Depressão é um problema de saúde pública, precisamos falar sobre isso

Depressão é um problema de saúde pública, precisamos falar sobre isso

Raquel Tatiane Heep*

08 de julho de 2022 | 07h00

Raquel Tatiane Heep. FOTO: DIVULGAÇÃO

A depressão, depois da ansiedade, é o que mais acomete as pessoas. O sofrimento que ocasiona é tão doloroso e gigante que ninguém gostaria de escolher isso para si.

A vida realmente perde o colorido, momentos que antes tinham tanto prazer e proporcionavam alegria já não encantam em nada. O sofrimento parece ser infindável, incontrolável e imenso.

E sem tratamento e apoio necessários o paciente pensa em eliminar com sua dor, nem que para isso seja necessário também pensar em morrer. Assim iniciam-se os pensamentos de morte e suicídio.

Negatividade, choro, isolamento, não tem mais prazer em atividades que antes gostava de fazer, como cuidar dos filhos, caminhar, ir ao shopping e trabalhar. Em alguns casos, a pessoa que está deprimida deixa de fazer atividades rotineiras do dia a dia como tomar banho, por exemplo, sofre alterações de sono, de apetite, e passa também por mudanças cognitivas, alterando memória e concentração.

Costumo usar essa analogia para explicar como se sente a pessoa com depressão. É como se usasse óculos negros e, a partir dali, passa a ver tudo ao seu redor, com lentes escuras, com grande impacto nas relações humanas. Não raro, começa a nutrir sentimentos negativos de que não vale nada, que é menos importante que os outros, que nada vai dar certo.

A depressão, para ser caracterizada como doença, o indivíduo precisa ser diagnosticado com esses sintomas na maior parte do tempo, pelo menos 15 dias ininterruptos. Esses sentimentos negativos não são passageiros, logo, a pessoa depressiva os sentem repetitivamente e todos os dias.

Ninguém escolhe pela depressão

Importante dizer que essa enfermidade tem uma característica psicossocial sim, do ambiente e da história da pessoa, mas também um componente genético. As pessoas que têm um membro da família depressivo, têm maior chance de apresentar o problema, e é preciso falar sobre isso. O triste é ainda existe muito preconceito e mitos sobre esse assunto, como rotular a pessoa depressiva como preguiçosa, acomodada, sensível e outros adjetivos errôneos.

Cientificamente, existem alterações químicas no cérebro, alterações de neurotransmissores, como noradrenalina, serotonina, dopamina, endorfina, glutamato, trazendo à tona todos esses sintomas. Sabe-se que o suicídio tem como uma das causas a depressão não curada. O Brasil ocupa a oitava posição entre os países que mais têm casos de suicídio, já a depressão é a segunda doença que mais incapacita as pessoas no mundo inteiro. O nosso país está em segundo no ranking das Américas com maior número de pessoas depressivas, equivalente a 5,8% da população. À frente está os Estados Unidos com 5,9%.

Um dado triste, mas real, é que a maioria das pessoas não recebe o tratamento correto. Às vezes e, dependendo do caso, precisa de acompanhamento mais longo. Quando o diagnóstico é feito em fase inicial, é possível já entrar com medicação avaliada para cada caso, e assim, conseguimos devolver à pessoa depressiva mais qualidade de vida e lentes coloridas.

Adultos, crianças, idosos, ricos, pobres, famosos, esportistas, anônimos, homens e mulheres, inclusive nossos vizinhos, familiares, sofrem da doença considerada do século, e trazem consigo relatos de dor e sofrimento. De acordo com dados da OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde, agência internacional especializada em saúde pública das América, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos, e na grande maioria dos casos, a depressão tem como base. O levantamento também mostra que, cerca de 800 mil pessoas morrem ao cometerem suicídio todos os anos.

A OMS relatou que 1% do todas de mortes ocorre por suicídio, e continua sendo uma das principais causas de morte no mundo. Além disso, para cada tentativa que chega a uma emergência, calcula-se que cerca de 17 pessoas já pensaram em autoextermínio. Estamos diante de um problema sério de saúde pública e é preciso falar sobre isso sim, em todas as esferas, no trabalho e em casa.

Desmistificar os transtornos mentais, aqui em especial a depressão e o suicídio, é o que trará resultados e apoio efetivo. Precisamos reforçar novamente práticas importantes como boa alimentação, sono de qualidade, prática de exercícios físicos, evitar excessos de todos os lados, relações interpessoais saudáveis, trabalhar com o que gosta de fazer.
Precisamos falar um pouco mais de acolhimento. Já que estas dores estão tão perto de nós, e às vezes, até dentro de nós. É importante tirar as vendas do preconceito e tabus contra as doenças psiquiátricas.

Infelizmente, a falta de informação sobre a existência de tratamento eficaz e o excesso de medo do julgamento, ou seja, o preconceito, evoluem para um caminho triste. É urgente reverter isso. Dar margem a escutar sobre a dor de alguém, ouvir de verdade, sem julgar, acolher com seriedade e estimular a buscar ajuda.

Psiquiatras e psicólogos não são cuidadores de “loucos”, são profissionais de saúde mental, e são bastante acessíveis. Falar sobre ideias de suicídio não vai estimular a fazer, vai sim dar alívio e proporcionar enxergar caminhos e saídas que não esteja vendo. E realmente podemos, e devemos mudar este cenário. Vamos ouvir com coração, acolher com atenção e estimular busca de ajuda, conduzido por mãos amigas.

*Raquel Tatiane Heep é psiquiatra, coordenadora da pós-graduação em Psiquiatria e Saúde Mental da Ebramed – Escola Brasileira de Medicina

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