença – o atual chefe do Detran Sebastião, pessoa de sua confiança; que, em Nova Friburgo indicou uma pessoa que não se recorda o nome a partir de sugestão do ex-prefeito Rogério Cabral”, relata o depoimento.

“Em Vassouras indicou Pedro Paulo, a partir de indicação do então vice prefeito Ricardo Cavalheira; que, em Cantagalo indicou uma pessoa que não se recorda, a partir de indicação do prefeito Guga de Paula.”

Segundo o deputado, ‘pela prática política de governabilidade da Alerj teve direito a tais indicações uma vez que foi o deputado mais votado nestes municípios’. André Corrêa declarou que ‘algumas destas pessoas foram indicadas até em outros mandatos, salvo engano, todos’.

O deputado disse não lembrar ‘quem lhe deu a possibilidade, mas veio da secretaria de governo do estado a possibilidade de tais indicações’.

“Indagado qual seria a motivação desse ‘fatiamento’ do Detran entre os políticos, relata que além do fato utilizar o deputado mais votado, é uma prática política que se repete em todas esferas como no governo federal e governo municipal, visando construir maioria parlamentar, ou seja, participação política no governo”, afirmou.

“Indagado se há esse mesmo loteamento em outros órgãos (Fundação Leão XIII, FAETEC , Fundação da Infância e da Adolescência), o declarante relata não se trata de loteamento, e sim uma prática política, que isso segue a mesma regra política já indicada, tendo indicado pessoas na Fundação Leão XIII de Valença (pessoa indicada por si) e Vassouras (indicada por Ricardo Cavalheira), porém não indicou ninguém em Friburgo e Cantagalo (pelo que se recorda).”

André Corrêa declarou ainda não se recordar de ter indicado ninguém na Faetec e Fundação da Infância e da Adolescência.

Alerj

A Polícia Federal questionou André Corrêa sobre o suposto esquema de corrupção instalado na Alerj. O deputado afirmou que ‘nunca recebeu valores advindos de propina’.

O parlamentar declarou conhecer Sérgio de Castro Oliveira, apontado pela operação como operador financeiro do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) – preso desde novembro de 2016, condenado na Operação Lava Jato a mais de 180 anos de prisão. O deputado disse já ter visto ‘Sejão’ na Assembleia e no Palácio Guanabara ‘algumas vezes’ por cerca de ‘15 ou 20 anos’.

A PF relatou ao deputado que ‘Serjão’ e Carlos Miranda, delator e também operador financeiro do esquema, atribuíram uma mesada ‘ao menos durante todo o segundo mandato do ex-governador’. Os valores teriam sido repassados ao chefe de gabinete José Antonio Wermelinger Machado. Os investigadores narraram ainda haver ‘registros desses pagamentos ao longo dos anos de 2011 a 2014 perfazendo o total de R$ 2,675 milhões pagos em propina’.

André Corrêa declarou que ‘nunca autorizou recebimentos de valores por José Antônio e não acredita na existência de tais fatos’.

“Desconhece esses pagamentos, nunca tendo visto ou recebido tais valores; que, nunca ajustou nenhuma contrapartida solicitada por Sérgio Cabral e seu grupo para quaisquer pagamentos”, declarou o deputado. “Nunca recebeu tais valores e não acreditada que José Antonio possa ter recebido ou feito por sua livre e espontânea vontade tal ato.”